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Vetou patinadora de 11 anos: federação é acusada de transfobia

Maria Joaquina em competição - Arquivo Pessoal
Maria Joaquina em competição Imagem: Arquivo Pessoal

Débora Miranda

Colaboração para Universa

26/04/2019 04h00

Maria Joaquina, 11 anos, é vice-campeã brasileira de patinação artística e, como tal, deveria ser convocada para representar o Brasil no Campeonato Sul-Americano da modalidade. Não foi. O argumento: ela não poderia competir porque, em seu documento, ainda consta identificação masculina.

Maria Joaquina nasceu com o sexo biológico masculino. Mas, desde muito cedo, demonstrou que se identificava com o gênero feminino.

"A gente entrou com o processo de troca de nomes e já houve crianças que tiveram o pedido aprovado. Mas isso leva um tempo e não pode ser impeditivo para ela competir", afirma o empresário Gustavo, 37 anos, pai da menina, que em todas as ações vem contando com a Defensoria Pública do Paraná.

Decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de 2018 já autoriza a alteração do registro civil de pessoa transgênero acima de 18 anos, diretamente pela via administrativa. "Mas menores de 18 anos ainda não falam por si, então é preciso entrar na Justiça para conseguir a mudança", conta Eliana Tavares Paes Lopes, coordenadora do Núcleo da Mulheres da Defensoria do Paraná. Segundo ela, o Ministério Público --que precisa opinar nesses casos-- já falou a favor da decisão, que depende agora do parecer de um psiquiatra chamado pelo juiz.

Depois de uma longa batalha na Justiça contra a CSP (Confederação Sul-Americana de Patinação), presidida pelo brasileiro Moacyr Neuenschwander Junior, também presidente da CBHP (Confederação Brasileira de Hóquei e Patinação), Maria Joaquina finalmente conseguiu a liberação no domingo, um dia antes do início da disputa.

Então, saiu com a filha de Curitiba e foi a Joinville, onde o campeonato aconteceria logo cedo, na manhã de segunda-feira. "Chegamos por volta de 7h, a competição começava às 7h40, mas ela era a última a se apresentar. Às 7h30 falaram que ela seria a primeira. Ela não teve tempo para reconhecer a pista, fizeram de tudo para que ela fosse mal. Ela competiu chorando e não mostrou tudo o que sabia. Estava muito abalada."

Maria Joaquina também não usou o uniforme que os atletas da seleção brasileira usaram, não recebeu cartinha da federação nem brinde, segundo seu pai. "A gente conversou muito com ela. Ela se sentiu derrotada e não amada."

Apoio de celebridades

O episódio rapidamente se espalhou pela internet, despertando solidariedade --inclusive de celebridades do universo LGBT. A modelo Lea T e a atriz Maria Clara Spinelli, ambas transgêneros, manifestaram seu apoio à menina, assim como a cantora Pabllo Vittar e o estilista Alexandre Herchcovitch. "Ele disse que vai fazer um collant para ela patinar", conta, feliz, o pai.

A jogadora de vôlei Tifanny Abreu, do Sesi Vôlei Bauru, que é mulher trans, manifestou solidariedade à patinadora e lembrou que também enfrentou muito preconceito.

"Dou todo o meu apoio a ela e aos pais nessa luta, pois é o nosso futuro e vai abrir portas para a inclusão de muitas outras atletas transsexuais. Podemos e temos de lutar por nosso espaço, que é de direito. Não queremos nada mais e nada menos. Só queremos ser felizes e poder fazer o que estamos liberadas a fazer. Ninguém está ocupando o espaço de ninguém. Muito obrigada por você existir, Maria Joaquina".

Repercussão pode mudar história

Os internautas se mobilizaram contra a CBHP, que começou a receber mensagens de apoio à menina e acusações de transfobia. O órgão não se manifestou publicamente sobre o ocorrido. Procurado pela reportagem, Moacyr disse que poderia dar entrevistas no decorrer desta sexta-feira. "A federação começou a excluir os comentários e banir as pessoas. O pessoal ficou com muita raiva. Foi uma loucura", comenta. De fato, postagens de ontem já não aparecem mais no Instagram do CBHP hoje.

Admirado com a repercussão do caso, ele diz que espera que tanto barulho possa ajudar a mudar a situação das pessoas transgêneros do país, que ainda enfrentam muita dificuldade para ter sua identidade aceita e para conseguir viabilizar a vida prática com o novo gênero.

"O mundo não respeita o nome social dela. É sempre difícil. Numa consulta médica ou numa viagem de ônibus, não importa o quanto peçamos, eles ficam chamando pelo nome anterior. Isso faz muito mal a ela, mas Maria Joaquina tem muita segurança em sua identidade de gênero. E toda essa movimentação fez com que ela se sentisse acolhida, feliz e bonita", conta ele, emocionado.

"Já chegou no lar uma menina"

Adotada com com os dois irmãos --Carlos e Talhia-- pelo casal Gustavo e Cleber, Maria Joaquina começou aos poucos a pedir para se vestir como menina.

"O coordenador do abrigo em que eles estavam, durante o nosso estágio de convivência, me disse: 'Ele chegou no lar uma menina'. Eu não entendi na hora o que isso significava e não dei importância. Era um sonho tão grande adotá-los, foi algo que sempre quisemos", emociona-se.

A adoção foi realizada há dois anos e, desde então, a família vem lutando pelo reconhecimento de Maria Joaquina como menina. "Após um mês em casa, ela já estava se sentindo tão acolhida que começou a manifestar a insatisfação com o próprio corpo. Furou as orelhas sozinha para usar brincos. Chorou quando a levei para cortar o cabelo. Muitos episódios nesse sentido", lembra.

Ele reconhece que, no começo, teve dificuldade em lidar com a situação. "A verdade é que não aceitamos bem. Ela já queria chamar Maria Joaquina, mas, para mim, era complicado. Sugeri então que a apelidássemos de Jojô, que era um nome que poderia ser usado para ambos os gêneros. Era mais neutro e me dava tempo de me acostumar com a ideia. Até hoje não gosto de ouvir Jojô, me machuca, porque foi um nome que usamos como fuga."

Os pedidos para se vestir como menina foram aumentando com o passar do tempo. "Primeiro a gente aceitou que ela usasse as roupas em casa. Depois ela pediu para passear no shopping. Mas ela queria 24 horas assim. Até que insistiu para ir à escola. Não foi fácil, teve muito preconceito", conta. Ele é o dono da escola em que Maria Joaquina estudava na época e conta que perdeu muitos alunos.

A menina, segundo o pai, ainda não está na puberdade e faz acompanhamento no Hospital das Clínicas de São Paulo, que, por enquanto, se resume a acolhimento. "Quando entrar na puberdade, ela vai tomar o bloqueador, que a impedirá de produzir testosterona. Então, ela não vai ter barba nem nenhuma característica masculina."

Polêmica no esporte

O pai diz que desde que Maria Joaquina começou a patinar vem enfrentando dificuldades. O primeiro campeonato que ela disputou se chamava Novatos e não era competitivo. Apesar dos pedidos da família para que ela fosse chamada pelo nome social --Maria Joaquina--, o anúncio no microfone foi feito por seu nome masculino.

"Ser chamada pelo nome de homem mexia muito com ela. Depois se desculparam, disseram que havia sido um engano, mas não adiantou. Além disso, a regra dizia que os meninos tinham que competir de macacão. Então, colocamos um paninho por cima simulando uma saia. Seguimos as regras. Quando acabou, ela entrou no carro e chorou muito. Disse que não ia mais competir se não fosse de collant."

Outra dificuldade que os pais vêm enfrentando é que a federação insiste em limitar o uso da menina ao banheiro feminino desde que ela esteja acompanhada de uma mulher responsável.

"Como, se ela tem dois pais?", questiona o pai. "Isso machucou muito a gente."

A defensora pública Eliana acredita que as federações devam continuar tentando impedir o acesso de Maria Joaquina aos campeonatos e acha possível que sejam precisas novas ações na Justiça para que ela siga competindo. "Eles alegaram regras internas e não admitiram a participação dela. Podem continuar seguindo essa linha. Por isso precisamos de uma decisão da World Skate, que é a federação internacional, regulando essa participação. E precisamos também de uma transformação profunda na sociedade."

Os pais de Maria Joaquina garantem que a luta para que a filha seja aceita não para agora. "Isso precisa mudar, não tem condição!" Eles pretendem tentar contato com a World Skate, em busca da criação de uma política de aceitação a transgêneros --aliás, como o COI (Comitê Olímpico Internacional) já fez para esportes olímpicos. "Não podemos mais passar por isso", encerra.