Topo

Mês do Orgulho LGBTQ+


"Presidente tem o troco aqui"; o clima da 1ª Parada com Bolsonaro

Jacqueline Elise

Da Universa

23/06/2019 16h53

A 23ª edição da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo acontece neste domingo (23) com o tema "50 anos de Stonewall", a revolta do movimento gay em Nova York contra a repressão policial. No Brasil, a parada também tem ares de política e militância, e desde sua primeira edição, quando o mote era: "Somos muitos, estamos em todas as profissões".

A Parada LGBT+ deste ano decidiu homenagear um evento estrangeiro. Porém, nas ruas, o assunto dominante foi o governo do presidente Jair Bolsonaro e as manifestações contrárias a ele -- um segmento antiBolsonaro, inclusive, se organizou para marcar presença.

O estudante Renan Lira, 22, é um dos organizadores do Bloco LGBTs contra Bolsonaro, desde às 9h estava posicionado na esquina da Rua Augusta com a Avenida Paulista. "Por receber patrocínio de empresas e ser aliada ao governo estadual, que é aliada do federal, a organização da parada não vai abordar esse tema diretamente. Mas essa é a maior parada do mundo e a gente não pode deixar que o silêncio deles seja a manifestação oficial. Então, temos um bloco articulado contra o Bolsonaro", diz o estudante.

"Essa semana mesmo, tivemos o presidente chamando o Jean Wyllys de 'menina'. O governo nos atinge quando nos trata como inimigos de classe. A gente tem uma política de estado que trata a vida LGBT como se ela valesse menos. O estado faz projetos que ameaçam nossa vida, como quando desmantelaram o departamento de combate ao HIV/Aids do Ministério da Saúde. Esse discurso se reverbera nas ruas com manifestações de ódio contra nós, seja no discurso ou com a violência física", diz.

Lira critica o tom festivo que a parada tomou, que ele atribui ao aumento de patrocínio de empresas e de trios de grandes marcas. "O discurso oficial da parada é chapa-branca, sobre os 50 anos de Stonewall, mesmo que o acontecimento tenha sido uma revolta política e que aqui tenhamos muitas pessoas protestando contra o Bolsonaro".

"Viram que nossa situação poderia piorar e vieram para protestar"

Lucas Fernando: "Público está mais engajado" - Luciola Villela/UOL
Lucas Fernando: "Público está mais engajado"
Imagem: Luciola Villela/UOL

O estudante Lucas Fernando Teixeira Antônio, 28, participa pela décima vez do evento e diz sentir, neste ano, o tom político muito mais forte do que em edições anteriores. "O público está mais engajado", diz. "Havia descrença em relação à política antes, e as pessoas não se preocupavam muito com isso. Depois da eleição do Bolsonaro, elas viram que nossa situação poderia piorar e vieram para protestar."

O medo de que a homofobia cresça no país é um dos motivos que têm feito os participantes se manifestarem politicamente. "Já fui expulso de lugares por ser gay e tenho medo de que isso volte a acontecer. Quando temos um representante que planta essas práticas, ele está passando a mão na cabeça de homofóbicos. Ele é contra os avanços dos direitos LGBT, e isso dá poder para quem é contra também", opina Antônio.

Sidney Stahl, na foto com a mulher, Rosimeire Napolitano: "Cada um tem que ter liberdade de ser o que é" - Luciola Villela/UOL
Sidney Stahl, na foto com a mulher, Rosimeire Napolitano: "Cada um tem que ter liberdade de ser o que é"
Imagem: Luciola Villela/UOL

Simpatizantes da causa, o advogado Sidney Stahl, 56, e a mulher, a promotora de eventos Rosimeire Napolitano, 54, foram a primeira vez à Parada para protestar contra o governo de Jair Bolsonaro e mostrar apoio ao movimento LGBT.

Stahl decidiu ir com uma camiseta do Partido Novo, como uma maneira de passar uma mensagem: "Cada um tem que ter liberdade de ser o que é, independentemente de posição política", diz. "O presidente se posiciona contra a parada, ele está tendo o troco dele aqui."

Mais Mês do Orgulho LGBTQ+