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Xan Ravelli

Mito imposto pelo patriarcado de ser mais mulher ou menos continua em alta

Peter Dazeley/Getty Images
Imagem: Peter Dazeley/Getty Images
Xan Ravelli

Xan Ravelli é o nome por trás do Radar digital Soul Vaidosa ativo desde 2013. Vaidosa de corpo e alma, musicoterapeuta por formação, #pretacrespamãede2efeminista, seu Soul Vaidosa foi o primeiro canal do YouTube Brasil a unir temáticas em beleza e feminismo negro.

Colunista do UOL

16/08/2020 04h00

Você já refletiu sobre a dimensão social do autocuidado? Já falamos sobre autocuidado numa dimensão física e emocional e agora gostaria de falar da esfera social. "Você é parte de algo muito maior", já nos disse Beyoncé.

Porque somos seres sociáveis, sentimos prazer em estar com outras pessoas e em pertencer a grupos. Nos fortalecemos quando somos aceitos e estamos próximos de quem nos ama. Mas quase nunca a história é só essa parte bonita: mulheres são levadas a adaptar suas posturas, seu existir a "culturas" machistas, misóginas.

Religiões tratam o corpo feminino como fonte de pecado e impureza. Grandes empresas ainda enxergam o corpo que gera como menos produtivo e inapto a cargos elevados. O mito do ser mais mulher ou menos mulher continua popular e leva em conta uma performance do feminino cuidadosamente desenhada pelo patriarcado.

Falo aqui especialmente para mulheres, mas a verdade é que o processo de socialização e aceitação é doloroso para grande parte da sociedade, pois para se fazer uma pessoa homem branco, mulher branca, homem negro, mulher negra, homem indígena, mulher indígena, trans ou não-binárie é necessário seguir alguns padrões dessa cultura ou subcultura na que está envolvide.

Tornar-se quem se é exige rituais, parâmetros estéticos e comportamentais que variam conforme tempo e espaço. Ninguém é só por si, ninguém se faz sozinhe.

Você, maravilhose, é uma soma de traços de personalidade só seus somado a um conjunto de normas e saberes culturais da sociedade onde você vive —e mais músicas, livros, amigues e viagens

A socialização começa na infância, desde o nascimento. É de pequeno que aprendemos a viver e conviver em sociedade.

E é aqui que enquanto mãe de duas crianças eu preciso deixar minha indignação. Fico impressionada em ver o quanto nossa sociedade pós-contemporânea é intolerante com pessoas que estão fora da fase de produção e consumo: ou seja crianças e idoses. Restaurantes sem cadeiras para crianças, faróis de trânsito rápidos demais para quem já está com movimentos mais lentos.

Quando se tem por perto duas crianças negras como meus filhes de 5 e 8 anos, o racismo chega muito cedo pra apontar qual é o local que essa sociedade reserva a quem nasceu com a pele preta: um lugar de não amor e de não cuidado.

Lugar esse que foi apresentado para Jade quando ela tinha 2 anos e todas as crianças de sala recebiam da professora ao final da aula um penteado bonito para voltar pra casa acompanhado de carinho —menos ela. Chegou para Rael aos 3 anos quando teve seu cabelo cortado, sem minha autorização e sem que seu choro de descontentamento fosse levado em consideração.

E a sociedade continua apontando seus espaços enquanto meus filhos são as únicas crianças negras da escola, quando o mecânico insiste em falar sobre dinheiro apenas com meu esposo, quando mulheres negras são mais atingidas pela violência e pelo feminicídio que mulheres brancas, quando o futebol feminino não recebe o mesmo apoio de mídia e patrocínio que o masculino, quando pessoas negras são as maiores vitimas do Covid no Brasil.

Mas sociedades e culturas estão em constante mudança e evolução. E embora forças opostas atuem, essa sociedade em que vivemos (na minha visão real-otimista) está caminhando cada vez mais para um lugar que tende a ser confortável para todes não só para quem é homem, branco, hétero, cis, magro, classe média-alta e cristão.

Estou falando de pluralidade: da grandeza e da beleza que é se enxergar com olhar de aceitação e não de adequação, de abraçar a pele, o corpo e o cabelo que você habita. De acender sua vela pro Deus que te traga paz independente de pra quem o vizinho acende a vela dele.

Estou falando que autocuidado também é pertencimento, sentir que você pode brilhar aqui e em qualquer lugar, porque você é feita para caminhar onde quiser e não onde te sinalizam para estar.

Vou listar para vocês algumas ações para nossa prática semanal de autocuidado numa dimensão social, lembrando que você pode eleger só uma para a semana, outra para a semana seguinte e por aí vai:

1- Honre seus pais, avós e bisavós: vale colocar fotos em casa, ouvir atentamente histórias de seus mais velhos, ou só dizer o nome deles em voz alta para você.

2- Encontre sua comunidade: o que você gosta de fazer? Quem faz isso com você?

3- Permita que as pessoas que estão próximas a você sejam quem elas são. Se precisar chamar atenção critique atitudes e não a pessoa.

4- Não abrace imposições sociais estética sou comportamentais: não sente vontade de se depilar, NÃO DEPILA. Não gosta de maquiagem, NÃO USE.

5- Não se aperte para caber na caixa de ninguém, de nenhum trabalho, de nenhuma relação, existem muitas caixas por aí; em alguma você cabe.

Na próxima semana, vou discutir a dimensão espiritualizada do autocuidado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.