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Violência contra a mulher


Adolescente morta no MT passou a gravidez com medo do ex, conta mãe

Kendra Rayane Carvalho completaria 18 anos no dia 5 de maio - Reprodução/Facebook
Kendra Rayane Carvalho completaria 18 anos no dia 5 de maio Imagem: Reprodução/Facebook

Mariana Gonzalez

Da Universa, em São Paulo

25/04/2019 17h46

A vigilante Sandra Mara Salcouski, de 43 anos, perdeu sua única filha, Kendra Rayane Carvalho, de 17 anos, há treze dias, em Mirassol D'Oeste (MT). Vítima de feminicídio, a adolescente teria sido assassinada por um ex-namorado, que está foragido.

À Universa, Sandra contou que, minutos depois de saber que a filha estava morta, recebeu mensagens do ex-genro no celular. Ronaldo José de Souza Oliveira, de 24 anos, teria compartilhado com Sandra o contato com o número 190, da Polícia Militar, às 00h48 do dia 13 de abril, um sábado, e escrito: "Vai atrás dela agora. Chupa. Cadê sua filha?". A reportagem teve acesso às capturas de tela, que não serão divulgadas a pedido da entrevistada.

O relacionamento entre Kendra e Ronaldo começou quando a adolescente, que atualmente trabalhava em uma loja de açaí, tinha 14 anos. Desde então, eles viveram diferentes momentos: o relacionamento foi interrompido e reatado várias vezes, os dois moraram juntos, passaram poucos meses separados por 2,2 mil quilômetros -- quando ela decidiu se mudar temporariamente para a casa do pai, em Balneário Camboriú (SC), após sofrer as primeiras agressões do companheiro. E tiveram um filho, Bernardo, que vai completar um ano em maio.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Kendra foi assassinada em frente ao prédio em que vivia sozinha com o filho. Eles estavam morando no local havia apenas uma semana. Segundo a Polícia Civil do Mato Grosso, a garota tinha ido a uma festa, de onde foi expulsa depois que Ronaldo, o suspeito, disse aos seguranças que ela era menor de idade -- o que leva Sandra a acreditar que o crime tenha sido premeditado.

A vítima deixou a festa e voltou para casa com o amigo Halif Thiago dos Santos, de 25 anos. Quando chegaram em frente ao prédio da adolescente, os dois foram recebidos a tiros. Segundo a polícia, Ronaldo teria atirado quatro vezes: três contra Kendra e uma contra Halif, que foi socorrido e continua internado em estado grave, de acordo com Sandra.

A mãe, que fazia um bico como segurança em um evento da cidade, foi avisada do crime por amigos de sua filha, que a levaram de moto até o local. "Quando cheguei, minha filha estava caída, morta, e eu não podia fazer nada. Aquela imagem não sai da minha cabeça."

"Só brigávamos por causa do Ronaldo"

Sandra é catarinense e mãe de três filhos -- mas quando terminou o relacionamento com o pai de Kendra, se mudou para Mirassol apenas com a caçula, já que os dois meninos mais velhos preferiram ficar com o pai em Santa Catarina.

Kendra começou a trabalhar aos 12 anos como babá e teve um namorado. Até que conheceu Ronaldo -- "aí o pesadelo começou", lembra a vigilante.

"Sempre sonhei em ter a Kendra. Eu pedia a Deus que me desse uma menininha. Ela era um doce, gostava de rosa e, quando era criança, eu a vestia como uma boneca. Nós éramos muito próximas, muito amigas mesmo. Só brigávamos por causa do Ronaldo. Eu não queria que ela continuasse com ele, queria que estudasse, tivesse futuro", afirma.

Além de Sandra, a reportagem ouviu uma amiga da vítima, de 19 anos, que preferiu não se identificar. Ela disse que Ronaldo agredia Kendra psicológica e fisicamente, inclusive no meio da rua. Após uma dessas agressões, a menina decidiu morar com o pai e os irmãos em Balneário Camboriú (SC). Quando descobriu que estava grávida, voltou para o Mato Grosso a pedido do pai da criança, que pagou a passagem e a levou para morar em sua casa.

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Tanto a mãe e quando a amiga de Kendra relatam que ela teria sigo agredida por Ronaldo inclusive durante a gravidez. Por conta disso, a adolescente voltou a morar com Sandra. "Ela ficou aqui até o Bernardo nascer, ele não participou de nada. Kendra passou a gravidez toda com medo dele. Quando o bebê nasceu, ela nem quis que ele fosse ao hospital", conta Sandra.

"Mas depois de um mês, ele veio ver o menino e foi ficando, até que eles voltaram, mas ela continuou morando comigo. Eu dizia: 'Kendra, vive com seu filho, larga esse vagabundo', mas ela continuava encontrando ele escondido", lembra. "Por último, ele bateu muito na cabeça dela", o que teria levado a um novo rompimento.

Nos últimos meses, as ameaças se intensificaram: Ronaldo chegou a mandar mensagens para Sandra, dizendo que a adolescente não deveria sair de casa e que poderia pedir a guarda de Bernardo a qualquer momento.

Em busca de uma nova história

Uma semana antes do crime, Kendra havia se mudado para uma quitinete com o filho. Sandra ajudou a montar os móveis e conta que a garota estava feliz da vida. "Ela dizia que não queria mais ninguém na vida dela."

Além da casa nova, Kendra estava feliz organizando a festa de aniversário de 1 ano do filho, e sonhava em pegar sua primeira moto, já que estava prestes a completar 18 anos. A garota estava pagando um consórcio para comprar o veículo e a mãe havia prometido, como presente, arcar com as aulas e taxas para que Kendra tirasse a CNH (Carteira Nacional de Habilitação).

Sandra voltaria a trabalhar na segunda-feira (22), mas não conseguiu. Ela deve ficar afastada de suas atividades por mais duas semanas, por orientação de uma psicóloga. "Estou sem razão para viver. A Kendra era meu tudo e não consigo aceitar que não vou ter mais minha filha perto de mim", desabafa.

Além do luto, ela cria o neto, Bernardo -- "é ele que me dá força" -- e vive com medo de Ronaldo. "Ele vivia dentro da minha casa, está armado. Depois do que ele fez com a Kendra, não duvidamos de nada."

Sandra acredita que não adianta pedir uma medida protetiva. Nas redes sociais, no entanto, pede ajuda aos conhecidos para espalhar as fotos de Ronaldo e ajudar a polícia nas buscas pelo suspeito.

O crime foi registrado como homicídio tentado e homicídio consumado, com agravante de feminicídio.