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Consumir menos e reformar o guarda-roupa, a nova equação da moda

Roupa da marca Tilli - Reprodução/Montagem
Roupa da marca Tilli Imagem: Reprodução/Montagem

Paris (França)

25/09/2019 19h24

A responsabilidade ambiental ganha espaço na moda, mas o desejo de renovar constantemente o guarda-roupa persiste. Esta aparente contradição estimulou o surgimento de novas opções de consumo: do aluguel mensal de peças até a costureira que vai à casa das clientes para transformar 'looks' antigos.

Desempregada e com oito casamentos para prestigiar, a francesa Beryl de Labouchere entrou em contato em 2016 com uma estudante de moda que transformava seus vestidos de adolescente em peças mais modernas, uma técnica conhecida como "upcycling".

"Não tinha nem dinheiro, nem vontade de comprar roupas que só usaria uma vez", diz em entrevista à AFP.

Suas amigas aderiram à moda. "Eu enviava a costureira e elas tiravam do armário uma grande quantidade de roupas para transformar. Elas queriam dicas e gostavam da intimidade de serem atendidas a domicílio", explica.

Há dois anos, formada em Tecnologia Digital, ela lançou Tilli, marca presente hoje em Paris e outras quatro grandes cidades francesas, com cerca de 40 "tillistas" (como chama as costureiras) e 500 pedidos mensais.

Guarda-roupas abarrotados

"Não nasceu como uma iniciativa ecologista", mas esse conceito de dar uma segunda vida às peças se adapta à tendência do mercado de consumir menos, admite De Labouchere. "Cada vez mais vemos que nossos guarda-roupas transbordam", adverte.

Segundo um estudo realizado este mês na França, Alemanha, Itália e Estados Unidos pelo Instituto Francês da Moda, quase metade dos 5.000 entrevistados compraram peças ecologicamente corretas em 2019.

A marca Tilli propõe, por exemplo, mudar a orientação dos bolsos de um jeans para dar à antiga peça uma aparência mais jovem, ou transformar uma velha cortina com estampa 'kitsch' em uma bolsa estilosa.

Anne Tourneux, estilista que mora em Paris e é cliente da Tilli, acha o conceito "revolucionário".

"A 'fast fashion' é um inferno para mim", explica, mostrando como a costureira adaptou um terno dos anos 1990 que ela comprou em um brechó. "É uma forma de conseguir algo exclusivo", afirma Tourneux.

- As calças grampeadas de DiCaprio -"Praticamente todos os materiais, sejam da Zara ou da Christian Dior, podem ser transformados", explica Chantal Tin, costureira da Tilli.

Ela explica que muitas vezes vai até uma casa para costurar a bainha de uma calça e acaba levando uma bolsa repleta de roupas.

Entre os clientes da Tilli, 40% são homens. Muitos são "como o Batman: quando encontram algo que lhes cai bem, não mudam. Quando fica velho, querem remendar, têm medo de não voltar a encontrar a peça", revela Tin.

De Labouchere lembra quando foi chamada para costurar uma calça de Leonardo DiCaprio, que estava grampeada na parte inferior para que ele desse uma conferência em Paris.

A marca trabalha também com outras grifes. "Tentamos convencê-las a que nos doem suas peças com defeito ou de coleções passadas para dar uma nova aparência a elas", diz.

Fazendo a reciclagem dessas peças, se evitaria o grande desperdício atual da maioria das marcas, que descartam 30% de suas peças, acrescenta.

Fim da cultura de posse

Outro setor em alta é o aluguel de roupas, que supera 1 bilhão de dólares de faturamento em todo o mundo, segundo um estudo da empresa Grand View Research, publicado em abril.

"A maioria de nossos clientes já têm uma atitude de não possuir, faz parte de sua educação", explica Agathe Cuvelier, fundadora do site de aluguel Les cachotieres, no fórum Impact sobre "moda positiva" realizado nesse mês em Paris.

"Mas o que não mudará é que as mulheres gostam de mudar constantemente e se divertem se vestindo", diz Cuvelier, cujo site permite alugar durante alguns dias peças conhecidas de marcas famosas que pertencem a outras pessoas.

Marcas em adaptação

Conscientes destas iminentes mudanças, as marcas também se adaptam. É o caso da SKFK, radicada em Bilbao e presente em 38 países, que além de vender roupas "éticas" também tem a proposta de aluguel mensal de 'looks', como por exemplo um kit com saia, camisa e bolsa.

"O que buscamos é otimizar a duração do produto", explica Ludovic Quinault, presidente da SKFK, durante o salão Impact, acrescentando que o aluguel hoje é apenas "uma tendência".

Pierre-Arnaud Grenade, presidente da marca Ba&Sh, que está dando seus primeiros passos no setor de aluguel de moda nos Estados Unidos, diz que as marcas podem contribuir com um grão de areia para garantir "a autenticidade das peças e agregar criatividade na hora de renová-las".

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