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Aula de feminismo no RJ: escola pública ensina sobre autoras mulheres

Discutir livros escritos por mulheres e assuntos de feminismo as fez mudar o jeito de encarar a vida fora da sala de aula - Lucas Landau/ UOL
Discutir livros escritos por mulheres e assuntos de feminismo as fez mudar o jeito de encarar a vida fora da sala de aula Imagem: Lucas Landau/ UOL

Elisa Soupin

Colaboração para Universa

26/06/2019 04h00

Sentadas ao redor de uma mesa redonda, de modo que todas, professoras e alunas, possam se ver, acontece a reunião do Fórum das Minas, grupo de Iniciação Científica Júnior do Colégio Pedro II do Engenho Novo, na Zona Norte do Rio, dedicado a debater autoras mulheres e obras feministas.

As bolsistas têm entre 16 e 17 anos e dividem, além do interesse pela literatura, vontade de entender mais sobre o papel da mulher na sociedade e na história. Na manhã em que Universa esteve na escola, vivências, incômodos, ideias e percepções (literárias ou não) estiveram à mesa.

As primeiras páginas da história do grupo foram escritas em 2015, com a sugestão da leitura de "Sejamos todos feministas", da autora nigeriana Chimamanda Adichie, para as turmas.

"A gente começou a fazer um trabalho com o 9º ano sobre argumentação e sugeri que a gente usasse esse livro para debater aspectos argumentativos. Usamos também o 'Para educar crianças feministas' (da mesma autora). A gente percebeu que a recepção do assunto foi de bastante interesse. Por outro lado, também houve alguma resistência inicial", conta a professora de Português Ana Claudia Abrantes.

A orientação das professoras, durante as aulas - Lucas Landal/ UOL
A orientação das professoras, durante as aulas
Imagem: Lucas Landal/ UOL

Em conjunto com as docentes Aline Brito, Cristiane Barbalho, Paula Alves e Yandara Moreira, Ana Claudia foi sentindo a crescente necessidade de abordar o tema.

"Nós somos um grupo de professoras de língua portuguesa, então, pensamos em como reunir a questão de um olhar para a mulher, costumeiramente silenciada, às leituras. Assim, veio o desejo de formar esse grupo de iniciação científica com o objetivo de conhecer escritoras mulheres, tanto na poesia quanto na prosa. Inevitavelmente, a gente acaba falando sobre as diferenças de gênero", conta ela.

A ideia virou parte do Programa de Iniciação Científica Júnior (PIC). É um programa criado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) para despertar nos jovens o gosto pela ciência, e motivá-los na escolha profissional por carreiras científicas e tecnológicas, que paga uma pequena bolsa a alguns alunos selecionados para ampliar leituras e estudos na escola.

O feminismo é contagioso (ainda bem)

No ano passado, a escola sediou o Fórum das Minas, uma semana inteira dedicada a receber mulheres com destaque em suas áreas de atuação e debates sobre a desigualdade de gênero. Bolsistas e professoras participaram, levando para todos os alunos as ideias discutidas. Também no ano passado, a autora Clarice Lispector foi homenageada em um evento da escola. Depois disso, o interesse pela iniciação científica voltada para o feminismo aumentou muito.

"Em 2018, tivemos seis alunas bolsistas. Agora, teremos 15 bolsas. Na seleção, foram mais de 40 alunos interessados em integrar o grupo. Houve um despertar para o assunto, que, por desconhecimento, muitas vezes é visto de forma ruim, com um julgamento pejorativo. Inclusive meninos vieram. Esse ano, teremos dois bolsistas", conta a professora Paula. As alunas recebem R$ 150 reais mensais por cinco meses e levam para casa uma grande demanda de leitura que deve ser feita para as discussões nos encontros semanais, que tem duração de cerca de uma hora.

Quantas autoras mulheres você leu na escola?

Cecília Meireles, Clarice Lispector e quantas outras? O fato do cânone literário ser composto quase integralmente por homens -- e a necessidade de mudar esse panorama -- é um ponto comentado por alunas e professoras.

"Meu primeiro contato com uma autora mulher foi no primeiro ano, com o livro "Quarto de Despejo", da Carolina de Jesus. A gente só lia escritores homens e essa leitura me despertou muito interesse, quis participar do grupo por do livro", conta a estudante Patricia Souza.

Elas dizem que o que leram em sala de aula as ajudou a mudar perspectivas  - Lucas Landau/ UOL
Elas dizem que o que leram em sala de aula as ajudou a mudar perspectivas
Imagem: Lucas Landau/ UOL

"Há uns anos, um aluno me perguntou assim: professora, antigamente, mulher não escrevia, não? E a gente sabe que, com todas as dificuldades, as mulheres escreviam, elas só não eram lidas. Eu venho tentando trazer para a sala de aula essas leituras. Quando a gente lê os parnasianos, por que não lê a Francisca Julia? Nos românticos, por que não lemos Nísia Floresta? Eu só conheci a Nísia depois de começar a dar aula. Na faculdade, nunca me falaram sobre ela", diz a professora Aline Brito, sobre a escritora de origem francesa que foi uma das pioneiras na educação feminista no Brasil, no século 19.

"Quero trazer para a sala de aula essas autoras que foram silenciadas. A gente tem o caso, por exemplo, da Julia Lopes, escritora que ajudou a criar a Academia Brasileira de Letras, mas nunca conseguiu entrar, porque mulheres foram vetadas na ABL. A gente tem que pensar nas mulheres que vieram antes de nós e em todas as dificuldades muito maiores", conta Aline.

"A coisa que mais me marcou em todo o processo foi ler um texto da Clarice em que ela comenta Virginia Woolf, pensando como seria a vida da irmã de Shakespeare e como ela teria encontrado dificuldades completamente diferentes das de um homem", comenta a aluna Luiza Moraes.

Muito além da literatura

Todas as alunas contam, cada uma à própria maneira, que as discussões compartilhadas a partir de leituras as ajudou a significar atitudes e incômodos que vivenciam.

O tradicional uniforme feminino do Colégio Pedro II, composto por uma blusa de botão e uma saia plissada, já gerou muita dor de cabeça para a estudante Patrícia Souza.

Reunidas, as alunas cariocas estudam autoras mulheres  - Lucas Landau/ UOL
Reunidas, as alunas cariocas estudam autoras mulheres
Imagem: Lucas Landau/ UOL

"Fui despertando para muita coisa que eu via como normal. Por exemplo, a minha mãe falava muito pra mim 'se você for de saia, tem que tomar cuidado, porque depois que você for estuprada, não reclama'. Eu escutava isso todo dia sobre meu uniforme e comecei a só usar calça. Brigava muito por isso, eu sentia um incômodo muito grande, mas eu não entendia que aquilo era machismo e eu só fui entender discutindo aqui. Foi abrindo a minha cabeça", conta a adolescente.

"Eu ouvia coisas que me incomodavam, mas não sabia como me expressar, como argumentar, hoje, sinto mais autoridade para falar, entendo mais e sei me posicionar melhor", diz a estudante Luiza Moraes.

Organização é coisa de menina?

A professora Yandara Moreira conta que vivencia na escola situações em que identifica diferenças comportamentais claras entre alunos de acordo com o gênero.

"Em uma turma de sétimo ano, de alunos entre 12 e 13 anos, eu notei uma desorganização muito grande nos cadernos de português por parte dos meninos. Eu percebi que era uma questão de gênero, porque, por outro lado, as meninas estavam com o caderno com glitter, organizado", diz ela.

Eu confrontei a turma, perguntei o que tava acontecendo e abri a assembleia (termo usado pelo colégio para uma discussão): os argumentos deles eram 'ah, a gente joga futebol e fica muito cansado para organizar caderno', 'ah, a gente é muito ativo'. Ou seja: nada que justificasse de fato. Já as meninas falaram que sempre foram cobradas por organização", conta ela, que resolveu só verificar o caderno dos meninos da turma.

"Foi aquele tumulto, eles disseram que era um absurdo, que todos eles eram iguais. E eu expliquei que eram eles quem estavam apresentando problemas nesse sentido. Que ninguém tinha que enfeitar o caderno, mas que havia necessidade do material ser funcional. Foi melhorando com as semanas, mas esse episódio mostra muito da cobrança social das meninas, que desde sempre têm que ser muito organizadas, limpas enquanto, para eles, isso acaba sendo mais perdoado", explica.

Nas próximas páginas, a História reescrita

O aumento do número de bolsas já é considerado um ótimo passo pelas educadoras. A maioria das alunas, esse ano, deixa o colégio. Todas levam consigo a vontade de ler mais mulheres e entender mais as narrativas e questões de gênero femininas.

Para uma delas, no entanto, a vontade é especial. A estudante Maria Luísa Gonçalves quer continuar o trabalho de suas professoras. "Quantas mulheres escreveram ou fizeram várias outras coisas que não são contadas na história simplesmente por eles serem mulheres? Quero fazer Letras ou História para descobrir quem elas foram e ensinar isso depois".

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