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Quem são as placenteiras e o que elas fazem com o órgão depois da gravidez

Curso de placenteiras feito pela organização Segredos da Placenta - Reprodução/Facebook
Curso de placenteiras feito pela organização Segredos da Placenta Imagem: Reprodução/Facebook

Camila Brandalise

Da Universa

17/10/2018 04h00

Óleo corporal, pomada, floral, pingente, pintura em aquarela. Uma lista de produtos comum, a não ser pela matéria-prima usada neles: placenta.

Essa é a novidade proposta pelas placenteiras, profissão ainda incipiente no Brasil mas que tem atraído atenção à medida em que as conversas sobre parto humanizado avançam. Também porque desperta curiosidade: dá para fazer tudo isso com uma placenta? E, mais do que isso, é saudável?

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As placenteiras garantem que a resposta é sim para as duas perguntas. A medicina chinesa é adepta da prática há milênios e - embora a tradição não seja reconhecida pela medicina ocidental tradicional - já está bem difundida no Brasil. A proposta agora é usar o órgão não só em cápsulas, o modo mais conhecido, mas em outros produtos para acalmar mãe, pai e bebê, curar infecções, trazer disposição... e até virar objeto de decoração e lembrança do parto.

“Nossa intenção é resgatar a autonomia da mulher pelo próprio corpo dela e usar nosso conhecimento sobre os benefícios da placenta, já estabelecidos por outras culturas, nos produtos que oferecemos”, afirma a enfermeira obstetriz e placenteira Raquel Rodrigo de Carvalho, cofundadora da organização Segredos da Placenta, em São Paulo, que oferece os serviços de manipulação do órgão e realiza cursos sobre o tema. Já foram realizados quatro cursos desde 2017, com 40 pessoas formadas. O cálculo é de que, no Brasil, existam, pelo menos, 60 placenteiras formadas.

Raquel, que criou a organização com a placenteira Pâmella Souza, recebeu certificação de Medicina Placentária no Chile, onde a prática é mais difundida. O intuito de ambas é trabalhar com o “resgate e preservação da ancestralidade feminina”.

O que é feito com a placenta?

O produto mais pedido ainda é a cápsula. Para fabricá-las, a placenta, que chega congelada até as placenteiras, é desidratada, moída até virar pó e colocada em cápsulas para consumo. Uma placenta pode render de 80 a 120 cápsulas e o pacote sai por cerca de R$ 230.

O processo é diferente para fazer o segundo mais pedido, a tintura de placenta, que é uma espécie de floral. O órgão é descongelado e um pedaço dele é colocado em uma solução de álcool que é base para produtos homeopáticos, como os florais tradicionais, por dez dias.

Depois disso, é consumido em gotas. É indicado para aliviar desde sintomas da TPM a fortalecer o QI da criança e, segundo a Segredos da Placenta, tem o potencial,de ativar a autocura da mulher, como um resgate da sua força e poder. Custa de R$ 120 a R$ 200, dependendo da quantidade.

Veja, no vídeo abaixo, o processo de manipulação para fabricação dos produtos:

A pomada, que sai por R$ 93, é para assaduras, queimaduras e picadas de insetos. A enfermeira Juliana Ferreira dos Santos, mãe de Ana Luiza, de um ano, usa a pomada nas assaduras da filha e opina: “Melhorou mais rápido do que com produtos tradicionais”. Ela também passa nas mãos e lábios, para hidratá-los. Ainda há o óleo corporal, indicado para massagens terapêuticas, também por R$ 93.

Are com placenta - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Aquarela em que a placenta foi "carimbada"
Imagem: Reprodução/Facebook

Também há a opção de produzir lembranças do parto. Carimbada em uma folha em branco, a placenta forma um desenho, com sangue, que é completado com traços de tinta aquarela; misturado com resina, vira um pingente.

O cordão umbilical desidratado é usado em objetos como “filtros dos sonhos” e “minijardim”. Raquel salienta que a placenta precisa ser da própria cliente que vai consumir os produtos e que os valores são apenas pelos serviços de manipulação prestados.

Larissa Lima, formada pelo curso oferecido por Raquel e hoje placenteira, afirma que os produtos são eficazes para as situações do começo da maternidade. “Ajuda na depressão pós-parto, em mudanças de humor e em situações emergenciais, como febre e dor, principalmente para o bebê. Acreditamos que, por ser um órgão gerador, a placenta traz tranquilidade do útero para a criança.”

O que diz a medicina tradicional?

O obstetra Paulo Nicolau, membro da Comissão em Defesa e Valorização do Obstetra e Ginecologista da Sogesp (Associação de Obstetrícia e Ginecologia de São Paulo), afirma que não há nem benefícios nem malefícios cientificamente comprovados em relação ao uso da placenta. “É mais um modismo”, opina.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) afirma que “na maior parte dos casos, a placenta não apresenta risco da presença de agentes infectantes, a não ser que a grávida esteja contaminada”. Diz, ainda, que “não existe norma da Anvisa que proíba esta prática. No entanto, a Agência não regulamenta procedimentos médicos.” Segundo Raquel, da Segredos da Placenta, a mãe precisa apresentar o pré-natal e atestar que não apresenta nenhuma infecção antes da manipulação.

Nicolau vê com ressalvas o uso dos produtos à base de placenta em crianças. “Se não é cientificamente comprovado que é seguro, melhor evitar."

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