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O protesto de modelo contra 'camisas de força' em desfile da Gucci em Milão

Ayesha Tan-Jones protestou no meio do desfile com uma mensagem escrita na palma das mãos - Getty Images
Ayesha Tan-Jones protestou no meio do desfile com uma mensagem escrita na palma das mãos Imagem: Getty Images

24/09/2019 14h30

Ayesha Tan-Jones levantou os braços para mostrar a mensagem que tinha escrito na palma das mãos: 'Saúde mental não é moda'

Ayesha Tan-Jones, modelo da Gucci, fez um protesto silencioso no domingo (22/09) durante o desfile da marca na Semana de Moda de Milão.

O alvo da manifestação era o uso "ofensivo e insensível" de macacões brancos que lembravam camisas de força no desfile.

Tan-Jones, que se identifica como não-binário (que não pertence a um gênero exclusivamente), levantou os braços na passarela para mostrar a mensagem que tinha escrito na palma das mãos: "Saúde mental não é moda".

"Como artista e modelo, que enfrentou suas próprias batalhas com a saúde mental, assim como familiares e entes queridos com depressão, ansiedade, bipolaridade e esquizofrenia, é ofensivo e insensível uma grande marca, como a Gucci, usar imagens assim como um conceito de moda fugaz", escreveu Tan-Jones em sua conta no Instagram após o desfile.

A Gucci afirmou, por sua vez, que os estilistas tinham a intenção de representar "como o poder é exercido, por meio da moda, para eliminar a auto-expressão".

Os macacões foram criados para imitar camisas de força - Getty Images
Os macacões foram criados para imitar camisas de força
Imagem: Getty Images

Segundo Tan-Jones, o estima associado aos problemas de saúde mental precisa acabar.

"As camisas de força são símbolo de uma época cruel na medicina, quando as doenças mentais não eram compreendidas, e os direitos e liberdades das pessoas eram tirados delas, enquanto eram abusadas e torturadas nas instituições", explicou.

"É de mau gosto para a Gucci usar imagens de camisas de força e roupas que aludem a pacientes mentais, apresentados em uma passarela como se fossem pedaços de carne em uma fábrica."

Em outra postagem na segunda-feira, Tan-Jones acrescentou que, juntamente com outras modelos que participaram do desfile, iria doar parte do cachê pago pela Gucci a instituições beneficentes de saúde mental.

"Muitas modelos da Gucci que participaram do desfile se sentiram como eu em relação a essa representação das camisas de força e, sem o apoio delas, eu não teria coragem de sair e protestar pacificamente", declarou.

Em resposta, a Gucci afirmou que o figurino foi idealizado para ser uma espécie de contraponto às peças coloridas da coleção primavera/verão 2020.

E informou que as roupas em questão, criadas para o desfile, não serão colocadas à venda nas lojas.

Acusações de racismo e apropriação cultural

O protesto de Tan-Jones acontece poucos meses depois de a Gucci nomear Renée Tirado como chefe do seu recém-criado departamento de diversidade, motivada por dois incidentes polêmicos.

Em fevereiro, a grife foi obrigada a tirar de circulação um suéter considerado racista. A peça — que estava sendo vendida por US$ 890 (cerca de R$ 3,7 mil) — tinha uma balaclava preta, que cobria parte do rosto, e uma grande boca vermelha.

De acordo com os críticos, o suéter se assemelhava ao chamado blackface, fazendo uma representação caricatural dos negros.

Em maio, a marca foi acusada de apropriação cultural por lançar um turbante de US$ 790 (cerca de R$ 3,3 mil) que lembrava os usados pelos sikhs. "O turbante sikh não é apenas um acessório de moda, é um artigo religioso sagrado da fé", criticou pelo Twitter a Sikh Coalition, com sede nos EUA, na ocasião.

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