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Acampamento de mulheres lidera luta contra polêmica lei de cidadania na Índia

Manifestantes protestam em Kolkata, na Índia, contra mudança na Lei de Cidadania - Reuters
Manifestantes protestam em Kolkata, na Índia, contra mudança na Lei de Cidadania Imagem: Reuters

David Asta Alares

Em Nova Déli

30/12/2019 11h36

Dezenas de mulheres cobertas por véus e mantas desafiam o frio noturno em um dos bairros muçulmanos de Nova Déli todas as noites há duas semanas, em um insólito acampamento, para protestar contra uma emenda legislativa que visa conceder cidadania a imigrantes, mas exclui os muçulmanos.

As manifestações contra uma emenda à Lei de Cidadania e um censo para identificar estrangeiros em situação ilegal, despertaram o receio entre a comunidade muçulmana de que se tornarão cidadãos de segunda classe.

Pelo menos 25 pessoas foram mortas na onda de protestos que abala o país faz últimas duas semanas, embora nenhuma se pareça com a do bairro muçulmano de Shaheen Bagh, onde os habitantes ocuparam pacificamente uma estrada e as mulheres assumem a liderança enquanto os homens vigiam o perímetro.

DISCURSOS POLÍTICOS

Acompanhada pelos netos, Rumana Khan, de 48 anos, ouve na primeira fila os discursos inflamados contra a emenda legal, apesar da hora, perto da meia-noite.

"É a primeira vez na minha vida que me manifesto", disse, sorridente, à Agência Efe. Ela comparece ao acampamento há quase duas semanas e está apenas esperando o governo a escute e volte atrás.

"Juro pelo meu país que vou me sacrificar por você, viver ou morrer, não me importo, vamos sacrificar nossas vidas", entoa Khan, reproduzindo uma conhecida canção tirada de um filme sobre o herói da independência Bhagat Singh e modificada para a ocasião, arrancando aplausos dos companheiros.

Há um ar de camaradagem. Os moradores do bairro que se tornaram manifestantes lançam a mesma pergunta aos presentes: "Você já comeu?"

De um lado do acampamento, adultos e crianças aguardam ao redor de um caldeirão cheio de biryani de frango fumegante, o tradicional prato de arroz temperado que os voluntários distribuem junto com água e chá.

AFRONTA AO SECULARISMO

A emenda à Lei da Cidadania aprovada pelo Parlamento em 11 de dezembro visa regularizar imigrantes sem documentos de Afeganistão, Paquistão e Bangladesh pertencentes às religiões hindu, sikh, budista, jainista, parsi e cristã que vivem na Índia há mais de cinco anos.

O texto e a intenção do governo nacionalista hindu do primeiro-ministro Narendra Modi de realizar um Registro Nacional de Cidadãos para separar os habitantes legítimos dos ilegais, desencadeou grandes protestos, tendo em vista o medo dos muçulmanos de serem relegados à condição de cidadãos de segunda classe.

"É arbitrário e discriminatório, e é contra os valores deste país", disse a advogada Seema Misra assim que saiu do palco onde tinha acabado de fazer um discurso contra a emenda.

Misra, que diz pertencer à religião hindu, é uma das advogadas que tem visitado as delegacias da capital para prestar assistência jurídica às centenas de pessoas presas em manifestações, muitas vezes realizadas em meio a amplos esquemas policiais e restrições ao direito de reunião.

"As condições eram ruins, a polícia mal nos permitia entrar para dar aconselhamento jurídico aos detidos", reconhece a advogada.

REAÇÃO À VIOLÊNCIA POLICIAL

Os protestos em Shaheen Bagh começaram na segunda-feira passada, dia 16, e não por acaso. Foi um dia depois que a polícia invadiu o campus da Universidade Jamia Millia Islamia, predominantemente muçulmana, no meio da noite, sem permissão, alegando que manifestantes violentos tinham se refugiado lá.

Os vídeos das forças de segurança esvaziando até mesmo a biblioteca, que estava lotada de estudantes, circularam pela Índia e reacenderam os protestos.

O principal foco de protesto tinha sido até agora no nordeste da Índia, mas por diferentes razões: essa região tem um forte sentimento anti-imigrante independentemente da religião e seus habitantes temem que a emenda legal abra as portas para centenas de milhares de estrangeiros ilegais.

"O governo quer nos dividir, veja como Jamia sofreu violência no campus. Por quê? Porque Jamia tem um nome muçulmano", explicou Santosh Kumar Yadav, um professor universitário de 30 anos que foi ao acampamento.

FUTURO INCERTO

Por quanto tempo o acampamento Shaheen Bagh poderá continuar? Segundo os moradores, a polícia já veio para lembrá-los que não podem ocupar indefinidamente a área, que corta uma das principais pontes que cruzam o rio Yamuna e liga Déli a Noida.

A algumas centenas de metros do protesto, um grupo de policiais mata o tempo ao redor de uma fogueira.

"Vocês vieram da manifestação?", pergunta um dos oficiais dois adolescentes que se aproximam.

"Não, comemos fora", responde um eles, para evitar confusão.

Direitos da mulher