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Mãe de Ana Hickmann: Criança, trabalhava na roça; hoje tenho pós-doutorado

Reni Saath ao lado da filha famosa, que a chama de "musa" - Reprodução/Instagram
Reni Saath ao lado da filha famosa, que a chama de "musa" Imagem: Reprodução/Instagram

Camila Brandalise

Da Universa

11/05/2019 04h01

Aos 15 anos, Reni Saath trabalhava horas sob o sol da plantação de tabaco da sua família, na zona rural da cidade de Santa Cruz do Sul (RS). "Desde os oito anos de idade, eu plantava, regava, fazia a fertilização e a colheita", diz. "Minha infância foi cuidando de pé de fumo." No fim do dia, Reni pegava um ônibus para que, depois de uma hora de estrada de chão, chegasse até a escola.

Reni decidiu parar de trabalhar e estudar e, aos 17, casou-se com o então namorado, o representante comercial João Hickmann. O casal teve quatro filhos e, quando ela completou 36, o casamento, em suas palavras, "desandou". Reni se viu sozinha, com crianças pequenas para criar, sem diploma do colégio e sem nunca ter trabalhado fora da roça.

Mas ela deu um jeito. Deixando os filhos ora com parentes ora com o pai, iniciou um curso supletivo e foi empregada em dois trabalhos, como vendedora em uma loja e operária numa fábrica. E ela foi muitíssimo mais longe: aos 43 anos, formou-se na faculdade de engenharia agrícola, depois, fez mestrado, doutorado, pós-doutorado e, hoje, é coordenadora do departamento de agronomia de uma universidade referência na área, a UEM (Universidade Estadual de Maringá).

A história é surpreendente per si. Mas a cereja desse bolo é que a desconhecida Reni é mãe da conhecidíssima apresentadora Ana Hickmann. Reni é incrivelmente zelosa de sua privacidade e de uma vida quase espartana. Ana já cansou de convidá-la para morar com ela em sua mansão de três andares e oito suítes em Itu, no interior de São Paulo. "Mas ela já sabe minha resposta", diz Reni, 56, em entrevista à Universa. "É gostoso ter dinheiro. Mas minha maior satisfação é ver o que consegui conquistar com meu trabalho", explica ela, que mora sozinha em um apartamento de dois quartos em Maringá (PR).

Noites de sono só aos sábados

No primeiro trabalho que teve fora do campo, em 1993, Reni entrava às 22h e saía às 6h da linha de produção de uma fábrica da Souza Cruz. Selecionava folhas de tabaco que não tinham defeitos e que seriam encaminhadas para a fabricação de cigarros.

Os quatro filhos -- Ana, Isabel, Fernanda e Luiz -- passam as noites com as avós materna e paterna. Sete anos depois, o pai dos meninos pediu que eles fossem morar com ele. "Foi quando decidi fazer o supletivo. Durante um ano, minha rotina era estudar das 18h às 22h, trabalhar na Souza Cruz das 22h30 às 6h, dormir no carro até às 8h30 e ir pro meu outro trabalho, em uma loja de materiais de construção, onde ficava até as 17h. Só dormia noites inteiras aos sábados".

Ana: "Ela tem rodinhas nos pés"

Reni com as filhas, da esquerda para a direita: Fernanda, Isabel (no chá de bebê do filho, Francisco) e Ana - Arquivo pessoal
Reni com as filhas, da esquerda para a direita: Fernanda, Isabel (no chá de bebê do filho, Francisco) e Ana
Imagem: Arquivo pessoal

Reni se formou em engenharia agrícola aos 43 anos pela UFLA (Universidade Federal de Lavras). Casada de novo, se mudou para Minas Gerais e lá completou a graduação. Engatou um mestrado com bolsa de estudos e, depois, separada novamente, foi para Botucatu, no interior de São Paulo, fazer o doutorado na Unesp (Universidade Estadual de São Paulo). Seguiu-se a isso o pós-doutorado e a convocação para o curso de agronomia em Maringá, em 2015.

Ela é o orgulho de Ana. "Minha musa", costuma dizer. As duas conversam por mensagens diariamente.

Minha vida de anônima

"Tem certeza que a professora Reni é mesmo a pessoa que você está procurando, a mãe da Ana Hickmann?" A frase, dita ao telefone para a reportagem por uma funcionária da universidade onde Reni trabalha espelha a vida discreta da mãe de tamanha celebridade". "Nunca imaginei que ela tivesse filha famosa", completou a mulher, quando informada sobre Ana Hickmann.

"Os poucos que sabem da Ana me perguntam por que continuo dando aulas e estudando se tenho tudo tão fácil", diz Reni, rindo. "Minha satisfação maior é chegar no fim do mês e ver o que consegui conquistar sozinha. O prazer que meu trabalho e minhas pesquisas me dão ninguém vai me dar".

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