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No futuro do amor sexo, casamento e filhos não precisam ser a mesma pessoa

Carol Tilkian e André Lage André Lage

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Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Colunista do UOL

25/01/2021 04h00

"Amigo, se nada der certo até os nossos 50, vamos nos casar?" Quem nunca brincou com um amigo ou amiga assim? E hoje eu te digo: essa ideia pode não ser tão louca assim? inclusive ela pode solucionar diversos enroscos amorosos que estamos vivendo agora.

Recentemente entrevistamos o futurista Teobaldo sobre as tendências para o futuro do amor e do sexo e ele trouxe uma visão de futuro bastante libertadora. Segundo ele, vamos deixar de procurar o nosso parceiro sexual, o marido e o pai dos filhos na mesma pessoa e isso pode levar a relacionamentos mais duradouros e sinceros.

Eu não sei você, mas à minha volta o que mais vejo são casamentos sem nenhuma parceria ou então pessoas separadas que vivem em brigas eternas com os ex (e que muitas vezes colocam os filhos no fogo cruzado). Segundo o IBGE, os divórcios cresceram 170% nos últimos 10 anos. Ou seja, tem algo pra ser melhorado na maneira que procuramos nossos parceiros de vida.

E onde começou essa treta?

O amor romântico, essa ideia de que existe a metade da laranja, alguém que vai nos completar e que vai suprir todos nossos desejos, é bem recente. As pessoas sempre se casaram na história através de acordos de interesse, o amor só começou a surgir como critério para encontrar o par depois da Revolução Francesa.

Nesse ideal, o amor verdadeiro é arrebatador e intenso. Mas rola uma confusão porque o nome disso é paixão e não amor (aliás temos uma entrevista ótima com a Vera Iaconelli pra clarear isso).

Claro que não estou aqui panfletando a favor de casamentos arranjados, mas a neurociência nos diz que a paixão não dura muito tempo - por volta de dois anos no máximo. E depois disso? Pode ser que ao longo da convivência o amor vá surgindo e com o passar do tempo ele passe a ser a base do relacionamento. Mas pode ser que o fogo da paixão se apague e você se dê conta de que está casado com uma pessoa totalmente diferente de quem você tinha idealizado.

E aí como faz? Você já com um neném no colo, dividindo armário e cheio de boletos pra pagar...Será que o critério pra construção de uma relação de longo prazo tem que ser a libido? Podemos ter afeto e não necessariamente desejo sexual? Isso vai nos ajudar?

Cada um no seu quadrado

O que Teobaldo argumenta, é que já existem movimentos muito concretos de separação do prazer sexual e afeto, vide o boom de vendas de brinquedos sexuais na quarentena. Essa tendência começou na revolução sexual dos anos 70 que surgiu após a pílula, onde as mulheres começaram a ter controle sobre a reprodução e puderam viver uma vida sexual com o único intuito de ter prazer.

Mas em relação ao casamento, não conseguimos ainda enxergar outros formatos possíveis.

"Se a gente conseguir separar nosso prazer sexual de um projeto de vida de alguém que entende a gente, isso abre muita prerrogativa pra formatos novos de relacionamentos. O casamento passaria a ser um contrato social com o intuito de desenvolver um projeto de vida. É menos aquela confusão entre afeto e paixão e mais um pensamento a longo prazo.".

Quando olhamos por esse lado, poderíamos buscar parceiros pra todas as horas nos nossos amigos. Eles pensam como a gente, nos conhecem profundamente e não vão querer controlar nosso corpo. Só isso já soluciona as questões relacionadas a ciúmes e ainda por cima tira aquela obrigação de transar com a pessoa depois de brigar por alguma tarefa da casa, tipo lavar a louça.

Eu mesmo vivo um pouco esse modelo. Divido o apartamento com uma amiga hétero com quem compartilho ideais, momentos, contas e compras. Falamos sobre coisas, tomamos café juntos, algumas vezes jantamos juntos, mas cada um com seu quarto e seus crushes (ou namorados). Nesse modelo, duas amigas héteros podem se casar, se sentirem menos solitárias e viverem sua vida sexual, cada uma à sua maneira.

O sobre os filhos, quantos casais você conhece que tiveram filhos e se separaram? Talvez já começar esse projeto baseado nos valores de cada um e menos na paixão entre as partes, pode já deixar tudo mais organizado de partida. A criança vai ter as figuras de cuidadores e entender desde cedo que eles se admiram, se respeitam e têm afeto um pelo outro. Imagina como a conta da análise vai ficar mais barata?

Talvez não seja pra você, mas pode ser pra muitos

Eu sei que muita gente vai achar essa ideia completamente maluca e sem sentido, mas a verdade é que tá cada vez mais difícil achar esse pacotão incrível por aí. Então cada um tem que começar a se perguntar se deve se privar da experiência de morar junto com alguém ou de ter filhos, só porque não achou a pessoa ideal. O casamento pode ser mais um lugar de parceria, afeto e apoio emocional no longo prazo e menos um sonho.

Não estou dizendo que todas as pessoas vão ter que viver esse arranjo de separar essas três áreas, mas acho importante provocar e alertar para essa possibilidade. Existem outras narrativas e arranjos possíveis e cada um vai encontrar a sua maneira de ser feliz, mas de fato, a mesma receita não está servindo pra todos.