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"Ela era classe média e hoje é periférica", diz decano da Parada

Nelson Matias Pereira, na foto durante a Parada de 2016, é um dos organizadores do evento - Arquivo pessoal
Nelson Matias Pereira, na foto durante a Parada de 2016, é um dos organizadores do evento Imagem: Arquivo pessoal

Jacqueline Elise

Da Universa

23/06/2019 12h52

Em homenagem à 23ª edição da parada que acontece neste domingo (23), a Universa conversou com três homens que acompanharam a Parada LGBT de perto. Entre críticas e elogios, todos têm histórias marcantes para contar.

"Ela era mais classe média. Hoje, é jovem e periférica"

Na primeira edição do evento, Nelson Matias Pereira, 52, conta que fez parte do "aglomerado de pessoas que se juntou em frente ao prédio da Gazeta, na Paulista". Hoje, ele é sócio-fundador da ONG APOGLBT-SP (Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo) e um dos organizadores do evento.

"Li sobre a parada no jornal e eu e meu namorado na época decidimos ir. O que me empolgou é que era um evento que eu invejava dos gays americanos; aquelas paradas com milhares de pessoas que aconteciam em Nova York. Eu pensava 'por que a gente não consegue se mobilizar e ir pra rua também?'", conta.

"Chegamos na Paulista e logo de cara encontramos um grupo de pessoas numa kombi, muito animados, com bexigas e cartazes pedindo direitos, se divertindo. Aquilo me fez tão bem que na semana seguinte fui procurar quem organizava o evento. Descobri que era um coletivo de pessoas. Tinham grupos ligados a partidos de esquerda, como o PT e o PSTU, e o Grupo Corsa (Cidadania, Orgulho, Respeito, Solidariedade e Amor), que era majoritário nessa composição. Foi assim que me envolvi com a organização da parada no ano seguinte, e não parei mais".

Pereira conta que o que o motivou a participar da primeira Parada LGBT foi o constante preconceito que as pessoas sofriam: "Quando a parada estava começando, eu ouvia muito a frase 'não tenho nada contra gays, desde que eles fiquem no lugar deles'. Mas todo lugar é nosso lugar. A importância do evento sempre foi a de dar visibilidade a nossa existência".

Para ele, é possível dividir a história da parada em dois momentos: "Nos primeiros anos, ela era muito mais classe média. Depois que atingiu 1,5 milhão de pessoas, em 2002, mudou. Ficou mais jovem e mais periférica. Você vê mais pessoas saindo de lugares distantes da Paulista para participar da parada".

Ele analisa que a parada hoje é tanto uma festa quanto uma manifestação política. "Não tem nada mais político do que ver a felicidade no rosto de alguém que está ali, descobrindo que tem outros iguais". E mesmo que o tema oficial seja a memória dos 50 anos da revolta de Stonewall, ele crê que o grito que estará na boca do povo será outro: "Vai ganhar com unanimidade o 'Ele Não'. Mas a parada é livre. As pessoas vão manifestar os desejos delas", diz Nelson que, este ano, não vai ao evento porque está cuidando do marido, que teve um problema de saúde.

"Foi muito legal ver as drags de dia, com tanta gente em volta delas, de mãos dadas"

O corretor de seguros Carlos Simão, 39, frequenta a Parada LGBT desde 1999. "Eu tive vontade de ir antes, mas achava que iam fazer fotos minhas e eu não queria aparecer. Na minha primeira participação, tomei coragem quando recebi o convite de um amigo e o marido dele", lembra.

Simão começou a frequentar o evento em 1999: "Não tinha gente o suficiente para parar as duas faixas da Paulista" - Luciola Villela/UOL
Simão começou a frequentar o evento em 1999: "Não tinha gente o suficiente para parar as duas faixas da Paulista"
Imagem: Luciola Villela/UOL

Simão chegou ao evento quando a multidão já estava na altura do MASP --e foi pego de emoção. "Eu lembro da sensação até hoje. Ver as drag queens, as pessoas, sorrindo, passando e se divertindo. Eu já tinha contato com as drags na noite; frequento baladas desde a adolescência, mas vê-las durante o dia, com as pessoas em volta delas, foi muito legal. Ainda não tinha gente o suficiente para parar as duas faixas da Paulista, mas tinha um trio elétrico com música. Olhar as pessoas caminhando na rua de mãos dadas, dançando e se beijando foi uma sensação muito boa pra mim, que tinha 19 anos".

"Foi muito louco ver como a parada cresceu. Não demorou muito para que depois ficasse impossível sair no metrô. As pessoas foram vendo que não precisava ter medo de ir. No começo, era meia dúzia de drag queens que ficava lá na frente, dando a cara a tapa. Alguém mais enrustido não iria de jeito nenhum, porque virava matéria no jornal, era fotografado. Agora é mais fácil de passar em branco, você vira só mais um na multidão, e isso deixou mais pessoas à vontade", pensa Simão, que chegou a ser um dos voluntários do evento em 2002. "Hoje, encontro os amigos, fico pela região da Consolação".

"Nas primeiras tinha muito tom de protesto. Depois, ficou mais comercial"

O DJ Adriano Santos, 28, vai à parada desde 2006, e diz que sente falta de quando o clima era mais de manifestação.

Para Adriano Santos, o evento perdeu o clima de manifestação: "Hoje tem muita empresa patrocinando, virou quase um comércio" - Luciola Villela/UOL
Para Adriano Santos, o evento perdeu o clima de manifestação: "Hoje tem muita empresa patrocinando, virou quase um comércio"
Imagem: Luciola Villela/UOL

"Era tudo muito novo pra mim. Eu tinha uns 17 anos e fui sozinho, da primeira vez. Fiz amigos lá e até hoje, a gente se fala. Fui a outras, nos anos seguintes. No começo, as paradas tinham muito tom de protesto. Eu via muitas bandeiras e cartazes reivindicando direitos para as pessoas LGBT. Depois, o evento tomou uma proporção enorme e aí as coisas ficaram mais comerciais. Hoje tem muita empresa patrocinando, virou quase um comércio", afirma.

Ele acredita que, pelo tema do evento este ano e por conta da eleição de Jair Bolsonaro, a Parada LGBT vai ser mais política do que nunca. "O pessoal ficou muito desesperado e achando que ia morrer. Isso lembra muito o que era a essência da parada: as pessoas também morriam de medo de dizer que eram gays".

Para Santos, outro marco da parada foi quando a travesti Viviany Beleboni subiu em um trio elétrico crucificada e vestida como Jesus Cristo, em 2016: "Foi aí que o pessoal lembrou que ela é uma manifestação política. Costumo brincar que a Parada LGBT é a piracema dos gays: juntam as bichas de tudo quanto é lugar para fazer festa e acasalar", brinca.

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