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Alyona Alyona, a rainha feminista do rap ucraniano

A rapper ucraniana Alyona Alyona  - Reprodução/Instagram
A rapper ucraniana Alyona Alyona Imagem: Reprodução/Instagram

Groninga (Holanda)

04/02/2020 18h06

Com o cuidado de evitar o uso de palavrões, a ucraniana Alyona Alyona parece disposta a romper com os códigos machistas existentes no rap, além de cantar somente em seu idioma original.

Alyona também se tornou uma espécie de ícone para as pessoas XXG (maior tamanho de roupa), depois de se apresentar com uma roupa de banho prateada no seu videoclipe de estreia, intitulado "Ribki" ("Peixe").

No clipe, a ucraniana aparece rodeada por modelos muito magras, cantando uma música que claramente representa uma metáfora sobre mulheres jovens que se sentem deslocadas.

A rapper, que na certidão de nascimento se chama Alyona Savranenko, canta sobre os corpos femininos, o abuso psicológico e o empoderamento das mulheres, em músicas que desafiam os clássicos estigmas do hip hop.

Aos 28 anos, Alyona se tornou um fenômeno na Europa e foi figura de destaque no festival Eurosonic, em Groningen, na Holanda, depois de ter sido apontada como uma aposta musical pelo The New York Times.

Carisma e ousadia

"Ela é realmente extraordinária, tem muita personalidade", disse Jean Louis Brossard, que no ano passado levou a carismática rapper para o Trans, festival que organiza na cidade francesa de Rennes.

Em sua opinião, Alyona "consegue unir as pessoas com seu sorriso e seu entusiasmo", comentou.

Segundo a jornalista Eloise Bouton, fundadora do site Madame Rap, "Alyona é extraordinariamente boa, tem muita técnica, é ousada... o que mais posso dizer?", afirma.

Embora tenham como cenário sua pequena cidade na Ucrânia, seus vídeos já têm milhões de visualizações nas redes. Um deles, que mostra seus pais sentados na mesa do seu apartamento que remete a época soviética, já foi visualizado quatro milhões de vezes.

A maior estrela do rap ucraniano começou a escrever poemas aos seis anos de idade, mas tudo mudou quando conheceu o hip hop aos 12 anos.

No início, Alyona apenas copiava ou traduzia letras de rap americanas, até encontrar o seu próprio estilo, no qual canta sobre as mulheres na sociedade.

"Eu não era bandida, além de que era professora no jardim de infância", contou.

A fama chegou com o vídeo "Ribki", onde pode ser vista em roupa de banho enquanto se diverte em um jet ski. O vídeo se tornou viral e o sucesso foi instantâneo.

"Em um primeiro momento fiquei assustada por toda aquela atenção. O vídeo teve tantas visualizações que surgiam jornalistas querendo me entrevistar" na pequena cidade onde morava, próxima a Kiev, relata a cantora à AFP.

Combate ao sexismo

Rapidamente, Alyona percebeu que para levar a sério a sua carreira musical deveria abrir mão do seu outro trabalho.

"'Ribki' é sobre mulheres que têm piercings, tatuagens, cabelos com cores diferentes ou um corpo que não é visto como padrão", ressalta a cantora.

"Nós, que somos essas mulheres, somos como peixes na peixaria. E por trás do vidro que nos guarda não escutamos as palavras desagradáveis que nos dizem", conta.

Outra música, chamada "Pushka" (que em português seria "A bomba"), também é criativa na forma de retratar as mulheres. Nela, Alyona se autointitula como "pishka", um termo pejorativo usado com pessoas que sofrem de sobrepeso.

Há também letras comoventes, como quando canta: "Podem ter uma visão ampla sobre tudo, mas nunca nos convidam para suas casas".

Em um território tradicionalmente dominado por homens, Alyona às vezes tem que suportar críticas dentro do universo do hip hop.

"Já me disseram que as mulheres foram feitas para cozinhar, para cuidar das crianças, para fazer as unhas e se maquiar", comenta.

A ucraniana, no entanto, tem lutado para conquistar seu espaço.

"Tento demonstrar que as mulheres têm lugar nas batalhas de rap. Tento inspirar as pessoas. Não apenas dizer às mulheres que podem ser rappers, mas também que não deixem de acreditar em si mesmas", diz.

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