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Quando o homem trai, por que a culpa é sempre da outra?

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Imagem: Getty Images

Helena Bertho

do UOL, em São Paulo

01/08/2017 04h00

Quando uma história de traição vem à tona, é muito comum que se considere a amante a vilã, pivô de um relacionamento abalado. Mesmo que seja solteira, ela é quem acaba levando a culpa pela traição e não o homem que traiu. 

"Isso é fruto de uma crença machista de que a mulher deve suportar e manter a sagrada família, ao mesmo tempo em que mitos a colocam no papel da sedutora que traz o pecado. Assim fica fácil tirar a responsabilidade do homem, culpar a 'mulher tentadora' e perdoar o marido infiel", comenta a psicóloga Ana Maria Zampieri.

Isis Valverde - Roberto Filho/Brazil News - Roberto Filho/Brazil News
Imagem: Roberto Filho/Brazil News
"Elas são fantasmas ameaçando o casamento alheio"

O linchamento público da amante é algo recorrente na mídia e na história. Há quase dois séculos, a Marquesa de Santos, amante do imperador D. Pedro I, passava algo parecido. "A morte de dona Leopoldina (esposa de D. Pedro), no final de 1826, aos 29 anos, obrigava D. Pedro a tomar certos cuidados, pois não faltaram manifestações acusando Domitila (a marquesa) de ter envenenado a imperatriz", conta a historiadora Mary del Priore, no livro "Histórias Íntimas" (Ed. Planeta).  

Desde então, novas histórias surgem: Isis Valverde, Monica Lewinsky, Christine Ouzounian (babá dos filhos de Ben Affleck), Marion Cotillard e por aí vai. Mas a reação continua a mesma.

Para a socióloga Mirian Goldenberg, que pesquisa o tema da traição desde 1988, os casos de amantes famosas tendem a repercutir de maneira mais agressiva na sociedade do que casos de anônimas. "Elas representam uma ameaça para todas as mulheres. A simples possibilidade da existência de uma 'outra' faz com que as mulheres de maneira geral se sintam ameaçadas. Se isso aconteceu com a Grazi, pode acontecer comigo. É como se essas amantes fossem sempre fantasmas ameaçando o casamento alheio", explica.

Amantes anônimas também sofrem julgamento

Mas isso não quer dizer que as 'destruidoras de lares' desconhecidas não sofram o julgamento. E isso também tem a ver com o fato de que a sexualidade feminina ainda é muito controlada e o prazer da mulher fora do casamento, condenado. Segundo a psicóloga Ana Maria Zampieri, isso acontece porque "a mulher tem o poder de gerar filhos, então, assumir o prazer feminino em nossa cultura, coloca em risco a visão de que o homem só deve colocar seus recursos no próprio filho".

A produtora Marília*, 31, viveu isso quando, aos 21, ficou duas vezes com um homem que ela nem sabia que era casado. Um tempo depois, foi procurada pela mulher dele com insultos e ameaças que se estenderam por quase dois anos de ligações até no trabalho. Entre o medo de que a história chegasse até aos seus chefes e a repercussão na família, ela teve de lidar com o próprio julgamento.

"Por mais que eu soubesse que o cara deveria ser o foco dela e não eu, eu me condenava, achando profundamente que deveria ter resistido, que fiz com ela o que não gostaria que fizessem comigo. Hoje, vejo toda a carga simbólica que essa história carrega: a sociedade patriarcal que condena o comportamento feminino. O do homem, porém, permanece intacto, protegido pelo 'instinto'."

Antes o valorizado era o casamento, não a fidelidade

Se a figura da outra sempre existiu, historicamente, no entanto, a forma como a traição masculina foi vista mudou bastante, conforme explica Mary del Priore. Nos séculos 18, por exemplo, com a busca por ouro e as guerras, havia uma mobilidade muito grande, então era comum que os homens tivessem muitas parceiras, uma em cada lugar. Já no século 19, a amante era vista como um mal necessário à manutenção do casamento, já que sem os métodos contraceptivos as mulheres viviam grávidas. "O que era valorizado não era a fidelidade, mas o casamento em si", explica a historiadora.

Conforme o século 20 avança, as coisas vão mudando. "Com o cinema, passa-se a valorizar demais a paixão, que passa a ser transferida para dentro da vida conjugal. Aí a noção de adultério se revestiu de uma nova mentalidade. É o rompimento do pacto, o abandono, a rejeição." Nesse contexto, a amante cada vez mais assume o papel da responsável por isso.

Como resume Mirian Goldenberg, "lá atrás, a mulher não queria ser outra, ela queria ser oficial. Nos últimos anos, ela ficou mais independente e exigente, agora ela quer ser a única".

Todas unidas contra ele

Para o psicólogo Frederico Mattos, autor do livro "Relacionamentos para Leigos" (Alta Books), culpar a amante pela traição é uma forma de terceirizar os problemas do relacionamento. "Atribuir à outra mulher a problematização da história poupa a todos do inconveniente do casamento fragilizado e do caráter duvidoso do parceiro. Basta acabar com a amante que tudo voltaria ao normal. É nessa visão ingênua dos relacionamentos que as traições começam e supostamente são interrompidas, até que um novo ciclo reinicie", explica.

Com a popularização do feminismo nas redes sociais, o cenário tem mudado, abrindo espaço para um olhar da amante como sendo também vítima da enganação do homem traidor. Foi pensando assim que Kelly*, 46, decidiu procurar as mulheres com quem suspeitava que seu namorado saía. "Eu mandei mensagens para elas com esse pensamento, de que elas não sabiam de mim. Falei que éramos namorados, que achava que ele me traía e queria confirmar. E de todas, as três, veio a confirmação", conta.

Sabendo umas das outras, as quatro namoradas ao invés de se odiarem, resolveram se unir para superar a dor. Todas terminaram com o homem e ainda marcaram de se encontrar pessoalmente. Acabaram se tornando amigas e até viajaram juntas. Imagine como seria se Isis e Grazi tivessem feito isso?

*os nomes foram modificados a pedido das entrevistadas.