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Um "pedido de pizza" salvou vítima de violência doméstica

Mulher conseguiu dar o endereço pelo telefone e responder a perguntas fingindo pedir uma pizza - Getty Images via BBC
Mulher conseguiu dar o endereço pelo telefone e responder a perguntas fingindo pedir uma pizza Imagem: Getty Images via BBC

22/11/2019 14h12

Uma mulher vítima de violência doméstica conseguiu ligar para serviços de emergência sem o agressor perceber, fingindo pedir uma pizza.

Policiais da cidade de Oregon, nos Estados Unidos, elogiaram o raciocínio rápido da pessoa responsável por atender a chamada, que levou o acusado de agressão a ser preso.

A mulher disse à imprensa local que sua mãe estava sendo agredida na época.

Essa tática de ligar disfarçadamente para a emergência é estimulada na internet há anos, mas esse é um raro caso confirmado de que a estratégia deu certo.

Autoridades avisam que não é garantido que a estratégia funcione, pois os telefonistas não são treinados para reconhecer um pedido de pizza como um verdadeiro pedido de ajuda.

O atendente que recebeu a chamada, Tim Teneyck, disse à emissora local 13 ABC que inicialmente pensava que a mulher havia ligado para o número errado.

Quando ela insistiu que não se tratava de um engano, ele percebeu o que estava acontecendo — também porque tinha visto relatos de situações semelhantes serem compartilhados nas redes sociais.

"Você vê isso no Facebook, mas não é algo para o qual alguém seja treinado", disse Teneyck. "Outros atendentes com quem conversei não teriam percebido isso. Eles me disseram que não teriam notado."

Como foi o diálogo?

Aqui está uma transcrição da conversa:

Teneyck: Oregon, 911

Mulher: Gostaria de pedir uma pizza em (endereço).

Teneyck: Você ligou para o 911 (emergência) para pedir uma pizza?

Mulher: Hum, sim. Apartamento (número do apartamento).

Teneyck: Esse é o número errado para pedir uma pizza...

Mulher: Não, não, não. Você não está entendendo.

Teneyck: Estou entendendo agora.

Durante a ligação, ela encontrou maneiras criativas de responder às perguntas "sim" ou "não" de Teneyck sobre quanto perigo ela e sua mãe corriam e de quais serviços elas precisavam.

Teneyck: O outro cara ainda está lá?

Mulher: Sim, preciso de uma pizza grande.

Teneyck: Certo. E médico, você precisa de médico?

Mulher: Não. Com pepperoni.

De onde veio a ideia da pizza?

Não está claro de onde veio a ideia, mas um cenário muito semelhante foi usado em uma campanha da Associação Norueguesa de Abrigos para Mulheres em 2010.

Quatro anos depois, em maio de 2014, um usuário do site de discussão Reddit que disse ser um operador do 911 descreveu uma situação em que a vítima de violência doméstica ligou para pedir uma pizza.

Ele escreveu que a ligação "começou (de um jeito) muito idiota, mas era realmente muito séria", antes de descrever uma conversa semelhante à que Tenyck teve.

Poucos meses depois, vários sites de notícias destacaram a informação publicada no Reddit, e em 2015 isso foi transformado em um anúncio divulgado no Super Bowl que abordava violência doméstica.

Depois, a situação se tornou um "anúncio de serviço público" viral nas redes sociais, com uma postagem no Facebook afirmando, sem fundamento, que "os atendentes são treinados" para reconhecer a chamada de pizza como um pedido de ajuda e fazer perguntas específicas.

Isso foi desmistificado no ano passado. Christopher Carver, diretor de operações da National Emergency Number Association (Nena), nos Estados Unidos, disse à Associated Press que a polícia não é treinada para ouvir código ou cenário específicos.

"Criar expectativa de que frases secretas funcionarão em qualquer centro de atendimento de emergência é potencialmente muito perigoso", disse.

Carver disse que os atendentes não desligam o telefone. A prioridade, acrescentou, é que as pessoas que recorrem ao serviço informem sua localização.

E no Brasil?

No Brasil, o 190 é número de telefone da Polícia Militar que deve ser acionado em casos gerais de necessidade imediata ou socorro rápido. A ligação é gratuita. Outros números são o 192, do serviço de atendimento médico de emergência, e o 193, do Corpo de Bombeiros.

Por meio do Ligue 180, é possível entrar em contato com a Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência, que é um serviço gratuito e confidencial. Ele funciona para "receber denúncias de violência, reclamações sobre os serviços da rede de atendimento à mulher e para orientar as mulheres sobre seus direitos e sobre a legislação vigente, encaminhando-as para outros serviços quando necessário."

Pelo Disque 100, que também é uma ligação gratuita e funciona 24 horas, é possível fazer denúncias de violações de direitos humanos — entre elas, as que têm crianças e adolescentes como vítimas. Segundo o governo, o serviço "pode ser considerado como 'pronto-socorro' dos direitos humanos pois atende também a graves situações de violações que acabaram de ocorrer ou que ainda estão em curso, acionando os órgãos competentes, possibilitando o flagrante".

Violência contra a mulher