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"Quero morrer por ser gorda": grupo trabalha autoestima de mulheres

Laís Oliveira, 28 anos, criou grupo para ajudar socialização e construir autoestima de mulheres gordas - Arquivo pessoa
Laís Oliveira, 28 anos, criou grupo para ajudar socialização e construir autoestima de mulheres gordas Imagem: Arquivo pessoa

Natália Eiras

Da Universa

18/10/2018 04h00

A paulistana Laís Oliveira, 28 anos, é psicóloga e é considerada uma mulher gorda. Um dia, enquanto falava com uma amiga sobre o bullying que sofria por sempre ter sido "gordinha", ela se perguntou o porquê de ter demorado tanto para começar a se achar bonita. Laís percebeu, então, que o problema estava na cabeça dela. "O Brasil tem um padrão de beleza inatingível para qualquer pessoa. Então, a gente cresce acreditando que é feia, e mudar isso é todo um processo", fala a especialista à Universa.

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Foi para ajudar neste processo de autoconhecimento e construção de autoestima que Laís criou há um ano o projeto Psico Plus, em São Paulo, onde mulheres gordas fragilizadas têm um espaço para trabalhar angústias e percepções sobre o próprio corpo. "Dentro da psicologia, ser gordo é muito associado à patologia, obesidade, compulsão", esclarece Laís. "Eu não conhecia ninguém que trabalhava a autoestima da pessoa gorda".

Por isso, fez uma página na internet convidando outras pessoas gordas a investigarem, em grupo e em atendimentos individuais, o que as fazia não se gostarem e se fortalecerem para lidar com o corpo de tamanho grande. Na turma de 150 pessoas, há pacientes que estão passando por processo de emagrecimento e outros que estão muito felizes com a própria estrutura física.

Apologia à obesidade?

Por trabalhar o psicológico da pessoa sem tratar o emagrecimento como a cura dos problemas do gordo, Laís diz que há quem ache que ela faz "apologia à obesidade", mas ela garante que não é o caso. “Eu faço com eles a metodologia 'bem me quero', para eles entenderem que há coisas que eles fazem consigo mesmos que são ruins e outras que são boas. Falo de saúde em geral, mas não atrelo à perda de peso", explica a especialista. "É um estigma achar que ser magro é sinônimo de saúde. Hoje nos preocupamos mais se a pessoa é saudável do que se ela vai emagrecer", pontua.

Ela pontua que o trabalho com a autoestima ajuda, inclusive, a motivar a pessoa gorda a fazer exercícios físicos e a mudar sua rotina alimentar, se for da vontade do paciente. "Eles não querem ir à academia porque se sentem mal no ambiente ou por causa das roupas de ginástica", exemplifica. "Normalmente, os pacientes chegam em uma guerra no espelho, não querem nem olhar o próprio reflexo."

Isolamento social

Fortalecendo-se, os pacientes também lutam contra outro problema que, de acordo com Laís, é muito comum: o isolamento social. "Elas não querem ir à balada ou ir a um encontro com os amigos", fala a especialista. Críticas familiares também são dolorosas. "Também demonstram mais sofrimento quando a rejeição vem da família, principalmente quando chamam atenção por estar comendo, por exemplo", afirma.

"A gente concorda que colesterol e doenças físicas fazem mal, mas a questão psicológica também é perigosa. A gente tem muito relato de pessoa gorda que quer morrer por causa disso", alerta a psicóloga.

Veja alguns relatos de mulheres que participam do grupo:

‘A bariátrica destruiu a minha vida’

Renata da Conceição Costa, 37 anos, autônoma, de São Paulo (SP)

Renata da Conceição Costa, 37 anos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Renata da Conceição Costa, 37 anos
Imagem: Arquivo pessoal

"Conheci o projeto em um grupo do Facebook que eu gerencio. Como a maioria das meninas, eu tinha esse problema de aceitação, vivia querendo chegar aos padrões de beleza principalmente por pressão familiar. Tentei várias dietas, tomei remédio controlado sem prescrição e, em 2008, fiz a cirurgia bariátrica. Ela destruiu a minha vida. Era uma época que eu estava muito gorda (meço 1,65m e pesava 135kg), mas eu me achava bonita, tinha tudo no lugar. Aí, quando emagreci, e eu me sentia estranha, porque estava flácida. Minhas unhas quebravam, meu cabelo ficou fino. Tinha muitos mais problemas de saúde do que quando era gorda. Cheguei a pesar 55kg.

Quando vi o meu marido passar pelo tratamento de um câncer na garganta, eu me perguntei o que estava fazendo da minha vida. E comecei a me aceitar do jeito que sou.

Atualmente peso 92kg. Tem gente que diz que eu morri na praia, que ‘falhei’ em emagrecer. Mas eu tenho uma alimentação decente, faço exercícios físicos, meu exames são ótimos.

Percebi no grupo que o meu peso não me incomodava, mas incomodava as outras pessoas. Gordofobia sempre vai ter, mas cabe a você a não ligar. A gente brinca, no grupo, que empoderamento não é fazer todo mundo gostar de você, mas não ligar se as pessoas não gostam."

‘Meu corpo gordo é político’

Maria Luisa Gimenez Gimenez, 46 anos, professora e pesquisadora, de Chapada dos Guimarães (MT)

Maria Luisa Gimenez Gimenez, 46 anos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Maria Luisa Gimenez Gimenez, 46 anos
Imagem: Arquivo pessoal

"Como sou filósofa e estou fazendo doutorado de estudos de cultura contemporânea, estava pesquisando o trabalho sobre o lugar do corpo gordo da mulher. Quando conheci o projeto, há um mês, decidi fazer o tratamento a distância.

Tenho 1,68m e 111kg. Sempre fui a gordinha da casa, então sofro gordofobia desde criança. Mas só fui entender o que acontecia comigo na fase adulta. Eu fazia vários regimes, mas, como o meu corpo sempre voltava ao mesmo tempo, desencanei. Aos 40 anos, percebi que tentava caber no mundo mais por uma pressão social do que por mim mesma.  

A partir disso, comecei a pesquisar como a sociedade enaltece o corpo magro como saudável, ativo, enquanto o gordo é nojento, feio. Aí eu entendi o meu corpo gordo como um corpo político. Ele resiste, mesmo existindo toda uma cobrança de todos os lados para ele mudar.

Então cheguei ao Psico Plus já com todo este repertório. No projeto, eu percebi que cada pessoa está em uma situação no mundo. E um ajuda o outro na desconstrução deste preconceito do corpo gordo. O trabalho que a Laís faz é algo para a vida.

A minha maior descoberta dentro do grupo foi perceber que eu não preciso me achar bonita. Eu sou filósofa, eu sou muito inteligente, eu sou outras coisas além da minha aparência. Estou mais preocupada em me sentir eu mesma, me sentir confortável.

O trabalho da Laís se refletiu na última compra de biquíni que fiz. Antes todo biquíni me apertava, eu me sentia desconfortável. Aí, no grupo, me falaram de uma marca onde eu podia comprar um biquíni sob encomenda e foi ótimo. Fiquei tanto tempo sem me encaixar na roupa, na cadeira, na sociedade, que quando se encaixa você fica: ‘Poxa, que legal’. Essas lojas para gordo são fundamentais para você se aceitar."

‘Eu vi que eu tinha que fazer o que queria fazer, por isso decidi emagrecer’

Vânia Juliana de Jesus Marcondes de Oliveira, 36 anos, cabeleireira, de São Paulo (SP)

Vânia Juliana de Jesus Marcondes de Oliveira, 36 anos - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Vânia Juliana de Jesus Marcondes de Oliveira, 36 anos
Imagem: Arquivo pessoal

"Eu soube do grupo pela Laís, que faz o cabelo comigo. Ela foi me falando do projeto e eu me interessei. Faço parte dele há quatro meses. Na época, eu já estava em processo de emagrecimento, porque estava me sentindo mal, além de ter alguns problemas de saúde. Eu já chegue a pesar 113kg com 1,75m. Agora eu peso 87kg.

Eu não critico as pessoas que são gordas. Elas têm corpos completamente normais, mas eu não queria para mim. Mas eu sentia uma pressão para me aceitar do jeito que eu era. A Laís, no entanto, me ajudou a entender que eu tinha que fazer o que eu queria fazer, por isso decidi emagrecer.

O Psico Plus me ajudou a olhar para dentro de mim. No processo de emagrecimento, você precisa trabalhar muito também a parte mental, se não você pode ter problemas de autoimagem.

As pessoas não são gordas porque são preguiçosas. Há rotina corrida, pouco tempo para ter uma alimentação certa e, também, o psicológico. É difícil você sair desse pensamento de que você não consegue fazer nada e o trabalho de autoestima ajuda a gente nisso. É preciso ter uma segurança de quem você é.

Eu descobri no grupo que não era só eu que sofria. Antes, achava que era paranoia da minha cabeça e não procurava ajuda. Comecei a me isolar, a não sair de casa. Tinha medo da aceitação das pessoas. A gordura estava me dando depressão. Eu ficava muito dentro de casa, eu ficava antissocial.

Ir para o grupo fez eu voltar a me socializar. Comecei a ver o meu corpo com outros olhos, a ver como tem muita gorda que sai para a balada, usa uma roupa curta, então por que eu não posso? Eu posso sim."

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