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Falta caráter ou é distúrbio? Como lidar com quem mente de modo compulsivo

Se relacionar com alguém que mente compulsivamente é pensar em desistir o tempo todo - iStock
Se relacionar com alguém que mente compulsivamente é pensar em desistir o tempo todo Imagem: iStock

Luiza Sahd

Colaboração para Universa

31/05/2019 04h00

Uma pesquisa realizada na Universidade da Califórnia concluiu que um estudante universitário mente em uma de cada três interações sociais. De acordo com Bella DePaulo, psicóloga social que conduziu o estudo, os adultos mais maduros mentem em uma a cada cinco interações com outras pessoas -- seja elogiando um corte de cabelo que não gostou, tentando parecer interessado em um papo chato ou apenas dizendo que "está tudo bem" quando não está nada bem. As pessoas mentem pra caramba no dia a dia.

Qualquer especialista em comportamento humano pode atestar, sem medo, que a mentira é um lubrificante social indispensável para que a gente não saia por aí magoando uns aos outros sem motivos para isso. Mas o que fazer quando sentimos que alguém de quem gostamos muito está mentindo compulsivamente?

Reunimos algumas histórias de quem passa por isso e perguntamos para especialistas como lidar com a questão.

"Ela dizia que tinha adotado um gato de três patas"

"Há uns anos atrás, eu outra amiga notamos que a Priscila* andava contando mentiras inócuas: dizia que tinha adotado um gato de três patas e não tinha gato nenhum; falava de preços de passagens aéreas que eram impossíveis, dizia bobagens sem importância que não eram verdade.

Depois, a situação ficou tensa: ela inventou que um amigo nosso era HIV positivo -- e ele não era. Ela é cozinheira e inventava que trabalhava em um restaurante, mas uma amiga perguntou por ela lá e descobriu que a Priscila nunca esteve naquele lugar. A situação ficou triste para todos.

Passei alguns meses viajando e, quando voltei, soube que nossa turma pressionou para que a Priscila assumisse as mentiras, mas ela negou todas -- e cortou contato com o pessoal. Depois disso, ainda encontrei com ela por acaso e escutei mais um tanto de histórias que pareciam alucinações. Acabei me distanciando dela totalmente, sem nunca tocar nesse assunto."

Ricardo, 39 anos, jornalista em São Paulo (SP)

É difícil confrontar a pessoa

O desfecho se repete com mais frequência do que gostaríamos: quando temos um amigo sofrendo de compulsão por mentir, é difícil encontrar um modo de colocar as cartas na mesa e contar que estamos magoados com a "traição".

A psicóloga Fabíola Luciano, especialista em terapia cognitiva comportamental pela Universidade de São Paulo (USP), explica que o primeiro problema de quem sofre de mitomania é o estigma. "A mentira é um comportamento errado para a nossa sociedade. O mentiroso contumaz é considerado uma pessoa má, nunca alguém que precisa de ajuda. Num primeiro momento, precisamos lembrar que assim como a pessoa que tem depressão não escolhe estar triste, assim como a pessoa gripada não espirra de propósito, o mentiroso compulsivo também não quer, não gosta e não planeja mentir", esclarece.

Como ajudar alguém com a compulsão?

O primeiro conselho que escutamos sobre mitomania é, via de regra, recomendar que o amigo passando pelo transtorno procure um especialista, seja ele um psicólogo ou psiquiatra. Esse passo é fundamental, mas no caso de quem mente -- e insiste que está dizendo a verdade -- reconhecer que precisa de ajuda é mais complicado, mesmo.

Para Fabíola, entender o funcionamento do distúrbio é um primeiro passo importante para achar formas de oferecer apoio. "A crítica direta à pessoa que tem compulsão de mentir acaba sendo um prejuízo (tanto para a relação quanto para o processo terapêutico do paciente). Isso acontece porque uma das bases mais recorrentes da mitomania é a baixa autoestima de quem mente. Muitas vezes, essa pessoa tem pavor de magoar ou desapontar o outro; assim, algumas pessoas começam a mentir para parecer mais agradáveis e se sentirem aceitas em grupos ou comunidades.

"Ela fazia montagens com fotos de desconhecidos"

"Sempre fui bem próxima da Diana* e da família dela. Ainda na época da escola, eu e outra amiga percebemos que ela inventava namorados, fazia montagens com fotos de desconhecidos e chegou até a levar um garoto numa festa dizendo que era namorado -- mas que ele era muito tímido para beijá-la em público.

Na própria festa, o garoto nos procurou para dizer que não tinha nada com ela. Quando eu e a amiga fomos conversar com a Diana, ela ficou muito envergonhada, assumiu a mentira e pediu para não ser exposta. Apesar disso, outras mentiras foram surgindo.

Em diversos momentos eu a confrontava, e sua família também, porque ela mentia sobre muitas coisas. A mãe dela me ligava para confirmar se as histórias que ela contava na volta da escola eram verdadeiras, mas Diana nunca fez qualquer tratamento.

Nos afastamos por uma briga que não tinha a ver com as mentiras, mas até hoje recebo notícias sobre comportamentos desse tipo por parte dela. Soube que ela teve um filho e não contou para ninguém antes que ele nascesse. O motivo: ela disse ter confundido a gravidez com uma apendicite."

Paloma*, 28 anos, analista financeiro em Niterói (RJ).

Se não é saudável pressionar, como lidar com as mentiras?

De acordo com Fabíola, o mitômano que sofre muita pressão para não mentir tem grandes chances de acabar intensificando a repetição de histórias falsas.

"Essa pessoa usa a mentira como recurso para agradar ao próximo. Quanto mais as pessoas se desapontam, mais o paciente usa o recurso para tentar desfazer o desapontamento de quem cobra".

Em resumo: é importante não encurralar uma pessoa que mente compulsivamente. Deixá-la à vontade para encarar o problema exige esforço, mas não é impossível.

Nesse tipo de situação, a psicóloga lembra que uma conversa acolhedora e amorosa funciona melhor do que uma broca. "O mentiroso compulsivo tem uma fixação pela imagem positiva (em geral, mentindo para evitar passar más impressões sobre si). Assim, as pessoas próximas que querem ajudar podem lembrar ao paciente os motivos pelos quais ele realmente é querido e admirado -- de modo que ele não sinta tanta necessidade de ser algo diferente do que realmente é", conclui.

"Não consigo acreditar em nada do que ela diz"

"Éramos um grupo de cinco amigas bem próximas. Entre elas, estava a Laura*, que contava histórias muito dramáticas sobre os caras com quem ela ficava. Ouvindo os rolos repetidamente em ocasiões variadas, fomos percebendo que era impossível que esses romances fossem reais. Em alguns momentos em que as informações pareciam incoerentes, confrontávamos a versão dela dos fatos e ela fingia que tinha se confundido ou fazia alguma piada e desconversava. Assim, ninguém nunca pressionou a Laura diretamente para que ela assumisse uma mentira.

Com o passar do tempo, perdemos completamente a confiança no que quer que ela dissesse sobre esses assuntos. A saída encontrada pela turma foi não reagir muito ao que ela nos trazia. Isso fez com que o grupo se afastasse naturalmente.

No último ano, nos encontramos pouco. É muito triste porque eu realmente fiquei sem saber o que fazer além de evitar ouvir o que não me parecesse verídico. Ela é uma pessoa de coração muito bom, muito divertida... só que a convivência não se sustenta se eu não consigo mais acreditar em nada."

Gabriela*, 34 anos, gerente financeiro em Vitória (ES)

Decepção faz parte de qualquer relação

Em uma relação com alguém que mente por compulsão, a gente pode ficar tão bravo que esquece de um detalhe: as relações íntimas incluem dor e decepção de vez em quando. Não desistir de pessoas queridas que enfrentam esse tipo de distúrbio passa por alguns cuidados, como saber que as mentiras partem de alguém precisa reconstruir a própria autoestima. "Se o paciente entende que o amor da família consegue superar a decepção, isso já é um ponto de mudança muito favorável", esclarece Fabíola. Ela lembra que os pacientes não se curam de uma hora para outra, que é normal ter recaídas, mas é nessas recaídas em que ele aprende a suportar a situação de decepcionar alguém ou ser criticado.

O processo é realmente gradual, mas a mudança efetiva também pode chegar com um tratamento e acolhimento eficientes.

Quando as mentiras vêm à tona

Se você já conversou abertamente com uma pessoa querida sobre suas mentiras frequentes, pode ser frustrante ver o ciclo se repetir (e parecer que nunca vai terminar). Nesses casos, perguntar de que outra maneira podemos ajudar também é uma atitude valiosa.

Algumas perguntas simples como "de que forma posso te ajudar?" ou "de que forma eu acabo te atrapalhando?" ou ainda "quais são as minhas atitudes que te deixam com vontade de mentir?" podem ser de grande ajuda para o paciente e para as pessoas do entorno sentirem menos impotência diante das circunstâncias.

Para quem passa pela experiência de mentir compulsivamente, de acordo com Fabíola, a chave está em trabalhar na construção de um novo olhar interno, fortalecendo a autoestima e a compreensão de que somos todos imperfeitos e cometemos erros.

"Ter uma imagem positiva é gostoso, mas ela é consequência também da forma como a gente se vê no espelho. Nunca estaremos confortáveis e nunca teremos uma imagem boa o suficiente sem trabalhar a autoimagem"

Em última análise, continuar ao lado de quem lida com o distúrbio é batalhar junto para que a pessoa enxergue em si o que há de melhor, que é real e o que pode ser partilhado disso socialmente. Quando a autoestima do paciente melhora, a necessidade de mentir, aumentar contos ou enaltecer a si mesmo vai saindo de cena. É quando um ser mais feliz, pleno e tranquilo pode emergir depois de partilhar tantas dores invisíveis com tanta gente.