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Até quando vale a pena ter pena de si? Autocompaixão não é autoindulgência

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Heloísa Noronha

Colaboração com Universa

28/06/2019 04h00

Em um primeiro momento, podemos achar que autocompaixão e autoindulgência são sinônimos. Embora, de fato, sejam palavras parecidas, suas semelhanças ocorrem mais na forma do que no conteúdo. Os dois sentimentos têm a ver com a maneira com que lidamos com nossos erros e falhas, mas enquanto um nos empurra para a frente, o outro faz com que caminhemos em círculos. A autocompaixão, de acordo com a psicóloga Aline Saramago, do Rio de Janeiro (RJ), ocorre quando nos permitimos ter preocupação e gentileza com nós mesmas, respeitando nossas limitações e qualidades e procurando não nos julgar tanto.

"É o olhar bondoso, caridoso e cuidadoso que nos permite agir em benefício próprio quando reconhecemos um engano, um fracasso. Constatar nossa humanidade e imperfeição, e estender o sentimento de compaixão a nós, individualmente, é extremamente importante para aliviar os sentimentos negativos e ter motivação para seguir adiante", completa Solange Santos, consultora em treinamento e desenvolvimento humano, de São Paulo (SP).

Quem pratica a autoindulgência, por outro lado, tende a negligenciar e justificar demais os próprios erros e é complacente além dos limites saudáveis. "É claro que é importante se perdoar por ser imperfeita, mas uma coisa bem diferente é minimizar sempre os erros e passar a mão na própria cabeça, sem mudar", diz Aline. Em excesso, impede avançar em outra direção que não conduza à proteção de si mesma e atribua certas culpas às outras pessoas.

Segundo a psicóloga Izabel Failde, especialista em autoestima, autoconhecimento e liderança para mulheres, a autocompaixão inclui um aprendizado. "Já a autoindulgência faz com que o comportamento não só se torne 'desculpável' como se repita por muitas e muitas vezes", declara. Os dois casos envolvem sentir pena de si mesma, a diferença é que na autoindulgência isso se torna um hábito --ou melhor, um vício-- que pode prejudicar várias esferas da vida.

"Se tudo que eu faço é normal, se a todos os meus erros eu repondo que errar é humano, se não tiro lições e aprendizados, ignoro grandes falhas, quem eu me torno?", pergunta Solange.

De acordo com ela, sentir pena de si em excesso pode levar as pessoas a se sujeitarem a viver situações degradantes, a se acostumarem com humilhações, a permitirem mais abusos por parte de chefes e parceiros e a desenvolverem compulsões por compras, comida, álcool ou drogas como forma de fuga. "Há, também, o risco de tornar o 'coitadismo' um estilo de vida. Há quem sinta prazer em provocar esse sentimento nas pessoas ao redor", observa Izabel.

Essa conduta pode operar seguindo dois mecanismos completamente antagônicos: o egocentrismo, em que a pessoa gosta de ser ver no papel de causadora dos males, e a baixa autoestima, quando o amor-próprio é praticamente nulo ou impossível de ser sentido, percebido, cultivado.

Como mudar a chave e romper esse padrão?

"O primeiro passo é compreender que as falhas são inerentes à condição de ser humana, mas que não é por isso que as repetições são 'desculpáveis' e aceitáveis' para sempre", segundo Izabel. Outra recomendação é buscar ampliar a percepção de si mesma e a autoconsciência, observando suas reações a assuntos, ambientes e pessoas. Sabendo como age e reage é possível melhorar o autocontrole, que é um "freio" para comportamentos que provavelmente vão gerar arrependimentos posteriores.

"Também é fundamental desenvolver a compreensão de que momentos ruins fazem parte da vida e que podem durar mais ou menos tempo de acordo com a forma que lidamos com eles. São como aquelas visitas indesejadas que não podemos dar espaço, senão elas vão ficando até tomarem a nossa cama", compara Solange.

Para Izabel, o maior esforço é evitar substituições e/ou "recompensas" desmedidas. Aqui entram os comportamentos compulsivos --compras, comida, bebida, fumo, drogas, sexo, relações doentias-- que causam prazer e "evitam" o contato com a dor. O fato é que tanto o prazer quanto a dor adiada são momentâneos e podem gerar consequências ainda mais desagradáveis e desequilibradas.

"Nesses instantes, permita-se momentos de prazer e alegria, sem substituições: assistir a um filme que gosta, visitar uma exposição, dançar, cantar, sair com amigos, ler um livro e dedicar-se a algum hobby são alguns exemplos simples", fala a psicóloga.

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