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Diversidade


Apresentador infantil gay: Não podemos contaminar crianças com preconceito

No programa com colegas de elenco: falaremos de diversidade, sim - Divulgação
No programa com colegas de elenco: falaremos de diversidade, sim Imagem: Divulgação

Lucas Vasconcellos

Colaboração para Universa

13/06/2019 04h00

Uma rápida passagem pela grade de programação dos canais de TV é o suficiente para perceber um padrão entre o elenco de vídeo: pouquíssimos são assumidamente homossexuais. O funil ainda fica menor se levarmos em consideração apenas os programas infantis. Apesar de ser um tema discutido constantemente nos últimos anos, a diversidade ainda não é uma realidade em posições de destaque no meio artístico.

Na contramão, o grupo Disney apresenta a partir de julho (ainda sem data definida), para toda a América Latina, pelo selo Disney Junior (voltado para crianças de 3 a 7 anos), a série Nivis - amigos de outro mundo. Os personagens representam duas famílias de planetas diferentes que se encontram e, assim, o programa fala de temas como as novas configurações familiares.

O projeto foi idealizado e será estrelado por Vinicius Campos, natural da cidade de São Paulo e que vive em Buenos Aires (é na cidade argentina que fica o principal polo de produção do grupo Disney para a América Latina). Aos 39 anos e há 12 anos contratado da Disney, Campos já protagonizou programas como Parquinho Disney, Playhouse e Casa do Disney Junior. É também autor de diversos livros infantojuvenis, entre eles Vinicius Campos conta Grimm (Melhoramentos), O amor nos tempos do blog (Cia. das Letras) e Minha vida cor-de-rosa #SQN (Rocco).

Ele é o primeiro (e até agora único) apresentador assumidamente gay da Disney. Há 14 anos, Vinicius é casado com o executivo Eduardo Lagreca e juntos adotaram três filhos: Milagros,16, Alfredo,15 e Pablo,13. Os adolescentes são irmãos biológicos e chegaram à vida do casal há cerca de quatro anos.

Em entrevista à Universa, Vinicius Campos fala sobre diversidade, educação e sobre como é sortudo por trabalhar em um canal educativo global e não precisar se esconder. "Acredito de verdade que a diversidade é o princípio para que possamos transformar a sociedade. Na infância temos que trabalhar para ter adultos mais felizes e menos violentos. Dói ser invisível, é triste para caramba não ter voz, e eu sei porque sofri na pele. Então, quando encontro um espaço, por menor que seja, tento colocar meu grãozinho de areia", conta.


Universa: Muitos artistas não revelam ser homossexuais por medo de perder trabalho. Como foi sua experiência com esse tema?

Campos: Entendo e sinto muito que alguns colegas tenham que esconder quem são por medo de perder trabalho ou não atingir o sucesso. Não tem coisa mais triste do que a repressão. Ao mesmo tempo, me pergunto: o que é o sucesso? Para mim sempre foi poder fazer o que gosto, viver com quem amo, e olhar nos olhos das pessoas com transparência. Segui o meu coração e sinto que as conquistas profissionais vieram em consequência da minha felicidade. Ao mesmo tempo, é bom lembrar que venho da classe média paulistana, sou branco, tive acesso à educação, à arte e à literatura. Difícil mesmo é ser negro, pobre e gay. Tive privilégios que tornaram tudo mais fácil. Quando comecei a trabalhar para o público infantil, tive certo receio, a vida dos gays ainda estava muito relacionada a um universo pouco familiar. Mas logo no primeiro contato com a Disney apostei de novo na transparência e eles retribuíram com respeito e confiança e nunca houve, por parte deles, nenhuma tentativa de que eu escondesse meus afetos.

Como é a sua relação com os pais de seu público: sente alguma hostilidade pelo fato de ser gay?

Sinto muito carinho pelos pais, na verdade mães, que geralmente são as que acompanham e estão mais próximas do conteúdo que gero. Trocamos muitas figurinhas sobre educação, formação, mundo melhor, disciplina positiva. Poucas vezes houve hostilidade, e quando há, sou meio professor, então me recarrego de paciência e explico, dou informação porque acredito que preconceito se rebate assim. Tem uma mãe que me escreveu contando que o filho com 12 ou 13 anos está se descobrindo gay e experimentando seus primeiros amores -- e com eles o bullying. Ela é uma grande parceira e sempre conversamos sobre situações que aconteceram comigo ou que observo em outras pessoas ou até mesmo em casa e, juntos, vamos aprendendo e descobrindo a melhor forma de acompanhar nossos filhos frente a qualquer dificuldade que eles possam ter. E criança em idade pré-escolar quer brincar, rir, quer amor e alegria, não importa quem casa com quem.

Eu tento trilhar por ambientes de amor, e acabo me relacionando com gente muito querida do outro lado. Mas se alguém pega pesado, block né? Agressão tô fora e falta de respeito é algo que não tolero.

Como homem assumidamente gay, você sente um peso maior na hora de escolher os projetos em que atuará?

Totalmente. Acredito de verdade que a diversidade é o princípio para que possamos transformar a sociedade. Na infância, temos que trabalhar para ter adultos mais felizes e menos violentos. Então, cuido dos roteiros, penso muito bem antes de publicar um livro, sou cuidadoso com as palavras para que ninguém se sinta ofendido. Dói ser invisível, é triste pra caramba não ter voz, e eu sei porque sofri na pele. Então, quando encontro um espaço, por menor que seja, tento colocar meu grãozinho de areia. No começo, tinha gente que pensava que eu implicava demais. "Lá vem o Vini com esse papo de diversidade." Mas o mundo está mudando e muitas lutas que antes não tinham visibilidade hoje são vistas e entendidas como de extrema importância para o desenvolvimento das crianças.

O que tem de sua experiência pessoal em Nivis?

Meu personagem é Felipe, um pai de família, separado, que divide a educação e os cuidados da filha com sua ex-mulher. Um pai presente de verdade, como eu. Trabalho a maior parte do tempo em casa, igual ao personagem, então consigo estar com os meus meninos e minha menina bastante tempo. O que faz total diferença porque criança precisa de acompanhamento. Ele é bastante sensível, não é um super-herói, mas sim um homem com fragilidades e inseguranças.

A Disney é conhecida pela diversidade do elenco - nos Estados Unidos, por exemplo, há séries protagonizadas por atores negros e também por atores de origem latina. O que o público pode absorver disso?

Nivis - amigos de outro mundo tem um elenco cheio de sotaques. Um brasileiro, uma portoriquenha, argentinos, tem uma atriz com síndrome de down e quatro personagens de outro mundo. Todos respeitando as limitações e os ritmos de cada um. Acho que vão se identificar rapidamente, afinal criança já sabe conviver com as diferenças sem problemas. Criança é transparente, vê algo diferente e pergunta: por que aquela menina não tem uma mão? Na cara, sem disfarçar. Se parecer incômodo, pronto: a criança recebeu o sinal errado. Ela entende que é melhor ignorar.

Nós adultos não podemos contaminá-los com os nossos preconceitos. Acredito que Nivis vai mostrar aos pais caminhos mais interessantes para as perguntas das crianças.

Como foi o processo de adoção dos seus filhos?

Nós éramos padrinhos deles. Durante quatro anos nos vimos todos os finais de semana e férias, até que finalmente eles foram colocados em adoção e se mudaram com a gente. Foram anos de muito aprendizado, espera, paciência e amor. De sexta à noite a domingo fazíamos uma maratona para compensar a semana inteira que ficávamos longe. Uma família pouco convencional, que se formou de um jeito bastante diferente, mas que como toda família tem desafios, dificuldades e muita expectativa pra conseguir que nossos filhos e nossa filha cresçam felizes, seguros e livres.

A adoção tardia pesou em algum momento?

Nunca pensamos na idade deles. Fomos participar desse programa de apadrinhamento sem a intenção de adotá-los porque era inicialmente uma experiência para ver se tínhamos jeito pra coisa. Mas os conhecemos e o amor bateu, e daí já não importava idade nem nada. O processo foi acontecendo, a justiça começou a nos ver como a melhor opção para eles e, finalmente, nos tornamos uma família de verdade. Acho que o universo queria que a gente se encontrasse. A primeira vez que os vi, fiquei apaixonado e era como se nos conhecêssemos a vida toda.

Crianças que são colocadas em adoção costumam ter histórias duras, então precisam ainda mais de amor e compreensão para trabalhar o passado e se abrir às possibilidades do futuro. Leia muito sobre disciplina positiva, sobre comunicação não violenta.

Já conversaram sobre serem um casal homoafetivo?

O tempo inteiro. É um assunto que nos move. Explicamos muito no começo. Por que algumas pessoas sentiam preconceito, que muita gente não tinha informação, que em alguns países há leis que proíbem, que por muito tempo foi considerado doença. Conversa de gente grande para que eles pudessem se defender, caso fosse necessário. Mas não foi. E meus filhos aprenderam a se relacionar com as pessoas sem se importar com sua sexualidade. Um dia meu filho disse, espero um dia encontrar um amor tão forte como o de vocês. E é tudo que ele precisa saber na vida, que encontrar o amor faz bem. Sem regras, sem imposições, sem gêneros, só amor.

Você tem que tomar alguma atitude para evitar o preconceito?

Quando as crianças queriam convidar um amigo para dormir em casa, primeiro eu convidava os pais para um jantar. Queria que eles vissem que era uma casa normal, sem situações estranhas. Mas logo nos primeiros encontros, fui percebendo que era bobagem. O medo era muito mais meu do que uma preocupação das outras famílias. E nas poucas vezes que rolou alguma piadinha de mau gosto na escola, meus filhos tiveram posturas admiráveis, e acho que foi porque sempre ensinamos que o preconceito é filho da ignorância, do medo, da insegurança, e não da maldade.

Como você enxerga o atual cenário político brasileiro?

Enxergo com muita preocupação. Ao meu ver, violência não se combate com violência, educação deveria ser a ferramenta mais importante para a transformação de um país, e sem natureza o futuro será desastroso. Fico pensando nas crianças que moram em casas com armas. O perigo será para os outros ou também para elas? Muitas coisas me assustam, tanto no governo quanto no setor da sociedade que ainda o apoia. E não há nenhuma iniciativa da administração atual que me dê um fiozinho de esperança. Leio jornal todo dia procurando algo que me faça acreditar, mas nada. Em momentos assim o trabalho das instituições não governamentais, de nós, comunicadores e de nós, pais e mães em casa deve ser ainda mais profundo. Se o Estado não cria condições básicas para o desenvolvimento saudável e seguro de nossas crianças, temos que trabalhar dobrado para compensar o desamparo.

Muito mudou em relação ao preconceito com homossexuais nos últimos anos. Como você faria esse balanço?

Acho que a sociedade evoluiu bastante e nos últimos anos começamos a ter mais visibilidade. Nos anos 90, não tínhamos referências para a comunidade gay. Somente personagens caricatos em programas de humor que sempre estavam rindo de quem somos. Hoje o cenário é outro, principalmente nas grandes cidades, mas apesar disso o índice de violência contra gays é enorme, no Brasil e no mundo, onde em alguns países continua sendo crime se relacionar com alguém do mesmo sexo.

O que ainda há por fazer?

Crianças e adolescentes ainda sofrem muito bullying por simplesmente serem diferentes, pessoas trans têm que lidar com um nível altíssimo de violência e rejeição, não conseguindo nem ao menos se inserir no mercado de trabalho. Precisamos conscientizar e trabalhar na fonte do ódio. Nem todo mundo tem que estar de acordo com a orientação sexual dos outros, mas respeitar quem é diferente é fundamental para que possamos viver numa sociedade melhor e mais harmoniosa. E para isso precisamos de leis que nos protejam. Ninguém começou a usar cinto de segurança porque de uma hora para outra entenderam que era importante, primeiro veio uma lei e, com o tempo, o costume.

Como educar as crianças para que as próximas gerações sejam menos preconceituosas?

Temos um desafio enorme e não é responsabilidade só de pais, mães e educadores, mas de toda a sociedade. Precisamos criar uma infância mais amorosa e respeitosa. Há tanta preocupação por parte dos adultos se as crianças se tornarão gays ou não, que comprometemos a etapa mais importante do desenvolvimento humano gerando medos, traumas, vergonha. Nossas crianças têm que ser livres para brincar, mostrar sentimentos, serem quem são, sem castrações. Incentivar que nossas crianças sejam elas mesmas e se desenvolvam com liberdade é a maior herança que lhes podemos dar, pois crescerão seguras, felizes e prontas para a vida adulta. E se a sociedade está formada por adultos felizes e seguros, o ódio automaticamente desaparece e a violência diminui.

Como você avalia a importância de seu papel nisso como personalidade com influência no mundo infantil?

Eu sou um comunicador que vem aproveitando os espaços que a mídia me dá para levar uma mensagem de amor e respeito às crianças. Tem muita gente bacana, muitos artistas, pensadores e influencers trabalhando nesse sentido e tenho certeza de que aos poucos vamos começar a colher frutos. Acho uma pena quando algumas pessoas confundem diversidade com bagunça. Eduquemos valores, respeito, dignidade, mas não nos esqueçamos de ensinar felicidade. Porque a vida só tem sentido se somos felizes. E, de verdade, não conheço ninguém que consiga ser feliz sem ser autêntico.

Ninguém está defendendo que uma criança seja assim ou assado, nossa defesa é que cada criança seja ela mesma e que não sofra violência por ser diferente da maioria.

Qual a diferença de militar e educar?

Pergunta difícil. Acho que militar é levar adiante e lutar por uma ideia clara e objetiva. E educar é dar ferramentas para que o indivíduo observe o mundo, elabore um pensamento, e a partir daí tome posição. Entendo e admiro os militantes, eles fazem um trabalho importantíssimo, mas acho que minha maneira de atuar se encaixa mais no setor da educação do que na militância.