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Gay também pode ser machista; falamos com três que saíram deste "armário"

Gays costumam ter mais empatia com as mulheres do que heteressexuais, mas mesmo assim os códigos machistas interferem no comportamento deles - iStock
Gays costumam ter mais empatia com as mulheres do que heteressexuais, mas mesmo assim os códigos machistas interferem no comportamento deles Imagem: iStock

Paulo Gratão

Da Universa

09/04/2019 04h00

O time LGBT de vôlei Angels Volley publicou um vídeo em suas redes sociais que mostrava o técnico do Sesc Rio, Bernardinho, chamando a jogadora do Sesi Bauru, Tiffany, de homem --ela é uma mulher trans. Para a surpresa do grupo, que geralmente recebe apoio em seus posts, a maior parte das reações e comentários eram negativas, com teor machista e transfóbico.

A psicóloga especialista em sexualidade e desenvolvimento emocional, Simone Januário explica que a maior proximidade com o mundo feminino não faz com que um homem gay seja isento de reproduzir comportamentos ofensivos ou depreciativos à mulher. E isso faz parte da educação dada aos meninos ainda na infância, antes mesmo da descoberta da orientação sexual.

As diferenças entre homens e mulheres são transformadas, desde cedo, em desigualdades. "Quando a criança nasce, ganha uma identidade biológica, experimenta o mundo e é nomeada em algumas coisas. Existem códigos que são transmitidos pela família e que ficarão impressos na criança, entre eles, o machismo".

Opressão nossa de cada dia

De acordo com Simone, hoje, boa parte das pessoas têm um conceito mais claro de machismo do que nas décadas passadas, mas o que é enraizado na cultura ainda causa grandes confusões. "Não é uma questão de meninos vestem azul e meninas vestem rosa, isso é uma bobagem. É achar natural, por exemplo, que poucas mulheres sejam bem-sucedidas profissionalmente".

A especialista observa que os homens homossexuais costumam ter mais empatia com os grupos mais vulneráveis, mesmo assim os códigos machistas interferem na conduta de tratamento das mulheres.

A reportagem ouviu três homens gays, de diferentes idades e profissões, para entender como eles se descobriram machistas em discursos e atitudes e como fazem para se policiar e se tornar aliados das mulheres. Confira:

Lutar contra o machismo é um exercício diário

Criado até os nove anos de idade pelos avós, o gerente de contas Saad Dantas, 42, lembra que a única briga que presenciou entre o casal foi quando a avó quis usar calças. E ela só conseguiu fazê-lo ao ficar viúva. Esse comportamento passou para a forma que ele próprio lidava com a irmã mais nova. "Tinha medo de que ela se perdesse por não ter uma figura masculina. Fui autoritário na tentativa de substituir a imagem do meu pai", relembra.

Hoje, no entanto, Saad aprende com a irmã, feminista, como eliminar o machismo de suas atitudes. "Sempre me dei bem com minhas chefes, mas não percebia que tinha essa mania de interromper as mulheres falando. Uma líder que eu tive há quatro anos me mostrou isso". Desde então, ele tenta se policiar para não reproduzir o comportamento conhecido como manterrupting (interromper a mulher enquanto fala) e se colocar como um aliado, apontando piadas machistas e sexistas em seu entorno. "Sempre tento me controlar de alguma forma, ou me corrigir, direcionar o meu pensamento para que eu não seja machista. É um exercício diário", afirma.

O machismo no repúdio à vagina

Pedro Henrique Mendes Castilho, 34, conhecido como Pedro HMC, roteirista e criador de conteúdo do canal no YouTube Põe na Roda, sempre foi a favor da ocupação feminina em todos os ambientes. Ele conta que sua personagem preferida na infância, por exemplo, era a Mônica, da Turma da Mônica. O convívio com a avó e a admiração pelas Spice Girls sempre o colocaram em uma posição privilegiada do ponto de vista feminino, mas isso não foi suficiente para que não fosse contaminado pelos estigmas do machismo.

Quando se relacionou com um homem trans pela primeira vez, temeu ter contato com uma vagina, e percebeu o quanto o próprio mundo gay pode produzir discursos de ódio à mulher ou ao órgão genital considerado feminino. "Deve ser péssimo para uma mulher cis, ou ter uma vagina sendo um homem trans, por exemplo, ouvir tanta piada falando mal de um órgão que você tem no seu corpo. Completamente desnecessário, preconceituoso, excludente, e diria até mentiroso".

A masculinidade homossexual também pode ser tóxica. A autoaceitação culmina, muitas vezes, em repúdio ao oposto. Nesse caso, a mulher. "Respeitar e não propagar pensamentos preconceituosos e discriminatórios gratuitamente é um bom passo", comenta Pedro.

Autoritarismo e superproteção

Desde cedo, Toni Reis, 54, diretor-presidente da Aliança Nacional LGBTI, ouvia que cozinha não era lugar para homem e que chorar era coisa de menina. Isso ficou enraizado no seu subconsciente, mesmo depois de crescer e descobrir sobre sua sexualidade.

Hoje, diz que só percebeu o quanto o machismo é presente em suas ações ao criar a sua filha, de 16 anos. "Tenho também dois filhos meninos e percebi o quanto sou mais cuidadoso e protetor com a menina".

Ele conta que é necessário saber como se portar diante do machismo da sociedade, mas considerar que as mulheres precisam ter oportunidades iguais e autonomia para tomar suas decisões. "Isso é o que temos feito na família e comigo mesmo".

Reis passou a observar o próprio comportamento e também a apontar ações de homens gays que inferiorizem a mulher. "Nós somos discriminados, mas as mulheres também são. Muitas vezes reproduzimos esse comportamento por meio de atitudes ou nas próprias palavras. Temos que nos educar o tempo todo e perceber isso".