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Por ser trans, cineasta tem medo de morrer antes de terminar seu filme

Cineasta Júlia Katharine conquistou o primeiro prêmio Helena Ignez dado a uma pessoa transexual - Divulgação
Cineasta Júlia Katharine conquistou o primeiro prêmio Helena Ignez dado a uma pessoa transexual Imagem: Divulgação

Brunella Nunes

Colaboração para Universa

16/03/2019 04h00

Aos 41 anos de idade, a cineasta Júlia Katharine conquistou o primeiro prêmio Helena Ignez dado a uma pessoa transexual e também foi a primeira mulher trans no Brasil a exibir um filme no circuito comercial. O curta-metragem "Tea For Two", escrito, dirigido e protagonizado por ela, chegou ao cinema por meio da Sessão Vitrine Petrobrás. Júlia perpetua sua própria existência na arte que, segundo ela, a salvou de uma morte precoce. O Brasil lidera o ranking de mortes de travestis e transexuais, com uma morte a cada 48 horas.

Fascinada por cinema "desde quando se entende por gente", gosta do glamour do tapete vermelho até as narrativas mais complexas da sétima arte. Trabalhou numa locadora --onde roubava filmes cult, como "Interiores", de Woody Allen--, admira a atriz Katharine Hepburn, se encantou com o perfume Chanel nº 5 por causa de Marilyn Monroe e acredita que as comédias românticas compensam "toda a falta de romance" na sua própria vida.

Abusos na infância

Foi mergulhando no universo cinematográfico que encontrou uma válvula de escape para todos os abusos (sexuais, morais, emocionais e físicos) sofridos da infância à idade adulta, o que a levaram a algumas tentativas de suicídio. Para ela, era uma alternativa de acabar com os sofrimentos e não uma vontade verdadeira de morrer. "Acredito que sem o cinema eu não sobreviveria, a vida seria insuportável", conta à Universa. "Hoje, me considero uma Cinderela, porque não estudei cinema. Sempre mentalizei muito isso e aconteceu. Tenho tido muita sorte".

A carreira no cinema não começou a partir de estudos, mas, sim, no filme "Crime Delicado", dirigido por Beto Brant e lançado em 2005. O que era para ser uma figuração virou improvisação da Júlia numa cena --e ali ela tornou-se atriz. Porém, por várias questões e pelo fato de ter ido morar no Japão, não teve mais contato com o cinema até 2016, quando reencontrou o amigo e cineasta Gustavo Vinagre para participar do curta dele, "Cuidados".

"Desde quando nos conhecemos, ele dizia que faríamos um filme juntos. E aí aconteceu e formamos uma parceria que rendeu vários curtas. Quando ele me chamou para fazer o primeiro longa dele, fiquei muito honrada. Foi lindo. Eu tenho muito orgulho". Assim, revisaram as histórias que já haviam compartilhado um com o outro, fazendo o roteiro de "Me Lembro Mais dos Corvos" nascer.

Personagem se mistura com atriz

Júlia é uma pessoa contida. Parece tímida e muito séria, mas é espirituosa e engraçada, como se vê no filme assinado por Gustavo, que é quase documental. "A intenção é que as pessoas fiquem com a dúvida do que é real e o que não é, justamente porque foi a forma que encontrei de me preservar um pouco. A personagem sou eu, estou muito exposta. Então senti a necessidade de colocar elementos ficcionais", explicou.

Filmado sem grandes técnicas numa noite insone, intensa e desafiadora, o longa-metragem permeia toda a intimidade da personagem que narra histórias boas de ouvir e outras difíceis de digerir. São variados os temas: a descoberta do gênero feminino, um relacionamento abusivo e pedófilo dos 8 aos 14 anos, as relações familiares, uma viagem frustrante ao Japão, as tentativas de "bombar" o corpo em transição, o gosto por chás, a paixão por cinema e a gravação de vídeos pornô amadores.

Tudo isso é contado de uma forma descontraída, sem dramalhões. Para a cineasta, era necessário que em nenhum momento se criasse uma vitimização de sua imagem, tanto por questão de identificação quanto por necessidade. "Tenho a impressão de que existe uma intenção em colocar a mulher trans sempre como personagens sofridas, dramáticas, num lugar pesado, de humilhação ou de superação. Não me identifico com isso. Na minha vida, não me levo tão a sério e rio muito de mim mesma", destacou.

Júlia é, além de boa contadora de histórias, uma figura empática. "Sempre fui uma mulher conhecida por entreter. Meus amigos sempre destacaram que conto histórias muito bem. E eu nunca levei a sério. Mas com o filme eu meio que estou acreditando nisso", disse ela durante a entrevista, com felicidade em dizer que o longa vem sendo bem aceito pelo público em geral.

Foi depois dessa experiência, premiada oito vezes ao redor do mundo, que ela resolveu tirar sua ideia do papel e investir no curta "Tea for Two", que narra um triângulo amoroso entre três mulheres. "Descobri então um mundo com o qual eu não tinha tanta familiaridade, das mulheres lésbicas, e a partir do filme pude entender melhor muitas coisas", explicou a cineasta, que é heterossexual. "A minha intenção é: contar histórias de amor. Não importa a orientação sexual. Para mim, o interessante é a relação humana, que não passa pela identidade de gênero. Eu posso me apaixonar por uma mulher sem ter a necessidade de levá-la para a cama. É isso o que busco mostrar no meu cinema".

Um edital da SPCine voltado para a diversidade e a produtora Lira Cinematográfica ajudaram o filme a se concretizar. "Quando pude roteirizar e dirigir, duas coisas que eu realmente queria fazer, me senti realizada". A obra resultou no prêmio de destaque feminino Helena Ignez, no 21º Festival de Tiradentes, dado pelas mãos da própria Helena.

Agora, ela une forças e apoio dos amigos para concretizar seu primeiro longa. O título, "Família Valente", ainda é provisório, mas o intuito é que estreie em 2020. Gilda Nomacce foi escalada para a produção e para atuar ao lado de Thaís Almeida Prado, interpretando duas irmãs atrizes vivendo situações verídicas que Júlia já passou.

Júlia teme pela própria vida. "Tenho pressa por essa questão, acentuada num governo que legitimou a violência contra nós. Eu sinto cada vez mais a urgência de entregar o filme, para que eu possa morrer tranquila e deixar um legado".

"Quero que me deixem ser uma mulher livre"

julia katherine - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

A Júlia se reconheceu como mulher aos 8 anos de idade e passou por diversos obstáculos para conseguir ser quem é. Ela não pede muito, apenas que a deixem ser uma mulher livre, inserida na sociedade. Acontece que os anos se passaram, mas a luta para existir continua. Faz pouco tempo que foi agredida por dois adolescentes no metrô de São Paulo, que aproveitaram a onda de ódio contra LGBTs para esbravejar, na época, que Jair Bolsonaro ganharia as eleições.

"As pessoas riam da cena, sabe? Não sei o que está acontecendo no mundo, mas dez anos atrás eu andava na rua sem o medo que sinto hoje. Não importa se tenho uma boa índole, [as pessoas] querem me bater só pelo fato de eu ser uma mulher trans."

O termo de "trans" adicionado no final de cada atribuição sua a incomoda, embora ela entenda a importância política de destacá-lo na atual conjuntura. Mas a queixa é compreensível. "Estamos evoluindo, mas ainda torço para que a gente consiga falar sobre mulheres transexuais sem citar que elas são 'trans', apenas mulheres. Ponto. Não somos diferentes, me sinto uma pessoa como qualquer outra. E trato todo mundo igual", argumentou.

Júlia acredita que o cinema abrirá muitas portas para pessoas como as diretoras de fotografia Sladka Jerônimo e Cris Lyra, as atrizes Renata Carvalho, Leona Jhovs, Renata Peron, Wallace Ruy e Renata Bastos. "O termo trans os restringe em papéis, por exemplo. Somos chamadas para interpretar apenas uma mulher trans. E nós podemos ser uma mulher cis. Minha luta é essa: que nós sejamos naturalizadas".

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