Topo

Recomenda

Dicas de filmes, séries, leituras, sons, espetáculos


Malu Mulher: 40 anos depois, temas abordados na série continuam necessários

Regina Duarte ficou marcada por interpretar a protagonista do seriado - Divulgação
Regina Duarte ficou marcada por interpretar a protagonista do seriado Imagem: Divulgação

Heloísa Noronha

Colaboração para Universa

24/05/2019 04h00

A lista é vasta: casamento desgastado, discussão de relacionamento, violência doméstica, aborto, orgasmo, machismo, conflito de gerações entre mãe e filha, dificuldade em conciliar a carreira com os cuidados com a casa e a maternidade, novas experiências sexuais, sororidade. Todos esses assuntos que pautam a luta feminista atual, muitos tratados com rejeição, preconceito e ironia por movimentos conservadores, foram tema de um seriado que teve enorme impacto na sociedade brasileira em plena década de 1970, durante a Ditadura Militar.

"Malu Mulher", cujo primeiro episódio foi ao ar em 24 de maio de 1979 no horário das 22h pela Rede Globo, estreou pouco depois do fim do AI-5, o Ato Institucional assinado em 1968 e que perdurou até dezembro de 1978 pelo então presidente Artur da Costa e Silva, que ditava a censura prévia nas áreas de música, cinema, teatro e televisão. Na época, uma obra podia ser censurada por motivos como subversão da moral ou dos chamados bons costumes. Para exibir a história de uma mulher recém-divorciada, a equipe de criação chefiada por Daniel Filho e de autoria de Doc Comparato recorria às figuras de linguagem como as metáforas e a imagens que indicavam o que havia acontecido anteriormente --deixar um copo de uísque sobre a mesa de cabeceira ou vestir uma camisa do parceiro para andar pela casa, por exemplo, sugeriam que a protagonista havia transado.

Série ficou marcada por abordar temas delicados em plena ditadura militar - Nelson Di Rago/TV Globo
Série ficou marcada por abordar temas delicados em plena ditadura militar
Imagem: Nelson Di Rago/TV Globo

Por ser exibida às 22h, uma faixa considerada mais "adulta" na época, "Malu Mulher" permitia maiores ousadias e experimentações. Uma delas foi abordar o feminismo, que vivia uma ebulição, num meio de comunicação de massa --naquele período, existia apenas a TV aberta e a Globo reinava soberana. A outra foi justamente a escolha de Regina Duarte para interpretar Malu. A atriz, apelidada de "namoradinha do Brasil", colecionava no currículo heroínas meigas e românticas e agarrou com unhas e dentes a oportunidade de encarnar uma mulher mais verdadeira, vivendo experiências com as quais muitas telespectadoras poderiam se identificar.

O episódio de estreia, intitulado "Acabou-se o que era doce", tratava na crise no casamento de Malu e Pedro Henrique (Dennis Carvalho), com direito a agressões físicas e verbais e a muito sofrimento por parte da filha adolescente do casal, Elisa (Narjara Turetta). Apesar de ainda amar o marido, Malu decide sair de casa. Embalada por "Começar de Novo", música-tema feita sob medida por Ivan Lins para a atração e cantada por Simone, a coragem de Malu em colocar um ponto final na relação serviu de inspiração para muita gente.

A Lei do Divórcio tinha sido aprovada apenas dois anos antes --até então, as pessoas só podiam se desquitar, ou seja, deixar de viverem sob o mesmo teto com o parceiro, mas o vínculo matrimonial perante a justiça se mantinha. Ou seja, uma mulher divorciada era muito mal-vista e enfrentava, além do preconceito social, uma série de dificuldades, como batalhar um espaço no fechadíssimo e sexista mercado de trabalho da época. A emancipação feminina e seus desdobramentos era uma preocupação recorrente, mesmo que muitas mulheres não falassem dela.

"A atitude da Malu foi muito marcante e influenciou muitas mulheres a se libertarem de relações abusivas e agressivas. A letra de 'Começar de Novo' também era um fator motivador extra, pois sinalizava que, apesar de tanta dor, valia a pena recomeçar", conta Vera Vieira, jornalista e coordenadora executiva da ONG Rede Mulher de Educação.

A série começa Malu e Pedro (Dennis Carvalho) terminando um casamento abusivo - Nelson Di Rago/TV Globo
A série começa Malu e Pedro (Dennis Carvalho) terminando um casamento abusivo
Imagem: Nelson Di Rago/TV Globo

A própria Vera relata que encontrou forças no gesto de Malu na ficção para abrir o jogo sobre a violência que enfrentava no casamento e se separar. O seriado acabou influenciando a sua trajetória: ela fez mestrado e doutorado em temas relacionados aos direitos das mulheres e hoje é uma ativista feminista atuante, principalmente em tópicos ligados à relação entre educação e gênero.

Pioneira na ousadia

A ideia de criar "Malu Mulher" ocorreu ao diretor Daniel Filho, quando ele assistiu a comédia "Uma Mulher Descasada" (1978), de Paul Mazursky. Para chegar ao formato que foi ao ar, ele reuniu uma equipe formada majoritariamente por mulheres, entre produtoras, pesquisadoras e figurinistas. "As reuniões eram na minha casa e praticamente comandadas por elas. Alguém já tentou impor uma ideia tendo ao lado oito mulheres?", relembra Daniel em seu livro "O Circo Eletrônico - Fazendo TV no Brasil".

Socióloga e amiga de Regina Duarte, a ex-primeira dama Ruth Cardoso (1930-2008) chegou a participar dessas reuniões de criação. Foi dela a sugestão de que a personagem fosse socióloga e de que fossem feitas entrevistas com estudantes da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), então referência em Ciências Sociais no país, como fonte de construção do perfil de Malu. O resultado surtiu o efeito esperado, que era o de gerar identificação e admiração no público feminino.

Malu surgia na TV com pouca maquiagem, cabelos soltos ou presos de forma despojada (às vezes, com uma caneta Bic) e roupas de silhuetas mais amplas. Um relógio masculino e óculos enormes à la Gloria Steinem, feminista-ícone da época, completavam o visual. Em sua casa, repleta de plantas e objetos étnicos, Malu datilografa contos e traduções, fumava, bebia uísque e recebia amigos.

Para Heloisa Buarque de Almeida, professora do Departamento de Antropologia da FFLCH-USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo), o impacto de "Malu Mulher" na sociedade aconteceu, principalmente, através da maneira como a mulher passou a ser mostrada pelas novelas da Rede Globo, cujo apogeu se deu entre as décadas de 1980 e 1990. "Até então, as mocinhas tinham um papel mais passivo nas tramas. Malu apresentava um estilo de vida mais moderno e urbano, consumista, de uma classe média mais alta e escolarizada. Embora após o término o termo 'feminista' tenha sido rejeitado na emissora, é fato que muitas personagens femininas se tornaram mais ousadas por causa da Malu", afirma.

"Malu Mulher" representou uma mudança no retrato das mulheres na televisão - TV Globo
"Malu Mulher" representou uma mudança no retrato das mulheres na televisão
Imagem: TV Globo

Segundo Heloisa, que fez doutorado em Ciências Sociais justamente na Unicamp e foi professora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu da mesma instituição, os temas polêmicos abordados no seriado funcionavam como uma espécie de "teste" para a Rede Globo analisar até que ponto podia ir sem chocar o público. "Vivíamos sob uma ditadura militar e não podemos desprezar o fato de que qualquer emissora precisa agradar também os anunciantes. Por isso a linguagem era mais popular, com alguns diálogos muito didáticos para a nossa visão atual, e com os assuntos mais chocantes ditos nas entrelinhas em alguns episódios", conta Heloisa, autora do artigo "Trocando em Miúdos: Gênero e Sexualidade na TV a partir de Malu Mulher", publicado na "Revista Brasileira de Ciências Sociais", em 2012.

Exibido até dezembro de 1980 e disponível em DVD, o programa conquistou vários prêmios, inclusive internacionais. No entanto, nem só dos elogios dos admiradores foi construída sua reputação. Um dos episódios mais polêmicos, "Ainda Não é a Hora", tratava do aborto feito pela personagem Jô (Lucélia Santos) numa clínica clandestina. A ousadia ocorreu por ordem de Boni, então diretor da emissora, com a intenção deliberada de causar reações. A Globo recebeu inúmeras cartas de protesto e foi detonada por críticos da TV. No episódio da semana anterior, em junho de 1979, Regina Duarte tinha encenado o primeiro orgasmo da televisão brasileira, no episódio "De Repente, Tudo Novamente". Na cena de sexo com Mário (Paulo Figueiredo), a câmera focalizou a mão fechada da personagem abrindo-se. Na mesma história, Malu surgia ingerindo uma pílula anticoncepcional.

Relações homoafetivas, racismo e até tortura --de uma maneira muito sutil-- foram outros assuntos abordados pelo seriado que, obviamente, passou a chamar a atenção da Censura Federal. Um episódio em que Malu se disfarça de prostituta para fazer pesquisas na Boca do Lixo foi censurado. Na época, um dos casos de violência mais comentados nas páginas policiais era o de um delegado que costumava espancar garotas de programa.

Malu Moderna?

Censura passou a interferir fortemente no seriado - TV Globo
Censura passou a interferir fortemente no seriado
Imagem: TV Globo

Com as interferências cada vez mais constantes dos censores, mudanças nos temas e na linguagem se tornaram comuns e passaram a descaracterizar não só a atração, como a personalidade e a trajetória da personagem, levando o programa ao fim. Na opinião de Heloisa Buarque de Almeida, um dos principais méritos do programa foi atacar a hipocrisia e a dupla moral da sociedade brasileira. O ex-marido de Malu, por exemplo, não queria se separar, mas mantinha casos amorosos fora do casamento. "A importância de discutir um relacionamento foi, para mim, o que mais deu certo e o que mais 'colou' e influenciou na época. As pessoas viviam casamentos mornos, sentiam o peso da rotina, mas não se julgavam capazes de trazer isso à tona. Esse lado do seriado foi bem aceito e incorporado nas novelas da década de 1980", observa.

Assídua telespectadora de "Malu Mulher", a psicoterapeuta e terapeuta de casais Carmen Cerqueira Cesar, de São Paulo (SP), reforça que a sociedade ainda era muito conservadora e que todos precisaram passar por um processo de reinvenção. "Havia ainda muitos preconceitos em relação à mulher, pois, embora já contássemos com avanços nas questões de gênero, ainda vivíamos numa sociedade machista e patriarcal. Tanto a mulher teve que se exercitar nesses novos papéis, como o de divorciada e trabalhadora, e aprender a lidar com a sua liberdade recém-conquistada, como os homens se viram diante de desafios e também tiveram que se reinventar. Para eles, o mundo virou de pernas para o ar. Foi difícil, mas acabou sendo bom para todos", conclui.

Para Vera Vieira, mesmo com um leque maior de opções de atrações à sua disposição, um seriado aos moldes de "Malu Mulher" seria bem pertinente nos dias de hoje. "Vivemos uma fase de muito retrocesso, com o desmonte de políticas públicas fundamentais e a profusão dos partidos de direita. É muito triste, mas entendo que esse caminhar para trás faz parte do movimento civilizatório e democrático e que, ao mesmo tempo, ajuda a impulsionar a atitude de jovens feministas que devem continuar a luta das feministas de quarenta, cinquenta anos atrás. Temas como feminicídio, ainda mais com os índices alarmantes no Brasil, seriam fundamentais num seriado como esse numa TV aberta", acredita.

Temas abordados em "Malu Mulher" ainda são discutidos na sociedade atual - Nelson Di Rago/TV Globo
Temas abordados em "Malu Mulher" ainda são discutidos na sociedade atual
Imagem: Nelson Di Rago/TV Globo

Ao revisitar o passado e analisar obras de ficção, é comum ter a impressão de que muito pouco se avançou. Afinal de contas, temas como aborto, liberdade reprodutiva, direito ao próprio corpo, racismo e até o modo de vestir das mulheres ainda são, em 2019, motivo de preconceito, discussão e desconhecimento. Para a psicóloga e estudiosa do feminino Cristina Balieiro, coautora do livro recém-lançado "Círculos de Mulheres - As Novas Irmandades" (Ed. Ágora), não há motivo para desânimo, apesar de tanto desencanto. Ela diz que a luta pelos direitos femininos é uma briga recente na história da humanidade e que nenhuma mudança cultural profunda acontece de uma hora para outra, sem idas e vindas.

"Vivemos um período de muita polarização e, quando isso ocorre, sempre há um retrocesso na visão dos direitos femininos. Por outro lado, temos coletivos feministas para todos os lados como reação. E isso é um avanço", fala. "Sou otimista e encaro o cenário de uma perspectiva mais ampla, pois nada dura para sempre. As mulheres hoje têm acesso à informação e à educação e isso faz com que a busca por igualdade de direitos ocupe cada espaço e cada momento, da maneira que puderem", completa. É como diz a canção de Malu: vai valer a pena ter sobrevivido.

Errata: o texto foi atualizado
Ao contrário do informado, a série não estreou durante a vigência do AI-5. A informação já foi corrigida.

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{user.alternativeText}}
Avaliar:

O UOL está testando novas regras para os comentários. O objetivo é estimular um debate saudável e de alto nível, estritamente relacionado ao conteúdo da página. Só serão aprovadas as mensagens que atenderem a este objetivo. Ao comentar você concorda com os termos de uso. O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Recomenda