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Gamer que perdeu contrato: "Me chamam de puta sempre e não posso responder"

A gamer Gabriela Cattuzzo  - Reprodução/Instagram
A gamer Gabriela Cattuzzo Imagem: Reprodução/Instagram

Camila Brandalise

Da Universa

25/06/2019 18h27

A streamer de jogos Gabriela Cattuzzo postou uma foto em cima de um touro mecânico no Twitter, na sexta-feira (21), e o que se seguiu à postagem foi uma série de comentários de homens, que variavam de "senta em mim, sua gostosa", "aqui em casa monta em mim quando quiser", "vem montar em mim", entre outras. O sangue subiu, e ela rebateu: "Homem é lixo" e "homem que não é merda, é exceção".

A reação à postagem dela foi um tsunami de ataques e ameaças, culminando com um comunicado de uma empresa global de acessórios para eSports, a Razer, dizendo que não renovaria o contrato com Gabriela.

"Sou ofendida o tempo todo nas lives dos jogos e nas minhas redes sociais. Me chamam de puta, vagabunda, dizem que devo ter a boceta rosa. A gente é orientada a não reagir e não estourar, só bloquear quem está assediando, banir da página", diz Gabriela a Universa. "Mas é sempre isso, e eu estourei. A pessoa que está assediando não recebe punição, mas eu, por ter respondido ao assédio, estou sendo punida e xingada em todo lugar."

Leia trechos da entrevista de Gabriela:


Por que escreveu um tuíte em que disse que "homem é lixo" e o "homem que não é merda, é exceção"?

Porque estourei. Postei uma foto no Twitter em que aparecia em um touro mecânico e escrevi "montada no chat". Chat é como chamo o público das minhas lives. Sempre digo para eles que já fui muito chifrada, chamo outras pessoas de "animal de chifre", então é uma brincadeira nossa para chamar alguém de corno. De repente, abri a foto e vi que 90% dos comentários eram muito parecidos, e todos de homens, dizendo coisas como "senta em mim, sua gostosa", "aqui em casa monta em mim quando quiser" e "vem montar em mim". Fiquei muito nervosa e passei o dia pensando nisso. Depois, entrei no Instagram, e em uma foto minha tinham vários comentários dizendo "tá gordinha, hein?", "engordou, né?" e "suas tetas cresceram". Não pensei em nada, na repercussão negativa, nos contratos com as empresas. Se eu fosse estourar cada vez que acontecesse isso, seria a cada cinco minutos. Mas, dessa vez, não me aguentei.

Você perdeu contrato com uma grande empresa da área, a Razer. O que te disseram?

Na verdade, o contrato com eles venceria agora em junho. Era de três meses. Claro que tinha a expectativa de renovar. Mas aí divulgaram esse comunicado dizendo que não renovariam. Eu acredito que quiseram amenizar os ataques que estavam recebendo. Muita gente os pressionou e a empresa atendeu a esse público. Eles sempre foram ótimos comigo. As pessoas com quem eu tinha contato sempre me trataram super bem. Fizeram o que acharam melhor pro marketing deles. Agora, tem outras cinco empresas, concorrentes da Razer, me fazendo proposta.

Em algum momento se arrependeu do que escreveu?

No comentário do Instagram em que me chamavam de gorda, sim. Eu disse: "Mano, peso 55kg, tenho 1,77m de altura, se tem alguém que tá gordinha é a puta da sua mãe". Foi um comentário horrível, não deveria ter feito. Mas, no Twitter, fui mal interpretada. Quando disse que 'homem que não é merda é exceção', foi porque a maior parte dos comentários, 90%, dos que recebo, são de homens me xingando ou me assediando, e quem não faz isso é exceção. Acho que passei do limite também, poderia ter escrito de outra forma. Mas, sinceramente, não sei nem te dizer que forma seria essa.

Mulheres nos games se queixam muito do machismo. Que tipo de comentários você escuta com mais frequência?

Dizem: 'Que bonitinha você, sua boceta deve ser rosa". Me mandam calar a boca, voltar para a cozinha, fazer o jantar, lavar a louça. Nas redes sociais, quando posto foto, 90% dos comentários são ruins. É homem xingando, ofendendo, sexualizando, chamando de gostosa e falando que quer me comer. Hoje, tenho uma equipe que deleta esses comentários antes de eu ver. Ou então, jogo só com amigos. Não tenho mais paciência para passar por isso.

E como você costuma responder a esses comentários?

Há dois anos, quando comecei a fazer streaming, eu respondia na mesma moeda. No streaming, eu apareço jogando e as pessoas que estão assistindo me mandam mensagens e a gente fica conversando. Em muita mensagem me chamavam de puta e de vagabunda. Eu dizia: "Tua mãe não está aqui, por que você está falando isso?", ou chamava de lixo. Até desenterraram esses comentários agora para me atacar. Mas mudei meu comportamento porque, em fevereiro deste ano, fui contratada pelo Facebook Gaming, plataforma de live stream de jogos gerenciada pelo Facebook. Comecei a falar para pessoas de várias idades e meu público cresceu muito. Fui orientada pelo meu empresário a não rebater os assédios. Eu também não estava mais feliz. Ficava um clima muito pesado, e passei a ficar quieta, deixei de rebater.

Depois do que aconteceu, como acredita que é a melhor forma de agir?

Preciso pensar melhor nisso. Não tem forma agradável de responder a um assédio. Deixa a gente muito brava. No meu caso, primeiro fiquei brava com o que estava lendo, não acreditei. Depois fiquei triste porque a pessoa está ofendendo você, te assediando sexualmente e ninguém vê nada de errado nisso. Não acho que mulher tem que abaixar a cabeça para assédio. Mas, no universo do games, essa é a regra: a pessoa que está assediando não recebe punição, mas quando a mulher responde, é punida e xingada em todo lugar. Me chamam de puta, mas não posso responder. As pessoas ficaram bravas dessa vez porque devolvi na mesma moeda.

Foi ameaçada?

Muito. Estão me mandando mensagens dizendo que vão me pegar na porrada, dizendo que sabem onde moro, que tal horário vou a tal lugar. Não aguentei ficar em São Paulo. Querem calar a gente quando somos assediadas.

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