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Mães contam como são recebidas na faculdade quando levam os filhos pequenos

Carolina e o filho, em uma das visitas dele à universidade em que a mãe estuda - Arquivo Pessoal
Carolina e o filho, em uma das visitas dele à universidade em que a mãe estuda Imagem: Arquivo Pessoal

Talyta Vespa

Da Universa

09/05/2019 04h00

O filho da doutoranda Carolina Martins está acostumado a acompanhar a mãe na universidade. Hoje, aos 12 anos, a dupla viaja do Maranhão, onde mora, até o Rio de Janeiro sempre que ela tem orientação com um professor. Carolina estuda na UFF (Universidade Federal Fluminense), onde também cursou história e fez mestrado. "Ele vai comigo resolver tudo o que preciso sobre o doutorado. Até presta atenção na conversa com a professora para discutirmos depois", conta.

Para Carolina, a presença do filho nas atividades acadêmicas não é nenhum problema. Durante sua primeira graduação, filosofia, na UFMA (Universidade Federal do Maranhão), ela assistiu a diversas aulas na companhia do filho. "Meu marido é professor e nem sempre conseguíamos conciliar nossos horários. Tive sempre professores e colegas solícitos comigo e com meu filho", afirma.

NA UFF, há inclusive uma creche em que os alunos podem matricular os filhos sem custo algum. Carolina, contudo, não conseguiu vaga. "Mas não foi um problema, já que sempre tive suporte".

Tayla Nicoletti - Arquivo Pessoal
Tayla Nicoletti
Imagem: Arquivo Pessoal

Essa, infelizmente, não é a realidade de muitas mulheres. Também graduada em história, a professora Tayla Nicoletti enfrentou problemas na universidade, em 2017. Ela e o marido se matricularam juntos na Uninove, em São Paulo, no mesmo curso, quando o filho do casal tinha dois anos. Para assistir às aulas, deixava o menino com a mãe, mas, às vezes, tinha de levá-lo junto.

Quando isso acontecia, Tayla e o marido se revezavam: ela ficava na praça em frente à universidade com a criança, enquanto ele assistia às duas primeiras aulas. No intervalo, ele assumia o bebê para que ela comparecesse às duas últimas do dia.

"O regulamento deixava claro que não era permitida a entrada de crianças. A única vez que pedi para entrar com meu filho foi quando precisei usar o banheiro. O segurança impediu nossa entrada e, como argumentei que iria apenas usar o toalete, ele chamou um funcionário para me acompanhar. Nem pude subir para o campus, tive de usar o sanitário do térreo", conta.

Isabela Alexandre e o filho - Arquivo Pessoal
Isabela Alexandre e o filho
Imagem: Arquivo Pessoal

Passar por dificuldades como essa motivou a estudante Isabela Alexandre a aderir ao movimento estudantil. Quando foi aluna de gestão pública na faculdade Anhanguera, em São Paulo, ela se sentiu constrangida em levar o filho para a sala de aula.

"Durante a aula, meu filho começou a chorar. Ele tinha cinco meses. A professora parou de falar, colocou as mãos na cintura e olhou para mim. Saí da sala imediatamente e, aí, quem começou a chorar fui eu. Fiquei muito constrangida e nunca mais me senti à vontade para levá-lo comigo. Se eu não tivesse com quem deixá-lo, faltava", conta Isabela.

Pouco depois, a estudante passou no vestibular da IFSP (Instituto Federal de São Paulo) e pediu transferência. Quando precisou levar o filho para a faculdade, quando ele tinha três anos, foi acolhida. "Tive uma prova e minha mãe não pôde ficar com ele. Assim que entrei na sala, com ele dormindo no meu colo, o professor juntou algumas mesas para que eu o colocasse em cima. Durante a prova, meu filho acordou e disse: 'Mamãe, por que você tem que fazer essa prova? Vamos brincar'. Na mesma hora, o professor me chamou e falou que eu poderia ir embora e finalizar a prova no dia seguinte".

Hoje, dentro do movimento estudantil, ela defende as alunas mães dentro da universidade. "Sempre que uma aluna precisa levar o filho para a aula, eu faço a ponte para falar com o professor. Converso, também, com os colegas para que as recebam bem na sala de aula".

O que diz a lei

Segundo o Decreto-Lei Nº 1.044, de 21 de outubro de 1969, e a Lei Nº 6.202, universitárias têm direito ao regime domiciliar. A medida garante que, a partir do oitavo mês de gestação e até o terceiro mês do bebê, as alunas possam compensar a ausência nas aulas com trabalhos feitos em casa.

No entanto, não existe lei que garanta ou impeça a presença de crianças dentro das universidades. Segundo a advogada pela PUC-RS e dona do projeto Advocacia para Mulheres, Gabriela Souza, a decisão fica a critério da instituição.

"É preciso olhar o regulamento da faculdade com cuidado. Sugiro que em casos de necessidade, nas faculdades que proíbem crianças, as mães tentem conversar com os coordenadores e pedir uma alternativa. Se os pais tivessem as mesmas responsabilidades que as mães perante a sociedade, haveria uma lei que permitiria que seus filhos frequentassem as instituições de ensino", afirma a advogada.

Regulamentos das universidades

A IFSP afirma que, no manual do aluno, não há especificações sobre a presença de crianças na universidade. "Contudo, quando as alunas mães precisam, elas podem contar com a sensibilidade dos professores para serem acolhidas", informa a instituição, por meio de nota. A universidade informa ainda que oferece auxílio-creche e a possibilidade de gestantes e mães assistirem às aulas à distância quando sentirem necessidade.

O auxílio-creche é medida, também, da UFF, que, em nota, garante que vai instalar trocadores de fralda em todos os banheiros.

A maior universidade do Brasil, a USP (Universidade de São Paulo) deixa a autorização a critério dos professores. Em nota, a faculdade informa que não há regras sobre esse assunto no manual do aluno.

Em nota, a Anhanguera informa que, seguindo sua política interna, permite a entrada de alunas e de seus filhos nas dependências comuns da instituição.

Procuradas pela Universa, a Uninove não quis se manifestar.

Direitos da mulher