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Gaúcha relata agressão de marido médico: "Tive certeza que ele ia me matar"

Jéssica Peil de Oliveira, de 27 anos - Arquivo pessoal
Jéssica Peil de Oliveira, de 27 anos Imagem: Arquivo pessoal

Mariana Gonzalez

Da Universa, em São Paulo

10/05/2019 04h00

Resumo da notícia

  • A extensionista de cílios Jessica Peil, de 27 anos, foi às redes sociais para denunciar o ex-marido, um médico oftalmologista, por violência doméstica
  • Segundo ela, Guido Luiz Gehrke Júnior não teria aceitado o fim da relação e a teria agredido; ela foi socorrida com hematomas e um corte no pescoço
  • Dois dias depois de Jessica prestar queixa na Delegacia da Mulher de Caxias do Sul (RS), o ex-companheiro registrou uma ocorrência de lesão corporal
  • Em depoimento, a gaúcha conta como está retomando a vida com a filha de 4 anos

A extensionista de cílios Jéssica Peil de Oliveira, de 27 anos, fazia planos de aumentar a família quando teria descoberto a infidelidade do companheiro, o médico oftalmologista Guido Luiz Gehrke Júnior. Ela decidiu pôr fim ao relacionamento, o que levou a uma série de discussões que teriam terminado no dia 15 de abril, data em que ela alega ter quase morrido nas mãos dele.

A gaúcha de Caxias do Sul (RS) chegou ao Hospital Virvi Ramos com um corte profundo no pescoço, levou cinco pontos no rosto e tratou hematomas por todo o corpo. O caso foi registrado como lesão corporal, mas Jessica espera que seja convertido em tentativa de feminicídio. "Senti medo, pânico e tive certeza de que ele queria me matar", disse a Universa.

Jessica conta como tenta retomar a vida com a filha de 4 anos, enquanto espera a conclusão do inquérito policial, o que deve acontecer na próxima semana:

"Convivemos em união estável durante um ano e quatro meses. A nossa relação era boa, mas ele tinha pressa de tudo. De morar junto, de ter filhos, de viajar. Era uma pessoa controladora, ciumenta, possessiva, mas nunca achei que se tornaria alguém agressivo a esse ponto. Sempre achei que isso [o ciúme] era insegurança dele por eu ser [18 anos] mais nova.

No dia 14 de abril, houve agressão, puxões de cabelo e outros tipos de violência física. Agressões verbais já haviam acontecido algumas vezes, depois de festas, sempre por ciúmes dos próprios amigos e de suas esposas. Ele não gostava de me ver conversar com ninguém. Sempre foi um homem atencioso mas, como eu disse, era controlador e possessivo. Acredito que não me via mais como esposa, mas como posse. Hoje entendo que era um relacionamento abusivo. Mas enquanto estava com ele, achava que isso era normal.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Quando começamos a morar juntos, depois de quatro meses de relacionamento, construímos sonhos. Íamos aumentar a família, tínhamos viagens marcadas. Um dia, ele marcou de tomar vinho com uma representante de laboratório no hotel dela. Nas mensagens, disse que não poderia chegar em casa antes da meia-noite 'porque não podia acostumar mal a esposa'. Quando eu questionei sobre as mensagens que eu tinha visto, disse que não tiraria mais o DIU para termos filhos. Esse era um plano nosso. Eu estava com consulta marcada para dali a uma semana.

Discutimos, houve algumas agressões, mas ele pediu desculpas e combinamos que retomaríamos nossa vida normal no dia seguinte. Fomos ambos trabalhar normalmente, mas, quando voltei para casa, estava decidida a terminar. Não aceitando o rompimento da nossa relação, ele deu início às agressões físicas. Acredito que os vizinhos escutaram e preferiram não intervir. Senti medo, pânico e certeza de que ele me mataria.

Depois das agressões, ele fugiu. Fui socorrida por familiares. A polícia chegou à nossa casa, me acompanhou até a delegacia e depois fui até o hospital para receber os primeiros socorros.

Resolvi denunciar porque eu sabia que ele tentaria me calar com dinheiro, poderia arruinar minha vida profissional ou mandar alguém me matar. Ele sempre foi uma pessoa com muita influência, sempre conseguiu tudo o que queria com dinheiro.

Depois que postei a primeira foto [mostrando os cortes e hematomas no rosto], comecei a receber relatos de várias outras mulheres, vítimas dele, narrando situações que aconteceram e não foram denunciadas. Infelizmente ter dinheiro, uma profissão respeitável e contatos influentes poderia ser o suficiente para fazer mais um ato cruel desaparecer. Ele calou quatro mulheres com ameaças. Elas, por medo, nunca denunciaram. Mas eu sabia que morreria se fizesse silêncio.

Retomar a vida é necessário. Sempre trabalhei muito, tenho uma profissão e uma filha. Se eu não voltasse a trabalhar, quem faria isso por mim? Estou tentando me reerguer e recomeçar, mas não tem sido fácil. Levanto e luto todos dias com o mesmo leão que tentou me derrubar ontem.

Não saio mais sozinha, estou sempre alerta. Aviso às pessoas de confiança para onde vou e quanto tempo pretendo demorar. Nunca mais serei a mesma. Depois de ter passado por isso, essa dor não vai se apagar, mas fico grata com todas as formas de carinho que tenho recebido. Quantas mulheres se calaram por medo? Quantos casos ele abafou e calou? As vítimas que apareceram têm medo de morrer. Não quero virar estatística. Mas com todo esse apoio, as vítimas verão que não precisam temer nem ficar em anonimato. Isso me dá esperança de que essa cultura machista esteja acabando."

O outro lado

Na noite de 15 de abril, Jessica prestou queixa contra Guido por lesão corporal na Delegacia da Mulher de Caxias do Sul.

Procurado por Universa, Guido Luiz Gehrke Júnior se manifestou por meio de seu advogado. Em nota, Leonel Ferreira disse que "o Dr. Guido é tratado como vítima e suspeito", pois também teria sofrido agressões físicas.

A reportagem teve acesso a parte do inquérito policial que investiga o caso e confirma que, no dia 18 de abril, 48 horas depois das agressões relatadas por Jessica, o oftalmologista denunciou a ex-companheira por lesão corporal.

"Ele sofreu violentos ataques de sua ex-namorada, que não aceitou o término do relacionamento. No dia 14/04, domingo, ele foi agredido com um bastão de hóquei que somente não pôs em risco sua vida por não ter atingido áreas letais. O médico possui escoriações e marcas por todo o braço e tórax. Não satisfeita, a agressora jogou em direção a ele um abajur, objeto que causou um corte de quatro centímetros na testa".

Jessica, no entanto, alega legítima defesa e conta ter sido chantageada por Guido para não levar o caso adiante. "Ele tentou fazer inúmeras propostas por meio de advogados. Neguei todas e ele fez a ocorrência dois dias depois", disse.

"Se realmente fosse verdade, por que ele não fez a ocorrência no dia das agressões ou no dia seguinte, como eu?", questionou. "As fotos dele com hematomas dois dias depois são contestáveis", disse.

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