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Uma balanço da solteirice e das relações no ano de isolamento social

Quais foram os principais desafios dos solteiros em 2020? - Freepik
Quais foram os principais desafios dos solteiros em 2020? Imagem: Freepik
Carol Tilkian e André Lage André Lage

sobre os colunistas

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Colunista do UOL

28/12/2020 04h00

2020 não foi fácil pra ninguém, mas foi especialmente duro com os solteiros. Difícil ficar quase um ano sem ver amigos, sem conhecer novos crushes, ir à festas e paquerar livremente por aí. Foi um ano de pausa e reflexão, mas isso não significa que não tivemos muitos ganhos.

Vou elencar os maiores aprendizados que tive esse ano sobre a solteirice e sobre mim mesmo. Vou colocando os links dos textos que Carol Tilkian e eu escrevemos aqui na nossa coluna, caso queira ler mais sobre eles.

Vou me jogar na paquera digital

Logo no início da pandemia os apps de paquera bombaram. O Tinder liberou a função passaporte e depois de algum tempo eu estava dando matches com argentinos. Começamos a paquerar nas lives e parecia que iríamos nos adapatar ao "novo normal". Mas não demorou muito até que a gente começou a perceber que estávamos usando os apps de paquera como antidepressivos.

Logo começaram a surgir os ghostings e as faltas de respeito quarentênicas, sempre justificadas pela situação que estamos vivendo. De fato é muito difícil continuar batendo papo com alguém durante meses sem ter a perspectiva de um encontro cara a cara. Só o digital não sustenta o ecossistema da paquera. Resultado: burnout afetivo e férias para a vida amorosa.

Melhor mudar o foco

Quando o jogo da paquera começou a perder a graça, eu fui deixando a vida amorosa de lado. É muito difícil continuar querendo conhecer pessoas novas em meio a tantas notícias horríveis. Comecei a focar minha energia em aprender a fazer pão, plantar uma horta orgânica e dar atenção à minha família, já que eu tinha o privilégio de passar a quarentena com eles. Confesso, foi libertador! Entender que posso direcionar minha libido para outras áreas, deixa tudo mais leve, inclusive o amor. E ao parar de pensar tanto em crushes, adivinha em quem eu pensei: em mim mesmo!

Então, tenho que olhar pra dentro?

Esse processo de interiorização não foi nada fácil. Difícil conviver 24h com suas próprias questões. Como muita gente, eu enfrentei questões duras na família e acabei entrando em um processo depressivo. Foi difícil entender que estava mal, porque ninguém fala muito sobre depressão masculina. Para sair dele, com ajuda da terapia, tive que aprender a me cobrar menos e aceitar que não ia dar conta de tudo. Tive que rever minha relação comigo mesmo, ser menos duro, ser meu amigo.

A verdade é que a gente idealiza o autoamor, acha que uma vez que a gente se ame vai ser tudo mais fácil. O que eu aprendi é que (como em qualquer outra relação), se amar tem seus dias bons e ruins. Tem horas que você se odeia e horas que você se ama, mas o autoamor é acima de tudo se respeitar e ter autocompaixão. Não se culpar por estar mal, acolher e respirar até que os dias ruins passem.

E o futuro, como será?

A quantidade de notícias sobre a morte obviamente fez todo mundo ter mais medo de morrer sem ter vivido um amor de verdade. É claro que a perspectiva de morrer sozinho é assustadora, mas ao longo da quarentena vi que falta me fazem os amigos. Dizem que quem tem amigos tem tudo e acho que isso é uma verdade.

Penso na minha avó, com seus 92 anos, separada e morando sozinha desde os 40. Ela sempre me disse que nunca se sente sozinha. Ela faz amigos novos e cultiva os antigos, mas comecei a perceber a diferença das relações dela pras minhas: a dedicação. Ela mantém as poucas (e boas) amizades através de ligações constantes e cartas - sim, ela troca cartas. E eu ficava achando que só encaminhar gifs iria garantir meu futuro em uma comunidade de amigos?

Vou ter lutar pelas relações que eu quero

Construir uma relação amorosa ou de amizade exige empenho de energia e encontros cara a cara. Claro que conhecemos novos crushes pelos aplicativos e mandamos mensagens de voz para nossos amigos. Mas somos animais sociais, precisamos de olhar no olho do outro, ouvir sua respiração, sentir o seu cheiro. Aí reside nossa humanidade.

Esse ano me fez pensar muito sobre como tenho investido meu tempo nas relações e sobre a qualidade dos encontros. Quantas vezes não fui encontrar amigos e fiquei respondendo whatsapp ou até vendo stories ao invés de ouvir, conversar! Quantos matches têm consumido meu tempo ao invés de investir em alguém que já conheci?

Não colocar todos nossos ovos em uma cesta só parece ser uma decisão inteligente para evitar grandes frustrações, mas dessa forma estamos trocando relações reais com suas dificuldades por meras conexões.

E como vimos na pandemia, conexões não são fortes o suficiente pra segurar nossa barra nos dias ruins. Não há espaço em uma relação de contatinhos para esse suporte emocional. Tem um TED da Sherry Turkle que fala muito sobre essa mudança na qualidade das relações

Ano que vem (assim que vacina chegar), prometo que serei um amigo e um crush muito mais dedicado. Já deu de relações digitais pra mim, em 2021 vou resgatar minha humanidade.

Feliz ano novo!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.