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Thais Farage

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como a pandemia e a internet mudaram o jeito que vivo minha carreira

Avel Chuklanov/Unsplash
Imagem: Avel Chuklanov/Unsplash
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Thais Farage

Já fui do cinema e agora sou das modas. Coautora do livro "Mulher, Roupa, Trabalho - Como Se Veste a Desigualdade de Gênero" (Cia das Letras) & sócia da EME, escola de moda e empreendedorismo.

Colunista de Universa

18/06/2022 18h07

Se tem uma onda que eu gosto de tirar é de que eu to aqui, vivendo na internet, já há muito tempo. Eu tive Mirc, ICQ, Fotolog, Orkut, internet discada, blog, comprava fica k7 de banda demo com zine online, tudo isso eu vivi intensamente. Só no instagram eu tô há um milênio. Sem contar newsletter, site, TikTok e todos os outros formatos que levam embora sem dó nem piedade todas as horas do meu dia.

Mas, me dei conta esses dias, assim quase num susto no meio do banho, como quem vê uma barata saindo do ralo, que eu, praticamente, fiz uma mudança de carreira ao longo dos últimos dois anos. Imagino que você também e é por isso que eu achei que esse texto aqui valia ser escrito.

Queria puxar esse assunto porque me dei conta que o que mudou não é o que eu faço, eu sigo consultora de moda, mas o como eu faço mudou radicalmente. E é justamente esse jeito de fazer diferente que tem alimentado a minha vontade de trabalhar, ultimamente.

Para o bem e para o mal, a pandemia mudou demais o jeito de trabalhar e aqui, no meu universo, levantou possibilidades que eu nem era capaz de sonhar. Quando começou o isolamento eu vivia basicamente entre casa de clientes, desfiles e sala de aula - estudando e ensinando.

Depois, no auge do apocalipse, eu criei muitos cursos online (eu já dava aula online há muito tempo, mas isso nunca foi minha principal fonte de renda) e foi muito legal. É sensacional o tanto que é possível aprender online, sem precisar viajar, de algum jeito, o curso online viabilizou que muita gente estudasse comigo (e eu estudasse com muita gente, também, vale dizer!).

Mas ficou claro, pelo menos pra mim, que eu não queria migrar pra educação e abandonar a parte prática. E aí, agora, nesse segundo momento, vendo que mesmo com a vida voltando ao normal (seja lá o que é normal quando mais de 125 milhões de pessoas passam fome hoje só no Brasil) o mundo continua meio remoto e, tudo indica, vamos mesmo viver essa mistura de online-offline o tempo inteiro. E é nesse pensamento que eu tenho aprendido muitos outros jeitos de fazer o meu trabalho funcionar de maneira híbrida.

Pra mim, a grande virada de chave foi entender que sim, é tudo diferente e não basta passar para o online o que era feito olho-no-olho. A minha criatividade precisa trabalhar pra inventar um novo jeito de resolver um antigo problema: como eu me visto de mim mesma sendo que (inclua aqui toda sorte de empecilho possível).

Como é que a gente entrega tanta informação individualizada sem estar grudada na pessoa? Dobrando a barra da calça pra ela e sentando junto no provador e concluindo: essa blusa realmente funciona pro sua palestra?

A minha profissão não é mais entregar serviço, é entregar treinamento. Eu preciso que a minha cliente aprenda e faça depois, sozinha. Não há maneiras de resolver eu mesma um armário a distância. Não existe pedir pra alguém me mostrar peça por peça em uma conversa infinita no Zoom, tem-misericórdia-socorro. Se na era da experiência você tá pensando em replicar o material pro virtual, desculpa, mas vai dar errado.

E é difícil, mesmo, e por isso eu bato na tecla: precisamos pensar que estamos mudando de carreira e aí, quem sabe, a gente encontre outros jeitos de resolver antigos problemas. Porque, no seu trabalho eu não sei, mas no meu, tudo mudou.

Eu lembro que quando eu comecei nessa carreira, as minha clientes a-ma-vam serviços longos. Eu passava, tranquilamente, um mês inteiro pensando e repensando o armário com alguém que tinha problemas significativos e necessidades urgentes. Urgente, há 8 anos, era resolvido com 1 mês de trabalho.

Hoje, t-o-d-a-s as pessoas a minha volta querem uma solução express ou, pelo menos, um caminho mais curto pra um problema específico. Nunca mais tive clientes que querem repensar toda a vida e viver uma iluminação espiritual através da roupa. Todo mundo quer resolver um problema prático, um objetivo concreto: vai saber quando vamos voltar a ficar no sofá de pijama esperando o vírus passar? Melhor correr e resolver o drama do dia.

Eu realmente achei que o que mudaria na moda seria a vontade das pessoas de usar peças diferentonas, paetê, vestido de festa e até salto alto todo dia. Que esse negócio de guardar a roupa pra um dia especial - que às vezes nunca chega - ia acabar. Mas o que eu vejo mesmo, é que estamos com mais pressa. É pra ontem, é urgente. Uma sensação de que o mundo vai mesmo acabar amanhã e eu não tenho tempo pra pensar tão longe e tão profundamente.

Sinceramente, não sei o que eu acho ainda. Tô mudando de carreira, né, então eu to seguindo o fluxo e tentando tirar o melhor de tudo isso - afinal, eu também cansei dos processos longos e chatos e cansativos.

Eu também tô vivendo o fim do mundo. Eu saí de um lugar de muita segurança, de saber exatamente o que eu tava fazendo, pra não ter ideia do que vai ser do amanhã. O lance da mudança de carreira é essa, não estou começando do zero, eu já sei um montão de coisas, mas eu também não faço ideia de onde isso vai dar, nem como é que vamos resolver essa equação.

Mas eu sou otimista porque tá claro pra mim que não tem mais pra onde voltar, as coisas vão caminhar daqui pra frente e eu, como uma boa entusiasta de mudanças, fico atenta pra pensar quais coisas legais eu podia estar fazendo que ainda não estou.

A minha sensação é que tem um mundo inteirinho de jeitos diferentes de trabalhar online e eu ainda nem imagino como eles se darão, mas eu to afim de descobrir. É isso que tem me feito trabalhar animada todo dia, esse portal que se abriu. Eu gosto da internet e eu quero acreditar que dá pra ser muito mais legal, democrático, eficiente e acessível porque é online - não tem deslocamento, trânsito, escritório gelado, reunião que podia ser um email (mentira, isso ainda tem).

Vou encerrar aqui sem levantar nenhum dos mil problemas que estamos também vivendo na rede mundial dos computadores (eu disse que sou de época) porque tamo precisando de esperança, né? Vamos confiar que a lei de proteção de dados e o combate a fake news vai cuidar bem da gente, boa sorte e vamos nessa.