Topo

Mês do Orgulho LGBTQ+


Filho de Mauricio de Sousa: "Sou um gay privilegiado"

Mauricio de Sousa e o filho, Mauro, que se assumiu gay aos 18 anos - Arquivo Pessoal
Mauricio de Sousa e o filho, Mauro, que se assumiu gay aos 18 anos Imagem: Arquivo Pessoal

Talyta Vespa

Da Universa

10/06/2019 04h00

"Todo sábado, eu e meu marido vamos à casa dos meus pais tomar café da tarde. Minha mãe faz pão de queijo e bolo e meu pai prepara chá e cappuccino. Ele adora. A gente fala de trabalho, da vida, dá risada e ele, às vezes, pergunta: 'Quando vocês vão me dar um netinho?'", conta o empresário Mauro de Sousa, de 32 anos, filho do cartunista Mauricio de Sousa. "Já disse que por enquanto o único neto vai ser o Chinelo, nosso cachorrinho".

Mauro, um dos dez filhos do desenhista, nunca foi o famoso da trupe --Mônica e Magali dispensam apresentações --mas viu seu nome rodar a internet no mês passado, depois que seu pai compartilhou nas redes uma bonita foto em que apareciam sentados à mesa, ele, o marido, Rafael, e Mauricio.

"Ele achou a foto bonita e postou. Ficou surpreso com a repercussão porque era só uma foto de família", diz Mauro. Quando a imagem da tarde de sábado estampou jornais e portais de notícia, a mãe do empresário ligou, receosa, e pediu cuidado ao filho. O tom de preocupação apareceu depois de anos: faz 14 que ele revelou à família que é homossexual.

Mauricio de Sousa deixa recado para o filho:

A revelação, na época, aconteceu porque a mãe puxou o assunto. "Eu estava em uma relação complicada com meu ex e minha mãe percebeu que eu estava triste. Ela entrou no quarto e disse que queria conversar comigo. Fomos falando, eu fui me abrindo e então contei que era gay. Eu tive medo de decepcioná-la, mas ela disse que me amaria de qualquer jeito e que isso não mudaria em nada a nossa relação; que ela só queria minha felicidade", conta Mauro.

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

O amor dos pais

"Pensei que ela ia chorar e se descabelar quando eu contasse. No fim, quem chorou fui eu. E de emoção. Esse foi, até hoje, o dia mais feliz da minha vida. Sei que sou um gay privilegiado. Essa não é a situação mais comum entre as famílias."

Depois que o assunto veio à baila, a mãe de Mauro começou a pesquisar sobre homossexualidade, ele conta. "Ela perguntava para amigos gays como deveria agir comigo. E foi ela quem contou para o meu pai". E o que viria a seguir era mais um caminhão de emoção.

"Durante um jantar em que estávamos eu, meus pais, uma de minhas irmãs e meu cunhado, meu pai disse as mesmas palavras que eu tinha ouvido da minha mãe. Que ele me amava e que nada mudaria. Eu comecei a chorar. Estava emocionado de ver minha família me recebendo com tanto carinho. Então, eu disse: 'É isso, sou gay. E estou muito feliz de estar aqui'".

A dureza da escola

Mauro percebeu que era gay aos 12 anos, época em que aquelas frases chatas começam a aparecer em família: "E as namoradinhas?", "Você quer casar, meu filho?", ele ouvia. "Eu sei que minha mãe tentava me entender naquela época, mas eu fugia das respostas". O primeiro contato com o desejo aconteceu pelos meninos da escola. "Era uma sensação de admiração".

Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

No colégio, entretanto, o ambiente estava longe de ter a candura de casa. Foram muitas as ofensas e agressões por parte dos colegas. "Eu era bem gordinho e afeminado. Foi um período muito difícil porque era agredido verbalmente quase todos os dias. Me chamavam de "bichinha" e "menininha" porque eu não jogava futebol. Eu não tinha amigos, não paquerava. Nem conseguia pensar nisso".

Todo mundo junto

Rafael, que é produtor teatral, também trabalha na Mauricio de Sousa Produções. "Meu pai o convidou para trabalhar com a gente sem nem me perguntar se tudo bem. Que bom que eu sei que vou ficar com o Rafa pelo resto da vida", brinca Mauro. "Estamos juntos há 12 anos. Nos conhecemos na Praça Roosevelt, no centro de São Paulo, point de atores. Eu fazia teatro e ele também. Ficamos juntos uma noite e, no dia seguinte, começamos a namorar".

"Olha que sorte a nossa. Os pais dele também gostam de mim e me tratam com muito respeito. Por isso digo que sou privilegiado. Meu pai é um formador de opinião e tem 83 anos. Eu sei que isso pode mudar a forma de as pessoas verem a homossexualidade. Recebi uma mensagem de um garoto gay que mostrou a foto para o avô de 90 anos. O senhorzinho disse: 'Olha só, que bonito', e os dois começaram a chorar. Senti esperança, senti que ainda dá para ter amor no mundo."

Personagem gay

Mauro conta que a Turma da Mônica planeja a criação de um personagem gay. "Estamos estudando tudo, em que turma ele entraria, como seria... Logo, logo vai existir". Risonho, o oitavo filho de Mauricio de Sousa conta, ainda, que o personagem Nimbus foi inspirado nele. "Eu era igualzinho ao Nimbus: gordinho, cabelo tijelinha e olhos puxados. Foi um presente do meu pai para mim. Eu fiquei metido. Adorava dizer que fazia parte da Turma da Mônica".

Mauro conta que o pai é bastante interessado no universo LGBT. Dia desses, tentando entender o que significava cada letra do termo, parou no trans. "O que é trans, filho?", perguntou a Mauro. "Eu mostrei artigos, falei a respeito, apresentei amigos trans e ele foi entendendo. Achei até uma versão drag da Mônica e mostrei para ele. "Adorei, está aprovada", ele disse.

Mais Mês do Orgulho LGBTQ+