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"Você ainda vai se decidir": por que sempre duvidam da bissexualidade?

Nathalia Barbosa, 25, é bissexual, namora uma mulher e sempre duvidam de sua sexualidade - Reprodução/Instagram
Nathalia Barbosa, 25, é bissexual, namora uma mulher e sempre duvidam de sua sexualidade Imagem: Reprodução/Instagram

Jacqueline Elise

Da Universa

07/04/2019 04h00

A jornalista Nathália Barbosa, 25, de Itapevi (SP), descobriu com 15 anos que é bissexual. Ela, que se considera uma pessoa muito esclarecida e sem dúvidas sobre sua atração por homens e mulheres, teve que ouvir logo que se assumiu às pessoas que, na verdade, ela só estava passando por uma fase.

"Já ouvi de homens e de mulheres: 'Nossa, que legal que você pega mulher, acho lindo! Mas, na real, você só gosta de homem, né?'", lembra. "Ouvi também uns comentários que parece que a pessoa quer dizer que você só fica com menina para chamar atenção de homem, porque 'homem acha sexy ter duas mulheres', 'é só um charminho para ficar com mais caras'".

Já o produtor Stephan Martins, 31, de Nova Prata (RS), é bissexual e casado há nove anos com uma mulher, mas sente que as pessoas sempre o veem como um homem gay que ainda não se descobriu por completo. "As pessoas dizem que eu estou enganando minha mulher", afirma.

Os dois afirmam que, para mulheres, é mais comum dizerem que elas são "héteros querendo chamar a atenção"; para eles, dizem que "são gays enrustidos e que logo vão sair do armário por completo".

Quando, de tanto falarem, a pessoa passa a duvidar de si

A estudante Martina*, 21, de Viçosa (MG), descobriu que era bissexual aos 12 anos, mas, de tanto duvidarem dela, chegou a pensar que sua sexualidade era mentira. "Sempre me falaram que eu tinha que me decidir, que eu só teria certeza quando transasse com os dois gêneros. Falavam que, provavelmente, eu sou lésbica, mas não aceito; ou então que sou hétero confusa".

Ela só passou a entender que, de fato, é bissexual cinco anos depois, ao participar de mais grupos feministas no Facebook. "Eu participava de um grupo que tinha muitas bissexuais. Aí eu entendi que posso gostar dos dois gêneros, sim, e que ninguém tem rotular a vida de ninguém", conta.

Stephan Martins é bi, mas já ouviu muito que, na verdade, é "gay enrustido" - Reprodução/Instagram
Stephan Martins é bi, mas já ouviu muito que, na verdade, é "gay enrustido"
Imagem: Reprodução/Instagram

Stephan comenta que, mesmo quando pessoas bissexuais não estão em um namoro sério com alguém, a sexualidade é questionada. "Isso afeta muito quem não tem experiência em relacionamentos. Quando a gente tá solteiro, a gente também não pode ser bissexual porque as pessoas acham que a gente não tem experiência para poder falar com propriedade que gosta de mais de um gênero", diz.

Essa desqualificação constante pode ser chamada de bifobia: quando há um preconceito, seja sutil ou mais agressivo, contra a sexualidade de uma pessoa bi. Estudos mostram que bissexuais são mais propensos a desenvolver depressão e ansiedade, justamente por terem menos aceitação tanto de héteros quanto de homossexuais.

Bis existem, mas como convencer as pessoas?

A professora paulista Ana, 23, que prefere se identificar só pelo primeiro nome, é bissexual assumida para os pais, mas sente que eles não acreditam muito nisso. Por ela estar, atualmente, em um relacionamento com um homem, ela afirma que frequentemente as pessoas dizem que ela "finalmente se assumiu heterossexual".

Ela costuma usar uma metáfora para explicar sua sexualidade às pessoas: "Eu sempre comparo com o sofá-cama: às vezes é um sofá, às vezes é uma cama, mas sempre é um sofá-cama. Posso estar com um homem, com uma mulher ou com uma pessoa não binária, mas vou continuar sendo bissexual. Isso não invalida minha sexualidade", conta.

Nathália crê que a confusão das pessoas existe porque ainda pensam muito em como pessoas bissexuais fazem sexo. "Acho que o sexo ainda é tão tabu que precisava ser mais exposto. Tudo para as pessoas é 'mas se você fica com mulher e homem, como vocês transam?'. Fica todo mundo com vergonha de falar sobre intimidade, mas, ao mesmo tempo, tem essa curiosidade de saber 'como funciona' --por isso surgem as perguntas ofensivas".

Ela explica sua atração da seguinte forma: "Falo que minha sexualidade não tem a ver com gênero, mas sim com a personalidade da pessoa. Quando me atraio por alguém não é porque pensando como vai ser o sexo com ela, e sim porque gosto do humor dela, da inteligência. Sexo é um detalhe".

Stephan diz que costuma ver se a pessoa que está questionando sua bissexualidade está sendo agressiva ou não, para depois ver como ele vai fazê-la entender seu ponto.

"Se der para conversar, é sempre bom ter textos para se embasar, para explicar porque duvidar da bissexualidade de alguém é um comportamento bifóbico. Praticamente não vejo pessoas gays e lésbicas tendo que fazer isso, se munir de argumentos técnicos pra justificar a própria sexualidade". O produtor também sempre fala sobre ser bi em seu canal no YouTube, "Ordem do Dado", para que mais pessoas tenham acesso ao assunto.

*O nome foi trocado para preservar a identidade da entrevistada.

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