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Casal lésbico sela união na Parada LGBTQ+: "Foi um ato de amor e político"

Natália Eiras

Da Universa, em São Paulo

23/06/2019 10h05

Quando a fotógrafa Jaqueline Santos, de 28 anos, soube que daria aulas de revelação de filme fotográfico para a produtora de moda Nayda Rodrigues, de 24, tentou fugir do trabalho. "Ela pediu para a chefe liberá-la, porque já sentiu uma tensão entre a gente. Mas não conseguiu", conta Nayda, rindo. O amor entre as duas, como Jaqueline previu, acabou instalando-se com a força da vida que teima em acontecer. Eram idos de 2012 e, neste domingo (23), elas celebraram de maneira não menos intensa a relação.

Jacqueline e Nayda oficializaram seu casamento, nesta manhã, durante a Parada do Orgulho LGBTQ+ de São Paulo. "Queremos estar juntas em todos os níveis e também fazer um ato político", diz a produtora, que já estava em lágrimas antes da cerimônia. "É uma oportunidade de representar casais homoafetivos que querem se casar e mostrar que nosso amor, o amor LGBTQ+, é tão precioso quanto qualquer outro."

As duas se casaram ao som da música "Meu Amor é Teu", do Marcelo Camelo, cuja letra teve um trecho grafado na aliança delas.

Jardiel Carvalho/UOL
Imagem: Jardiel Carvalho/UOL

Como tudo começou

O encontro no laboratório fotográfico não foi o primeiro de Jaqueline e Nayda. Elas já haviam se visto pela faculdade onde estudavam. Nunca tinham se falado porque as duas já espreitavam um interesse e, coisas do momento, as duas eram comprometidas. "Depois do dia da aula, começamos a nos falar e ver todos os dias. Em uma semana, eu terminei com a minha então namorada", fala Nayda. Jaqueline fez o mesmo. O namoro foi oficializado só dois anos depois. "Foi um tempo intenso, já conhecíamos os amigos e a família da outra, mas falávamos que não tínhamos nada sério", diz Nayda.

Um dos empecilhos para vinha do lado de Nayda. "Meu pai, com quem eu sempre tive uma boa relação, surtou quando soube que sou lésbica. Minha mãe também; mas um tempo depois, ela quis conhecer a Jaque". O que começou difícil, com muitas conversas, tristezas e alegrias, hoje é bonito: "A Jaque foi muito importante nesse processo, porque todo mundo se apaixonou por ela. Hoje é parte da família".

O casal conseguiu comprar um apartamento e, enquanto ele não fica pronto, mora na casa da mãe de Jaqueline. Os custos para a festa de casamento foram cobertos de um jeito louco. "Mandei a nossa história, sem contar para a Jaque, para o projeto 'A Maior Festa de Casamento do Mundo', organizado por duas startups. "Descobrimos que havíamos sido as selecionadas na mesma semana em que nosso apartamento ficou pronto!".

Na cerimônia organizada pelas empresas, ocorrida num coworking da região da Av. Paulista, Nayda usou vestido de manga longa e Jaqueline, um terno branco.

Jardiel Carvalho/UOL
Imagem: Jardiel Carvalho/UOL

Agora que assinaram os papéis que as tornaram casadas, o plano é correr correr para curtir o dia em cima de um trio elétrico e, depois, continuar comemorando em um bar com as famílias. "Diante da situação política, conseguir fazer esse casamento e estar com a nossa família junto, é um privilégio. Estávamos com medo de perder os nossos direitos. Mas hoje, casamos na Parada LGBT. Isso é muito forte", emociona-se Nayda.

A mãe de Nayda, a aposentada Marcia Teresinha Pinheiro, 53, ficou sabendo que a filha iria casar por telefone. "Ela tentou marcar, mas ela tinha muitos compromissos. Mas eu já desconfiava...", conta. Marcia não aguenta as lágrimas quando fala sobre a emoção de ver Nayda casando. "Passa um filme na minha cabeça. Minha filha cresceu", diz, com a voz embargada.

Jaqueline e Nayda ao lado de suas mães, as aposentadas Irene, de 65, e Marcia, de 53 - Jardiel Carvalho/UOL
Jaqueline e Nayda ao lado de suas mães, as aposentadas Irene, de 65, e Marcia, de 53
Imagem: Jardiel Carvalho/UOL

Quando soube que a filha era lésbica, a primeira reação foi de espanto, mas não demorou até que ela abraçasse a nora como parte da família.

"Eu não soube como reagir. Pensei se devia xingar, brigar, mas tomei a decisão que considero mais acertada: pedi para conhecer a Jaque. Foi quando tudo mudou. Hoje somos uma grande família. Na minha opinião, essa é uma união que vai dar certo. Já deu, né?", disse, à Universa. "Hoje em dia eu faço tudo por elas. O meu maior medo era que elas sofressem alguma violência, pedia pra elas não andarem de mãos dadas, não mostrarem que são um casal. Mas o mundo precisa mudar, para que todos possam ter a vida que quiser".

Já a mãe de Jaqueline, a aposentada Irene Maria Oliveira Santos, de 65 anos -- que abriga o casal até que o apartamebnto delas fique pronto -- disse que seu coração bateu mais forte no dia do casamento das filhas e que o grande dia era um sonho dela.

"Minha filha sempre pensou em casar. Mas quando soube que elas se casariam, eu tive a sensação de que a perderia. Sempre fui eu e ela, porque ela é filha única e eu sou viúva. Mas, na verdade, a gente ganha. Ganhei a Nayda e a família dela", contou.

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