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Xan Ravelli

A "maternidade real" não está no Instagram

"Eu não dou conta de tudo, porque ninguém dá" - Getty Images
"Eu não dou conta de tudo, porque ninguém dá" Imagem: Getty Images
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Xan Ravelli

Xan Ravelli é o nome por trás do Radar digital Soul Vaidosa ativo desde 2013. Vaidosa de corpo e alma, musicoterapeuta por formação, #pretacrespamãede2efeminista, seu Soul Vaidosa foi o primeiro canal do YouTube Brasil a unir temáticas em beleza e feminismo negro.

Colunista do UOL

01/11/2020 04h00

"Como você dá conta?" Como você consegue cuidar das crianças, das empresas, do relacionamento, da casa, de tudo? Eu perdi a conta das vezes que recebi essa pergunta, tanto pessoalmente quanto por mensagem. E minha resposta é sempre a mesma: eu não dou conta, porque ninguém dá.

Eu ainda me impressiono com a ideia de maternidade vendida por aí, como se fosse algo perfeito, que em momento algum, em nenhuma circunstância contempla o ato da reclamação.

A maternidade não é vivida de uma forma única, cada mulher passa por uma experiencia particular. Pensando assim, fica mais honesto falar em maternidadeS contemplando as diversas realidades existentes no enfrentamento e educação de crianças.

Outro dia vi uma postagem da Ana Paula Siebert, esposa do Roberto Justus e mãe de uma bebê fofíssima, loirinha de olhos azuis que nunca vai precisar se preocupar em pagar um boleto na vida. Essa postagem me fez refletir sobre a tal #maternidadereal . Real pra quem? Qual a real dimensão dessa realidade?

A sua maternidade real é só sua mesmo, porque existem mães por aí que passam por coisas que nós nem imaginamos e não conseguiríamos nos colocar vivendo tal realidade. Lembro de encontrar pessoas com esse olhar pra mim que estive com duas crianças pequenas, sem apoio, sem cozinheira, sem diarista, com trabalho e muito estresse.

Eu tenho esse olhar para cada mãe de crianças acometidas por doenças autoimunes e oncológicas. Por mais empática que tento ser com essas mães, não tenho o que entregar além da escuta atenta de quem não sabe qual é a sensação.

Diferente do olhar que eu tenho a TODAS as mães negras que encontro pelo caminho: eu sinto com elas. Temo pela hipersexualização, pela solidão das nossas filhas, temo pela vida e pelo descaso aos nossos meninos. Eu choro junto todas as lágrimas das mães que perderam seus filhos pro genocídio do racismo estrutural. Eu vibro por cada um dos nossos filhos graduados em universidades, vibro por seus empregos, conquistas, amores, viagens como se fossem um pouco meus também (talvez sejam).

As maternidades negras são repletas de questões coletivas que estão muito longe do campo de visão da maior parte da blogosfera materna, majoritariamente branca e de classe média alta. Esses blogs/ Instagram parecem direcionados a uma maternidade única, que não inclui mães atípicas, mães pretas, mães solos, mães trans ou lésbicas - agora se as maternidades dessas mães são ignoradas, será que estamos educando crianças para serem inclusivas? Estamos escolhendo escolas que prezem pela diversidade? Invisibilizando essas mães de conversas, de eventos, qual é a real chance de seus filhos se sentirem pertencentes?

Por aqui o homeschooling está um caos, meu filho menor anda ansioso e roendo unhas, tem vários dias que não estamos conseguindo cozinhar então bora comprar comida, ou fazer massa que é mais rápido. Enquanto dormem, eu peço desculpas e choro muitas vezes, pensando no futuro, nas incertezas, nas dificuldade dessa sociedade pós contemporânea que estamos precisando enfrentar sem nem saber o que será.

Mas essa é só a minha realidade, aquela que você não consegue enxergar pelo Instagram. Aquela que vai se modificando pouco a pouco conforme filhes crescem.

A minha #maternidadereal não é a única possível, nem de longe. Cada uma tem sua forma de maternar que simplesmente acontece. E seja lá o que você estiver vivendo, saiba que daqui a pouco vai mudar, porque filhes mudam, o maternar muda e a gente muda também - ou deveria mudar.