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Mulheres inspiradoras

'Abandonar carreira para adotar irmãos foi melhor decisão da minha vida'

Sarah McDermott

BBC Stories

28/10/2021 10h06

Quando sua família estava em crise por causa do alcoolismo, Jemma Bere tomou uma decisão em uma fração de segundo que mudou o curso de sua vida: adotar os próprios irmãos.

Quando sua família enfrentava uma crise envolvendo alcoolismo e o futuro de duas crianças, a britânica Jemma Bere tomou uma decisão em uma fração de segundo que mudou o curso de sua vida: decidiu adotar seus dois meio-irmãos.

Em uma idade em que a maioria das pessoas está preocupada com relacionamentos e carreiras, a única questão importante para ela eram seus irmãos Alex e Billie.

A infância de Jemma foi tudo menos convencional.

"Lembro-me de passar muito tempo em sacos de dormir olhando as estrelas", diz.

Montada em uma Land Rover azul e branco, a família viajou pela maior parte da Europa e outros continentes, passando por países como a Malásia ou a Tailândia.

"Minha mãe era definitivamente um espírito livre", diz Jemma. "Ela achou que seria uma experiência fantástica para mim ser educada na estrada, conhecendo novas pessoas."

Quando ela tinha 10 anos, Jemma falava vários idiomas. Um ano depois, a família morava em um frágil veleiro na costa mediterrânea da Turquia.

Quando o relacionamento de sua mãe com seu parceiro acabou, Jemma e Calvin, de quatro anos, voltaram com ela para Powys, no País de Gales, no Reino Unido.

"Acho que minha mãe gostou da ideia de ter uma cabana idílica com muitas crianças e cachorros, e rosas na porta", diz Jemma. E ela e minha avó eram muito próximas, então voltamos para Brecon."

Casamento da mãe e alcoolismo do padrasto

Quando Jemma estava no colégio, sua mãe, Jane, encontrou um novo parceiro, um pedreiro que todos conheciam como Shakey. O novo casal teve um menino e uma menina, Alex e Billie, 14 e 15 anos mais novos que Jemma.

"Shakey era muito carismático e acho que eles se amavam genuinamente", diz Jemma. "Mas meu padrasto bebia muito".

Shakey gostava de beber meio litro de cerveja depois do trabalho, mas, às vezes, bebia bem mais que isso.

Um dia, estava ficando tarde da noite e Jane estava preocupada. Jane tentou ligar para ele, mas não havia sinal ou ele simplesmente não atendia. Então ela entrou no carro e procurou por ele, deixando Jemma encarregada dos três irmãos.

"E eu não sabia quando ela voltaria", lembra Jemma.

Quando Jane começou a beber muito também, tudo começou a desmoronar.

"Eu voltava da escola e as tarefas domésticas, como limpar a cozinha depois do café da manhã, não estavam mais sendo feitas por ninguém em casa", diz ela.

Logo depois, em 2001, Jane e Shakey decidiram se mudar para a Andaluzia, no sul da Espanha.

Eles tiveram algumas dificuldades financeiras devido ao problema com a bebida de Shakey. Havia muito trabalho para os pedreiros na Espanha.

"Acho que foi como um novo começo", diz Jemma. "Pelo que percebi, os primeiros meses foram realmente positivos."

Jemma ficou no País de Gales com a avó, acreditando que poderia se mudar para a Espanha após as provas da escola, enquanto seu irmão mais novo, Calvin, foi morar com o pai.

Poucos meses depois, chegaram notícias devastadoras: sua mãe Jane sofrera um acidente de carro.

Jemma tentou ligar para Shakey para obter mais detalhes, mas não obteve resposta do padrasto. Desesperada, ela fez bom uso de seu espanhol e começou a ligar para todos os hospitais do sul da Espanha para encontrar a mãe.

Quando finalmente conseguiu falar com Shakey, ele estava em um estado terrível. Eles estavam atravessando uma rua tranquila a pé quando Jane foi atropelada por um caminhão em alta velocidade. Ela morreu horas depois: tinha apenas 40 anos.

"Eu me senti completamente perdida", diz Jemma. "Como se eu estivesse no mar sem âncora nem bússola, sem nada."

Faculdade e irmãos na Espanha

Após o funeral de Jane em Brecon, Shakey voltou para a Espanha com Alex e Billie.

"Isso surpreendeu muita gente", diz Jemma, "mas acho que parte dele estava fazendo isso porque minha mãe foi feliz lá."

Jemma ainda estava pensando em se juntar a eles na Espanha, mas, como tinha ido bem nas provas da escola, ela agora tinha outras opções também.

"Decidi ir para a faculdade, em parte porque acho que era isso que minha mãe desejava", diz ela.

A cada férias, Jemma procurava o voo mais barato para a Espanha, o que dava a seus amigos da faculdade a impressão de que ela estava levando um estilo de vida festeiro. "Não era bem assim", diz.

Shakey e as crianças viviam em uma comunidade pequena e unida: todos o conheciam porque ele bebia o tempo todo nos bares da cidade. Quando Jemma o visitou, era óbvio que ele não estava lidando bem com a situação.

Ele trabalhava em obras e gastava tudo o que ganhava no bar. Às vezes ficava dias desaparecido depois de sair para comprar cigarros.

Embora estivesse se tornando cada vez mais dependente do álcool, Shakey não estava disposto a procurar ajuda.

"Tínhamos discussões frequentes sobre o seu alcoolismo quando eu fui lá. Ele não aceitou que tivesse um problema, estava completamente em estado de negação", diz Jemma.

"Acho que ele realmente pensou que estava fazendo o melhor que podia em circunstâncias realmente difíceis. Mas ele estava passando mais tempo no bar do que com as crianças."

Durante o período escolar, enquanto Jemma estava na faculdade, Marisa, uma babá que Shakey contratou para ajudá-lo com os filhos, manteve a situação sob controle.

"Ela conseguiu que eles fossem para uma escola em espanhol", diz Jemma. "E foi absolutamente maravilhoso, ela os adorava."

Mas a mãe de Marisa adoeceu e ela teve que voltar imediatamente para a Argentina.

Decisão difícil

Algumas semanas depois, Jemma recebeu uma ligação informando que Alex e Billie haviam sido levados pelo serviço social.

"Fiquei com o coração partido, mas não muito surpresa", conta.

Jemma viajou para a Espanha imediatamente. O serviço social disse que Shakey teria de ficar sóbrio por três meses, manter um emprego por pelo mesmo período e conseguir uma casa se quisesse ter alguma chance de ter os filhos de volta.

Desde que as crianças foram levadas, ele atrasou o aluguel e perdeu a casa. Jemma o ajudou a encontrar um emprego e um lugar para morar. Mas ele não conseguiu parar de beber.

"Acho que ele sabia que era alcoólatra, mas nunca o ouvi admitir essa situação em voz alta", diz ela. "Ele não conseguia parar".

Três meses depois, as autoridades espanholas disseram a Jemma que, a menos que alguém da família pudesse cuidar de Alex e Billie, eles seriam colocados para adoção. Não havia garantia de que eles seriam mantidos juntos ou que ficassem com uma família que falasse a língua inglesa.

Havia até a possibilidade de que Jemma não pudesse mais vê-los.

"E eu me ouvi dizendo: 'Bem, então eu vou cuidar deles, mande-me os formulários.'"

Jemma desligou o telefone e logo começou a se perguntar o que tinha acabado de fazer.

"Não sei se estava tudo bem nem se eu era a pessoa certa para fazer isso. Eu estava preocupada em tirá-los de um idioma e de uma cultura que eles conheciam... Pessoas que adotam crianças podem ter muito dinheiro, eles podiam ter casas bonitas, e eu não tinha absolutamente nada."

Para começar, a família de Jemma não conseguia acreditar em sua decisão: fazia apenas seis meses que ela tinha se formado.

"Eles estavam tão bravos com Shakey que não entenderam por que eu tive que 'jogar fora minha vida' para corrigir um problema que ele havia criado", diz. "Eles usaram essa frase, mas eu nunca vi as coisas dessa forma."

Jemma tinha apenas 23 anos e todos estavam preocupados, dizendo que "ela não sabia no que estava se metendo".

O processo de adoção formal foi longo e complexo. Ao longo dos 18 meses de processo, Jemma foi repetidamente advertida de que as chances de obter a custódia dos meio-irmãos eram mínimas.

"Disseram-me que não iria conseguir porque não tinha uma casa, ou não tinha isto ou aquilo", recorda.

Jemma se mudou para Brecon, porque sentiu que era o lugar certo para viver caso ela conseguisse a custódia, enquanto, na Espanha, Alex e Billie foram transferidos para um orfanato católico tradicional e extremamente rígido. Até hoje, ver as freiras ainda faz as crianças estremecer, diz Jemma.

Ela não contou a eles o que estava tentando fazer. "Eu não queria que eles tivessem muitas esperanças. E nessa época, eles pararam de perguntar se iam para casa ou não."

Volta para o Reino Unido

Finalmente, em uma tarde ensolarada de julho, o advogado de adoção ligou para dizer que ela poderia ir à Espanha buscar Alex e Billie.

"Realmente não consigo descrever a sensação: alívio, excitação, medo ou provavelmente tudo isso junto", diz.

Em questão de dias, Jemma organizou uma nova casa e a mobiliou com a ajuda do cartão de crédito que sua mãe lhe deu para usar "apenas em caso de emergência".

Alex e Billie ainda não tinham ideia do que estava para acontecer. "Eles ficaram absolutamente maravilhados com a notícia da adoção", disse Jemma. "Foi incrível, mas acho que eles também não acreditaram imediatamente, porque haviam se decepcionado muitas vezes."

Aos 24 anos, Jemma era responsável por dois filhos (e meio-irmãos), de oito e nove anos.

Economicamente, as coisas estavam difíceis. Jemma não podia trabalhar nem pagar uma creche. E como ela ainda não era a tutora legal de Alex e Billie, não tinha direito a programas de assistência social. Nos primeiros seis meses, os três tiveram que viver com 90 libras (cerca de R$ 690) por semana, valor bastante baixo para o custo de vida no Reino Unido.

"Foram tempos felizes", lembra Jemma, "mas também muito pobres."

Para começar, Alex e Billie sempre ficavam "grudados" um no outro.

"Um dos sinais positivos foi quando eles começaram a discutir entre si", diz Jemma. "Achei um bom sinal o fato de estarem crescendo de forma independente."

Eles haviam esquecido a maior parte do inglês que sabiam antes de ir para a Espanha, mas um curso de ensino do idioma que Jemma havia feito na faculdade de repente veio a calhar. Ela postou bilhetes pela casa, em inglês e espanhol, para ajudar as crianças a se lembrarem das palavras que haviam esquecido.

A maternidade era um trabalho muito difícil. "Há tantas coisas a fazer. Você não tem tempo de parar e pensar sobre isso", diz. E crianças podem ser difíceis.

"Houve momentos em que pensei: 'Eu queria que minha mãe estivesse aqui, porque me lembro de ter feito isso com ela e sinto muito.'"

Ponto de virada

Demorou um ano para Jemma se tornar legalmente a mãe das crianças. Isso marcou um ponto de virada para Alex e Billie, que se acostumaram tanto a mudanças que não achavam que poderiam ficar com Jemma para sempre.

Demorou o mesmo tempo para Jemma se sentir confortável para sair à noite. E estar em um relacionamento não era algo que ela sequer considerasse. "Namorar alguém não estava no meu radar por muito tempo, não até que as crianças tivessem cerca de 16 anos", diz.

Ela teve que lutar contra a culpa quando começou a trabalhar em tempo integral para a Autoridade do Parque Nacional de Brecon Beacons.

"Eles estavam cientes de como eu lutei muito para que eles estivessem aqui", diz Jemma. "Se eu estava gastando tempo trabalhando ou se estava cansada demais para lidar com o que quer que eles queriam, isso realmente me custou muito."

A certa altura, Shakey voltou da Espanha para o Reino Unido. Ele estava morando em um abrigo para sem-teto em Swansea, no País de Gales, quando Jemma o visitou em 2017.

"Ele havia perdido todo o seu brilho e malícia", conta. "Acho que ele se arrependeu muito. Mas o que digo é que o pai deles não era um homem mau, só estava muito doente."

Shakey continuou bebendo, e morreu em 2018.

Agora que Alex e Billie têm quase a mesma idade que ela tinha quando decidiu adotá-los, Jemma diz entender por que algumas pessoas achavam que ela estava cometendo um erro.

"Se Alex e Billie me dissessem que iam adotar duas crianças, eu iria ficar muito brava", diz rindo.

Mas ela tem muito orgulho deles.

"Eles passaram por tanta coisa. Eles poderiam ter seguido uma direção completamente diferente, mas são seres humanos justos e encantadores."

Ambos herdaram a paixão da mãe por ver o mundo. Depois dos exames do ensino médio, Alex viajou pela Nova Zelândia por um ano e depois trabalhou como instrutor de snowboard no Canadá, enquanto Billie estudava turismo na faculdade.

E com o tempo, Jemma começou a se sentir menos como uma mãe e mais como uma irmã.

"Eu sou uma irmã mais velha, mas com superpoderes adicionais. Acho que essa é provavelmente a melhor maneira de descrever essa relação", diz ela.

Outra mudança é que estranhos não ficam tão perplexos hoje em dia quando conhecem a família.

"Quando eles e eu éramos mais novos, as pessoas frequentemente me perguntavam quantos anos eu tinha e quantos anos as crianças tinham, e eu podia vê-los fazendo as contas de cabeça e erguendo uma sobrancelha", diz Jemma.

Aos 38 anos, Jemma agora tem uma casa só para ela e muito menos roupas para lavar. Ela está namorando há sete anos, mas diz que nunca quis ter filhos. No entanto, criar seus irmãos é algo de que ela não se arrepende.

"É a melhor decisão que já tomei", diz.

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