PUBLICIDADE

Topo

Soltos

Gabi Melim termina namoro pra focar na carreira. Temos mesmo que escolher?

Carol Tilkian e André Lage

sobre os colunistas

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

Colunista do UOL

27/01/2021 04h00

Semana passada a cantora Gabi Melim anunciou que decidiu terminar seu namoro de dois meses para focar na carreira: "Existe uma fase da carreira, pelo menos para mim, de que é preciso respirar esse universo. Preciso estar imersa. Quando a gente se divide em muitos âmbitos, pode nos tirar do foco, do eixo."

A declaração reforça a ideia de que, no fundo, o amor atrapalha e que, ao se propor a abrir mão de algumas horas dedicadas à composição (no caso dela) ou as planilhas de excel (no caso dos muitos boys que já me deram esse golpe do "tô focado no trabalho") para curtir momentos gostosos com seu mozão, fatalmente a qualidade do seu trabalho cairá. Será mesmo? Por que será que ainda achamos que precisamos escolher?

Cresci ouvindo minha avó repetir: "Tudo não terás" e "cada escolha, uma renúncia". Essa mesma avó me iniciou na poesia e, olha a coincidência, lia pra mim Cecília Meirelles que dizia "Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo? Não sei se brinco, não sei se estudo, se saio correndo ou fico tranqüilo. Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo." Entendo que precisamos fazer escolhas (e confesso que sou péssima nisso? sou daquelas que muda o pedido no restaurante 5 vezes chamando o garçom no cantinho), mas me questiono se não estamos amplificando os "efeitos colaterais" de nossas escolhas.

Minha sensação é que estamos encarando as relações amorosas como sugadores de tempo e de energia e não como um espaço de acolhimento, troca e transformação. Desde 2018 conversamos diariamente com os mais diferentes perfis de solteiros e com pesquisadores de comportamento, e percebo que este olhar pessimista para as relações se dá principalmente por um acúmulo de experiências negativas prévias. Estamos nos tornando uma grande legião de solteiros calejados que tendem a alimentar uma memória seletiva de todos os desprazeres e roubadas anteriores numa tentativa de autopreservação emocional.

Gato escaldado ou profecia auto realizável?

Todo mundo já viveu relações possessivas, sufocantes, permeadas por mentiras, pequenas faltas de respeito e desigualdade no nível de entrega. Muita gente já comprou aquela passagem cara para um réveillon romântico e amargou um pé na bunda no inverno, tendo que conviver com o frio, a carência e as salgadas parcelas da passagem. Muita gente já não prestou atenção numa reunião importante porque estava checando de 5 em 5 minutos se o cara ia responder a mensagem e acabou levando um pito do chefe. Não estamos ficando mais novos e a dura realidade é que, com mais ferramentas de conexão e mais pessoas na pista, as chances de acumularmos desencontros e desrespeitos é gigante. Mas isso não significa que todas as relações vão ser assim.

Esse pessimismo é muito sintomático e, se não aprendermos a desligar esse alarme de incêndio, corremos um grande risco de criar profecias auto realizáveis pois, uma vez que ninguém se entrega, as relações são sempre frustrantes e decepcionantes e você se sente certa ao pensar que deveria mesmo ter focado na sua carreira.

A pira do controle

Outro ponto que nos faz buscar os tais efeitos colaterais nessa "bula do amor" é o medo de perder o controle. A gente não quer perder o controle da própria agenda, e já se angustia com a possibilidade de ter que interromper seu fluxo criativo prestes a parir o próximo hit da década só para ter que comparecer no bolinho de 1 ano da afilhada do namorado (que nem vai lembrar desse maldito aniversário).

Também não queremos perder o controle da nossa aparente maturidade e equilíbrio conquistados à base de muita meditação e alguns socos na aula de Muay Thai. Sim, esse é um dos principais medos dos solteiros: entrar num relacionamento e se deparar com o louco que existe dentro de nós. Aquele lado ciumento, que vai sentir a mão coçar pra mexer no celular do cara enquanto ele toma banho e que vai se incomodar porque a nova assistente dele é linda e cheia de colágeno.

A gente tem a ilusão de que sozinhos controlamos mais a nossa vida e ocupar a agenda com o trabalho faz com que a gente não precise se deparar com as tais sombras que surgem e precisam ser trabalhadas numa relação.

O falso foco absoluto

Sou do time das workaholics e entendo quando Gabi fala "Preciso estar imersa. Quando a gente se divide em muitos âmbitos, pode nos tirar do foco" . Vivemos num tempo da glamurização do burn-out e trabalhar muito é visto como sinônimo de garra e caráter. Lembro que minha primeira chefe me falou "você tem que se inspirar no Edu, ele é ótimo, fica aqui na agência todo dia até meia-noite". O tal Edu poderia ser um ótimo profissional, claro, mas não porque virava as noites e sacrificava sua vida pessoal. Precisei de muita análise para desconstruir essa crença.

Eu acho que ela é ainda mais perversa quando a gente está empreendendo. Nesse caso não existem chefes e quem comanda nossa superprodutividade é o carrasco do superego. "Se você quer fazer o Soltos crescer pode pensar em mais um projeto, mais uma pauta, mais uma pesquisa?" quantos dias e noites já me autoflagelei com essa cobrança? Parece que qualquer minuto dedicado a outra atividade é um minuto desperdiçado e que é isso que vai separar os vencedores dos perdedores, ao mais puro pensamento do "american way of life".

Quando a gente entra nesse looping começa a se comparar com essas pessoas que acordam às 5 da manhã, que já publicaram 3 livros, fizeram 8 cursos, 12 palestras e abriram 2 novos negócios só no último ano. Uma comparação desleal e irreal mas, mais uma vez comandadas por nosso carrasco interno, seguimos achando que a vida profissional só vai virar se a gente focar.

No pain, no gain

Ainda dentro dessa lógica do foco absoluto, percebo que crescemos com essa outra máxima americana : "no pain, no gain". Aprendemos que os resultados só virão se a gente se esfolar, se levar ao limite, suportar a dor para obter os ganhos (traduzindo a frase pro nosso bom português). O problema é que essa máxima começa a ser aplicada em todos os âmbitos da vida e isso gera uma angustia e um cansaço prévios gigantes (pelo menos em mim?). Quem aqui nunca pensou: "não existe mágica? sem esforço, desgaste e muita manutenção essa relação não vai pra frente ou esse emprego não vai virar carreira de sucesso". Só de ler essa frase já dá uma mini gastrite... se dá preguiça de se esfolar pra fazer o trabalho vingar, imagina adicionar também um desgaste sentimental gigante pra manter um namoro? Não há estrutura emocional que aguente. Ou seja, escolher um dos campos da vida parece a única saída possível. Mas será que se levar ao limite e suportar a dor é o único jeito de atingirmos bons resultados?

Menos eficácia, mais deleite

O André, meu amigo e sócio aqui no Soltos s.a. me ensinou uma frase que mudou a forma como eu enxergo essa necessidade de focar no trabalho. "Menos eficácia, mais deleite". Às vezes a gente foca tanto, mas tanto, que as coisas pesam (e isso vale tanto para o trabalho como para a relação amorosa). Colocar todas as fichas em um único número não é uma jogada muito inteligente nas mesas de blackjack casinos à fora, não acham? Então porque ainda usamos a lógica do foco absoluto na vida?

Se nos propusermos a construir relações de cumplicidade e parceria com nossos namorados ou maridos eles podem ser o deleite que precisamos para voltar ao trabalho mais inspiradas. O grande insight pode vir numa cena de filme acompanhada de uma taça de vinho e não na leitura de um relatório de tendências da China, por exemplo.

E se você quiser pular o aniversário de um ano da afilhada dele porque esse dia é importante ficar até mais tarde no trabalho, tudo bem. A gente tem que construir relações mais soltas, onde exista espaço para a liberdade e autonomia do outro. Onde a gente possa pedir colo, contar nossas loucuras sobre o celular e a assistente e rir junto de tudo isso.

É maravilhoso estarmos com gente que quer ver a gente voar. Dá pra voar junto! Pra isso também temos que desconstruir o estigma de que homem se assusta com mulher bem-sucedida. Pra mim essa afirmação está no mesmo bloco da "mulher que dá na primeira noite não namora". Pode ser que alguns caras sejam assim? Pode? que isso seja um filtro pra gente escolher e não um carma pra se livrar.

Nem tudo é isso ou aquilo. O mundo é deliciosamente mais complexo e pode ser mais múltiplo. Gabi, que sua carreira decole! Mas não precisa desfocar de outras coisas da vida não...

Pra mais conteúdos como esse, nos siga no Insta e no Youtube.