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Sâmia Bomfim é barrada na Câmara: "Rosto jovem e feminino é novidade ali"

A deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL) - Lucas Lima/UOL
A deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL) Imagem: Lucas Lima/UOL

Mariana Gonzalez

Da Universa, em São Paulo

01/02/2019 17h46

No dia em que tomou posse como deputada federal, aos 29 anos, Sâmia Bomfim (PSOL) foi barrada ao entrar no plenário. "Me disseram que aquele era um espaço apenas para deputados eleitos. Imagino que eu tenha causado estranhamento sendo um rosto jovem e feminino, novidade naquele espaço de poder", disse, em entrevista à Universa

De fato. Em 2019, a Câmara dos Deputados passa pela maior renovação de sua história: 47% dos parlamentares eleitos são novos na Casa. Desta vez, as mulheres representam 15% da nova turma -- outro recorde. 

"Existe o estigma de que nós, mulheres jovens, viemos para a política pautar apenas questões ligadas ao feminismo. E não é por aí. Queremos sim pautar os direitos da mulher, mas estamos aqui para falar de sobre educação, novos modelos econômicos, segurança pública..." defende. "Esse é o maior desafio, ser ouvida e respeitada". 

Antes de entrar em campanha para ser legisladora federal, Sâmia ocupou uma cadeira na Câmara Municipal de São Paulo durante dois anos, carregando o título de mulher mais jovem da história diplomada pela Casa. 

"O cenário exige resistência"

No que diz respeito às questões ligadas às mulheres e à população LGBT -- grupos ameaçados por propostas do presidente eleito, Jair Bolsonaro -- no Congresso, Sâmia defende que a prioridade é impedir o avanço de propostas que colocam esses grupos em risco, direta ou indiretamente. 

"O cenário exige resistência. Neste primeiro momento, queremos barrar o que está em discussão e apresenta riscos, como a Reforma da Previdência e o Escola Sem Partido, que impede a discussão em sala de aula de questões como violência doméstica, por exemplo", explica. 

Sâmia acredita que a maior dificuldade, neste momento, é garantir a liberdade de populações vulneráveis expressarem suas opiniões e suas ideias sem sofrer retaliações ou ameaças. 

"Em menos de um ano, tivemos dois casos de pessoas que abordavam esses assuntos no Parlamento e que foram impedidas com violência: a Marielle Franco e e o Jean Wyllys", lembra. 

"Na política, não basta ser mulher"

Entre os novos projetos, o mais urgente, segundo a deputada, é o enfrentamento à violência contra a mulher -- especialmente diante de números altíssimos de feminicídio. 

O aumento no número de mulheres eleitas não necessariamente é uma vitória para as mulheres, acredita Sâmia Bomfim. 

"Na política, não basta ser mulher, é preciso estar do lado das mulheres. Boa parte dessas parlamentares, especialmente as novatas, pertencem a legendas conservadoras e se declaram anti-feministas. Consequentemente, são contrárias a propostas como a descriminalização do aborto", diz. 

A estratégia, ela revela, é tentar dialogar com essas deputadas em temas que também são caros a elas (e que provocam menos polêmica), como propostas para aumentar a participação das mulheres na política e ações de enfrentamento à violência doméstica. 

Procurada para comentar o episódio ocorrido durante a posse, a assessoria de imprensa da Câmara não respondeu até a publicação desta reportagem.