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Fã de Jurassic Park na infância, ela descobriu animal pré-histórico extinto

Taíssa Rodrigues faz parte de uma equipe de cientistas que descobriu primos dos dinossauros na China - Arquivo Pessoal
Taíssa Rodrigues faz parte de uma equipe de cientistas que descobriu primos dos dinossauros na China Imagem: Arquivo Pessoal

Marcelo Testoni

Colaboração para Universa

21/02/2019 04h00

Em Jurassic Park, a pesquisadora de fósseis Ellie Sattler (Laura Dern) é desencorajada de exercer uma missão envolvendo dinossauros, pois, segundo o dono do parque (Richard Attenborough), ela é uma mulher. Em resposta, Ellie não só parte para a missão como afirma que voltaria para debater sobre machismo. 

O filme tem quase trinta anos e, mesmo assim, preconceitos desse tipo ainda são enfrentados pelas paleontólogas --profissionais que, como a pesquisadora do filme, estudam fósseis. Em entrevista à Universa, Taissa Rodrigues, paleontóloga e professora na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), fala do assunto e sobre sua trajetória com répteis pré-históricos. 

Desde sempre envolvida com dinossauros 

Taissa, aos 36 anos, se diz realizada na profissão que escolheu. Segundo ela, pesquisar sobre dinossauros era um sonho de infância, influenciado principalmente pelo filme Jurassic Park (onde essas criaturas revividas por meio da clonagem fogem ao controle dos humanos) e por programas de TV sobre ciência. 

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Taíssa Rodrigues desde criança tinha o desejo de estudar dinossauros -- e conseguiu!
Imagem: Arquivo Pessoal

"Depois é que fiquei sabendo que, para ser paleontólogo, era preciso fazer graduação em biologia, em geologia ou em geografia, porque não existe na universidade a graduação em paleontologia. Só depois que cursei biologia é que fui me especializar e fazer mestrado e doutorado nessa área", explica Taissa, que se mudou de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro, onde concluiu sua formação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

Na metade de seu doutorado, a pesquisadora revela que conseguiu uma bolsa para estudar no exterior; passou um ano e quatro meses na Alemanha tendo contato direto com várias coleções de fósseis da Europa e do Brasil. "No final do meu doutorado, prestei concurso e me tornei professora na Universidade Federal do Espírito Santo, onde estou até hoje", diz.

Porém, não pense que estudar dinossauros se assemelha a uma fantasia. Segundo Taissa, a profissão de paleontólogo envolve muito trabalho de campo e em laboratório, e quem opta por se dedicar exclusivamente à ciência, como ela, precisa frequentemente recorrer a instituições públicas para conseguir patrocínio para realizar pesquisas e viajar a trabalho. 

Pioneira em uma descoberta pré-histórica

Hoje, Taissa é uma paleontóloga reconhecida internacionalmente por suas pesquisas. Em 2017, ela despertou a atenção do mundo todo, inclusive de cientistas conceituados, por revelar, junto com uma equipe conjunta de paleontólogos da China e do Brasil, o descobrimento de uma pilha de ossos e ovos fossilizados e em bom estado de Hamipterus tianshanensis -- répteis voadores "primos" dos dinossauros. Essa espécie de pterossauro foi descoberta pela mesma equipe em 2014. 

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Ilustração da espécie Hamipterus tianshanensis; mais de 200 ovos e ossos da espécie foram encontrados na China
Imagem: Divulgação

"Foi algo inédito para o mundo. Eles, os pterossauros, são superdifíceis de serem encontrados intactos e em grupos, mas no deserto de Gobi, na China, havia vários ossos, inclusive crânios, que são as partes que dão mais informações para nós, como sobre o que comiam, se eram adultos ou jovens, machos ou fêmeas. Nessa ocasião, também foram encontrados cerca de 200 ovos e embriões preservados que não conhecíamos", revela a paleontóloga, explicando que ficou encarregada da parte laboratorial, análise dos fósseis e interpretação dos vestígios.

O achado, um dos mais importantes da última década, foi publicado na revista científica Science. Por parte da equipe de brasileiros, Taissa mais uma colega eram as únicas mulheres que faziam parte do estudo. As primeiras, na história do planeta, a ver aquele achado. 

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Ossos e ovos de pterossauros até então nunca vistos preservados foram analisados por Taíssa
Imagem: Arquivo Pessoal

Pela extinção dos homens das cavernas

Porém, Taissa defende que há muito mais a se conquistar. Se quando menina queria se tornar paleontóloga para estudar e trazer de volta à vida os dinossauros, hoje seu maior desejo é que as mulheres possam exercer sua profissão sem serem inibidas pela discriminação de gênero.

"Eu converso muito frequentemente com outras colegas paleontólogas e nós, recentemente, trocamos nossas experiências em congressos sobre ser mulher nessa área. A gente vê que tem, sim, muitas questões que dificultam o nosso trabalho na paleontologia, mas também na área acadêmica como um todo. São problemas gerais, como assédio sexual, preconceito e constrangimentos por parte de colegas homens que agem de maneiras inapropriadas", diz. 

A paleontologia, segundo ela, é uma ciência vista como sendo muito masculinizada. Por isso, ir a sítios de escavação, pegar em ferramentas pesadas e se sujar, por exemplo, são situações encaradas com certa desconfiança por alguns paleontólogos líderes de expedições, que, ainda de acordo com ela, acabam dando prioridade para profissionais homens, porque os consideram mais fortes e aptos para carregar peso, encarar sujeira e quebrar rochas.

"E se você não é incluída quando estudante, ao se tornar profissional não terá experiência e, talvez, nem tranquilidade para conduzir um trabalho de campo", explica, observando que até mesmo mulheres paleontólogas que já coordenam trabalhos em campo dizem passar por dificuldades, especialmente em minas ou em locais onde a figura masculina é predominante. 

"Por enquanto, eu continuo com os meus pterossauros, mas gostaria de iniciar uma linha de pesquisa para entender o papel e as dificuldades da mulher na paleontologia, algo que nunca fiz, só discuti", conclui.
 

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