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Comunidade gay da Rússia teme a "caça aos homossexuais"

Anton Vaganov/Reuters
Imagem: Anton Vaganov/Reuters

Da AFP

06/08/2019 18h44

Em julho, quando Elena Grigorieva viu em um site homofóbico seu nome em uma lista de homossexuais que deviam ser eliminados, esta ativista de San Petersburgo não levou a ameaça a sério. Três semanas depois foi assassinada.

O grupo, chamado Pila (Serra) - em referência ao filme de terror "Jogos Mortais" - prometeu em seu site "pequenos presentes muitos perigosos e cruéis" a vários ativistas LGTB.

"É só uma ameaça, não é assim que se cometem os crimes", escreveu no Facebook Elena Grigorieva, de 41 anos, no início deste mês, uma mensagem acompanhada de uma captura de tela do site.

Em 21 de julho, o corpo de Grigorieva foi encontrado entre arbustos perto de sua casa em São Petersburgo, com facadas no rosto e nas costas.

Sua morte horrorizou a comunidade gay da Rússia, embora seus familiares tenham apontado que nada permite de momento vincular o assassinato com as ameaças de morte que recebeu.

A polícia russa não parece considerar a homofobia uma razão para o assassinato e sugere que a ativista foi atacada por alguém com quem estava bebendo.

Após o assassinato, a polícia prendeu um suspeito e em um comunicado se referiu a um "conflito pessoal" e ao estilo de vida "antissocial" de Grigorieva, que "bebia com frequência".

Posteriormente o homem foi solto e foi anunciada a prisão de outro suspeito.

O site do Pila permaneceu ativo por um ano publicando nomes e fotos dos "acusados" e prometendo "recompensas" a quem os atacasse. Em julho foi bloqueado, após a petição de um ativista de Ecaterimburgo.

Os ativistas pelos direitos dos homossexuais na Rússia estão acostumados à hostilidade, à violência e, em alguns casos, ao assassinato.

Mas a situação atual significa um passo além.

"Não sei quem são estas pessoas. Mas para mim é significativo que as pessoas com estas ideias na cabeça vivam entre nós", disse à AFP Mikail Tumasov, cujo nome também aparecia na lista do Pila.

"Muitas pessoas realmente gostariam de fazer tudo aquilo que o Pila ameaça fazer conosco. Acham que matar pessoas por sua orientação sexual não só é normal mas também nobre", apontou.

- "Impunidade" -As autoridades não fazem praticamente nada para se opor a esta ideia, lamentou o ativista Igor Kochetkov, que desafiou diretamente a polícia em uma mensagem na internet: "Se você acha que pessoas como nós não são dignas de ser protegidas, procure outro trabalho".

"Pila é perigoso porque propaga o ódio, inspira pessoas a cometerem crimes reais", disse Alla Chikinda, porta-voz do Centro de Apoio LGTB de Ecaterimburgo, que, como outras organizações, recebeu ameaças.

Assim como outros ativistas, Chikinda tenta minimizar as ameaças do Pila, mas sua organização instalou câmeras de vigilância em suas instalações.

Na Rússia, a homossexualidade foi considerada um crime até 1993 e uma doença mental até 1999.

Embora haja comunidades homossexuais ativas nas principais cidades do país, a atmosfera é mais tensa desde que a Rússia adotou, em 2013, uma lei que proíbe a "propaganda" gay a menores.

Na reunião do G20 em Osaka (Japão) em junho, o presidente russo, Vladimir Putin - que pôs a defesa da família e dos "valores tradicionais" no centro de sua política -, garantiu que os direitos dos homossexuais são respeitados em seu país.

No entanto, também ironizou sobre os países ocidentais onde "inventaram cinco ou seis gêneros".

Vitali Bespalov, o editor de um site para a comunidade gay, não acredita que o Pila conheça seus "verdadeiros assassinos" mas sim que os "tolos" podem escutar seus chamados ao assassinato.

"Eles se aproveitam de um verdadeiro sentimento de impunidade, sabem que não estão arriscando nada por isso", disse.

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