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Você é mais Lumena do que imagina. Cancelar virou rotina, por quê?

Carol Tilkian e André Lage

sobre os colunistas

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

Colunista de Universa

08/02/2021 04h00

Mesmo que você não esteja assistindo o BBB 21 muito provavelmente já foi impactada pela explosão de stories, tweets e textões horrorizados com o comportamento dos confinados. Uma edição que começou com o discurso de cancelar a cultura do cancelamento, não precisou nem de uma semana para mostrar que a prática é bem diferente da teoria. Violência psicológica, humilhação, agressividade e lacração dão a tônica das atitudes dos brothers, que se cancelam continuamente num grande jogo da discórdia.

Mas esse não é mais um texto pra cancelar Karol, Lumena e relativizar a postura de Lucas. Esse texto não é sobre eles, é sobre nós. O BBB é um grande reflexo da sociedade e minha provocação é: enchemos a boca para falar da tal "cultura do cancelamento" sem nos darmos conta de que reproduzimos essa cultura em nossos microcosmos. Temos cancelado amigas, crushes, colegas de trabalho com cada vez mais frequência.

Você já parou pra pensar como se portou nas últimas vezes em que alguém com quem você se relacionava teve uma atitude que não achou legal? Abre o histórico de mensagens e dá uma olhadinha? Pelas histórias que recebemos no inbox do soltos s.a. e pela minha própria vivência, fico triste em constatar que viramos uma espécie de "geração textão" onde lacrar virou mais importante do que conversar.

"Mandei textão e bloqueei"
Já perdi as contas de quantas vezes ouvi a frase acima de soltas que nos escrevem cheias de orgulho pra comunicar que finalmente se impuseram e colocaram um ponto final nas cozinhadas daquele boy que enrola elas há meses. Cansadas de migalhas e engolir faltas de respeito, finalmente decidem colocar tudo pra fora em audiões de 10 minutos ou textos de muitos parágrafos e pronto! Bola pra frente, chega de aturar crush lixo.

O próprio uso do termo "crush lixo" (que a gente usa na brincadeira no canal e eu já to começando a repensar) é mais um sintoma dessa cultura do cancelamento e da lacração. Por que quando classificamos o outro como lixo, automaticamente assumimos o posto do "não lixo"; da defensoria do afeto e do respeito nas relações casuais e assim, segundo nossos critérios e nosso estatuto, todo boy que não cumprir as regras mínimas deve automaticamente ser descartado, sem nem direito ao envio para a lata de recicláveis.

É óbvio que existe muita gente babaca e não acho que temos que passar pano em atitudes desrespeitosas. Mas o que me incomoda é o tal textão com bloqueio automático. A gente quer chamar o outro de lixo e sair correndo. Sem direito de resposta, sem ter que se abrir pro diálogo, sem humanizar o outro lado (ainda que sigamos não concordando com a pessoa).

Pra que tudo isso? Pra perpetuar uma lógica simplista e maniqueísta onde o cara que não atendeu nossas expectativas na relação é sempre um crápula e nós, sempre vítimas e paladinas do amor verdadeiro? Que amor maior é esse que não existe sem compaixão?

Lacração pública nos grupos de whatsapp
E o tal cancelamento não tem rolado só nos corações feridos não. Outro dia recebi um textão de uma amiga com quem tinha feito um trabalho junto no grupo de whatsapp do tal projeto. Na mensagem ela me achincalhava sem papas na língua e ainda terminava irônica me desejando axé. Ela vomitou todo seu descontentamento num grupo e colocou um ponto final. Afinal, ela estava certa e eu errada.

Não tiro o direito dela ter se incomodado com minhas atitudes no trabalho, mas fiquei surpresa, machucada e decepcionada por ela não ter me chamado para uma conversa no privado. Lacrar com texto é mais fácil né? A gente coloca tudo pra fora e o outro que se vire com isso? Não é nesse tipo de relação que eu acredito

Conversar ninguém quer né?
Revendo essa minha história, as inúmeras mensagens dos soltos e o show de horror e desrespeito do BBB me questiono: em que momento desistimos do diálogo e do direito de resposta? Se estamos perdendo o respeito até com pessoas próximas, que dirá com o fulano que vota no partido diferente do seu ou no influencer que tem uma postura na vida com a qual você não compactua?

Parece que o diálogo passou a ter duas únicas funções possíveis: ou converso com meus iguais, para multiplicar opiniões similares e reforçar a ideia de que essa nossa visão de mundo é claramente a mais inteligente e interessante; ou utilizo o diálogo como ferramenta de convencimento, para que o outro se redima, mude de opinião e concorde comigo (que claramente estou certo). Caso nenhum dos exemplos anteriores se aplique e exista discordância de pontos de vista, o cancelamento surge como reação automática.

Conversar dá trabalho, dá preguiça, dá medo e parece que ninguém mais quer sair da zona de conforto. Conversar faz com que a gente tenha que ouvir a verdade do outro ainda que não concorde com ela. Esse é um exercício de respeito e empatia. O problema é que estamos todos tão inflamados e machucados que acabamos atacando todos aqueles que erram (segundo nossos critérios) nesse comportamento perverso sem direito de resposta.

Quando eliminamos o diálogo, eliminamos a possibilidade do perdão, da redenção, do entendimento do porquê a pessoa teve tal atitude. Se metade do tempo que gastamos cancelando o tal fulano e contando pra toda nossa roda de amigos o quanto essa pessoa foi babaca fosse usado para efetivamente conversar com a pessoa e mostrar em que pontos ela nos machucou, provavelmente construiremos relações muito mais saudáveis. Isso sem contar no fato de que estaríamos contribuindo para o desenvolvimento uns dos outros.

Não sei vocês, mas eu não me considero um "alecrim dourado paladino da verdade e da pureza". Já errei muito na vida e sou grata por poder ter conversado com aqueles com quem errei. Por que então condenamos ao cancelamento perpétuo pessoas próximas por coisas cada vez mais mesquinhas?

Daqui a pouco os tais canceladores mór do BBB vão ser eliminados. Algumas semanais mais e o tal reality acaba. Mas enquanto a gente não rever a forma como estamos agindo com nossos amigos, familiares e peguetes estaremos todos em um grande BBB da vida real num jogo eterno da lacração e, pior, sem nem direito a concorrer um prêmio de um milhão de reais. Da próxima vez que achar que alguém for babaca com você, chama no privado pra conversar. Sem plateia, sem bafão, sem bloquear. Tá na hora da gente resgatar nossa humanidade não acham?

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