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Iemanjá tem cor? Por que a divindade de origem africana se transformou em 'mulher branca' no Brasil

Festa de Iemanjá promovida pelo Mercadão de Madureira, 29 de dezembro de 2016, no Rio de Janeiro - Alexandre Macireira
Festa de Iemanjá promovida pelo Mercadão de Madureira, 29 de dezembro de 2016, no Rio de Janeiro Imagem: Alexandre Macireira

Mariana Schreiber - @marischreiber - Da BBC News Brasil em Brasília

01/02/2020 12h18

"Dois de Fevereiro, dia da Rainha / Que pra uns é branca, pra nóiz é pretinha", canta Emicida, na música 'Baiana', lançada em 2015, em referência à Iemanjá, divindade cultuada no Brasil como Rainha do mar.

Quase seis décadas depois de o baiano Dorival Caymmi gravar Dois de Fevereiro anunciando querer "ser o primeiro a saudar Iemanjá" na tradicional festa realizada anualmente na orla de Salvador e em dezenas de outras cidades do país, o rapper paulista celebrou a data trazendo para a música o debate que tem crescido nos terreiros de candomblé e umbanda: qual a cor dessa divindade que chegou ao Brasil com as religiões de negros escravizados, mas passou a ser predominantemente representada aqui como uma mulher branca, magra, de cabelos lisos, em um vestido azul?

Para historiadores e seguidores das religiões afrobrasileiras ouvidos pela BBC News Brasil, o que aconteceu com a representação de Iemanjá — orixá associado a rios e mares, símbolo da fertilidade, e que originalmente não era reverenciado em uma forma humana — foi um processo similar ao embranquecimento da imagem de Jesus Cristo.

O Jesus histórico, um homem que viveu há dois milênios no Oriente médio, muito provavelmente era moreno, baixinho e mantinha os cabelos aparados, como os outros judeus de sua época, acreditam especialistas. No entanto, a imagem que se sobrepôs ao longo dos séculos de dominação política e cultural europeia ao redor do mundo é de um homem de pele clara, barbudo, de longo cabelo castanho claro e olhos azuis.

Da mesma forma, entende Helena Theodoro, pesquisadora em história comparada da UFRJ, a imagem de Iemanjá branca tem raízes no processo de colonização do Brasil, que impôs uma visão de superioridade europeia sobre os povos indígenas e africanos. "Houve uma demonização das religiões negras e indígenas a partir do que a Europa situou como sendo civilizado, humano. Nesse contexto, o humano é europeu, branco de olho azul", nota ela.

Essa dinâmica, continua Theodoro, provocou um processo de sincretismo religioso em que os escravos e seus descendentes aproveitavam as datas de festejos de santos católicos para cultuar seus orixás, usando inclusive imagens desses santos. Iemanjá, mãe de grande parte dos orixás, foi sincretizada com várias santas, como Nossa Senhora das Candeias e Nossa Senhora dos Navegantes, ambas celebradas em 2 de fevereiro, e Virgem Maria, a mãe de Jesus.

"Foi uma grande luta de Mãe Estela de Oxossi, (falecida em 2018, por décadas ialorixá) do terreiro Ilê Axé Opó Afonjá, que se tirasse as imagens de santo do candomblé. Durante um determinado período isso era necessário porque a gente não podia excercer o nosso culto", lembra Theodoro.

A massificação da imagem de Iemanjá branca, representada em estátuas de gesso, porém, ocorre com o surgimento da umbanda, no início do século passado. Essa religião aprofundou o sincretismo no Brasil, unindo elementos do espiritismo, do cristianismo, do candomblé e também de culturas indígenas.

"Essa imagem de Iemanjá, como mulher branca, nasceu, muito provavelmente, no ambiente da umbanda, uma religião sincrética, surgida num contexto de 'desafricanização' da cultura afrobrasileira", respondeu por email à BBC News Brasil o cantor Nei Lopes, estudioso das culturas africanas e autor de diversos livros como "Kitábu: o livro do saber e do espírito negro-africanos".

"Mesmo porque as modalidades de culto (de matriz africana) mais tradicionais não representam as divindades em forma humana, pois elas são, sobretudo, energias, forças cósmicas", ressalta ainda Lopes.

Orixá não tem cor?

Como explica o portal do Museu Afro Brasil, a escravidão de negros, regime de exploração que perdurou no Brasil por mais de três séculos até ser abolido em 1888, "colocou em contato as religiões de diferentes povos africanos, que acabaram por assimilar e trocar entre si elementos semelhantes de suas culturas". Foi nessa mistura que se formaram as religiões afro-brasileiras.

O candomblé "não é um único culto religioso, mas antes uma série de cultos estreitamente aparentados", nota ainda o site. Suas divindades levam os nomes de orixás, inquices e voduns, de acordo com o povo de origem, se ioruba, banto ou jeje, respectivamente. No Brasil, as três formas estão presentes, mas a nomenclatura orixá é que a mais se popularizou.

Diferentemente de Jesus Cristo, descrito no catolicismo como uma encarnação humana de Deus, Iemanjá representa no candomblé uma força da natureza, uma energia. Nesse sentido, o orixá não tem uma cor de pele. Para a historiadora e candonblecista Carolina Rocha, porém, é importante afirmar a negritude de Iemanjá. Segundo ela, representá-la como branca faz parte de um processo de "epistemicídio", conceito usado pelo sociólogo português Boaventura de Sousa Santos para se referir à destruição ou inferiorização de conhecimentos, saberes e culturas pelo colonialismo.

"Todas as entidades, símbolos, forças que são cultuadas, apesar de nao terem tido um existência humana propriamente dita, elas têm um origem, têm uma história", afirma a pesquisadora, que está concluindo um doutorado sobre conflitos religiosos contemporâneos na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Rocha — que em sua casa tem um quadro de uma Iemanjá negra da artista plástica Valeria Felipe — questiona não só a cor, mas todo a "estética ocidental" presente na imagem mais popular da entidade como uma mulher "super magra, de cabelos lisos". Ela lembra que Iemanjá, assim como outros orixás femininos (yabás) relacionados à água como Oxum e Nanã, representa a fertilidade, a abundância e a transmissão de conhecimento.

"Em termos de religião negra africana, Iemanjá, obviamente, além de ser uma mulher negra, é uma mulher de seios muito fartos, de quadris largos, isso também passa pela prosperidade feminina, pelo símbolo de fertilidade. Então, há um completo apagamento do que significa esse símbolo nessa imagem branca com barriga chapada", crítica.

"É algo muito cruel essa imagem que tem uma capilarização no tecido social imensa e nega uma origem, num projeto de racismo em que a padrão ocidental branco é colocado como o bonito. Parece bobagem falar de estética, mas não é, porque na verdade você está falando de autoestima e sem autoestima você não é nada", reforça.

Resistências ao debate

Carolina Rocha diz que hoje "existe um debate enorme dentro das religiões de matriz africana" sobre a representação da divindade, mas reconhece que "muitas casas (de candomblé e umbanda) não refletem sobre isso".

Em Cidreira, no litoral do Rio Grande do Sul, uma grande procissão em homenagem a Iemanjá e a à Nossa Senhora de Candeias ocorre anualmente na noite de 1º de fevereiro até uma estátua de mais de oito metros de uma mulher branca, de vestido azul e adorno com estrela sobre os cabelos negros escorridos.

"Nossa procissão é a maior do país, reúne em torno de 40 mil, 50 mil pessoas", afirma o presidente da Federação Afro Umbandista e Espiritualista do Rio Grande do Sul (Fauers), Everton Alfonsin.

Questionado pela reportagem sobre como refletia sobre representação branca de uma divindade com origem africana, Alfonsin também lembrou que os escravizados recorriam às imagens e datas festivas católicas para cultuar seus orixás e reconheceu que houve racismo nesse processo. Ele disse, porém, não ver necessidade de uma revisão disso dentro da umbanda.

"A estátua em Cidreira representa Iemanjá sincretizada com Nossa Senhora dos Navegantes, não tem nada a ver com a Iemanjá de matriz africana", argumentou, destacando ainda que a divindade não é chamada de orixá na umbanda, mas de caboclo.

Um dos organizadores da procissão à Iemanjá que tradicionalmente parte do Mercadão de Madureira, na Zona Norte do Rio de Janeiro, até Cobacabana, dias antes do reveillon, congregando pessoas de diferentes credos, Hélio Sillman, não vê racismo na representação branca da entidade. Ele, que gerencia a loja Mundo dos Orixás, diz que é "católico, com um pezinho na umbanda".

"Essa discussão não leva a lugar nenhum, se é branco, se é negro, se é isso, se é aquilo. É criar um problema sem ter", diz.

O evento realizado há 17 anos ocorreu apenas dentro do mercadão pela primeira vez em 2019. Segundo Sillman, a prefeitura do Rio não liberou um alvará para a carreata. A cidade é governada pelo evangélico Marcelo Crivella.

"Convencimento deve vir pela educação"

Pesquisador da afrobaianidade e professor da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Gildeci Leite diz que o debate sobre a cor de Iemanjá está vivo nos terreiros baianos, mas ressalta que ainda hoje predomina a representação branca da entidade na tradicional festa de dois de fevereiro na praia do Rio Vermelho, em Salvador, proporcionalmente a capital mais negra do Brasil.

Numa das pontas dessa praia, há uma estátua da yabá com cauda de sereia esculpida em uma pedra de cor clara. Ela está em frente a uma casa dedicada à divindade que abriga uma espécie de altar em que uma grande Iemanjá branca fica rodeada por flores e representações menores de variados tipos, inclusive algumas esculturas negras.

Leite considera fundamental problematizar a atual representação do orixá, mas defende que isso seja feito com respeito às outras representações, de forma devagar. "Eu penso que Iemanjá tem que ter representação negra, mas pra isso eu não preciso depreciar outras representações. Até porque isso tem que ser um processo de educação, de convencimento com encantamento, não com opressão. Já fomos oprimidos demais", afirma.

"Minha mãe biológica ainda associa Iemanjá com Nossa senhora da Conceição. E eu vou dizer que está errado? Não, porque isso é um processo de construção. Já os meus filhos biológicos sabem que Iemanjá é Iemanjá e Nossa Senhora da Conceição é Nossa Senhora da Conceição e que ambas merecem respeito", diz ainda.

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