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Por que os filmes de Natal insistem que solteiro quer namorado de presente?

Presente de natal que não gostou Alto Astral - Tinatin1/Getty Images/iStockphoto
Presente de natal que não gostou Alto Astral Imagem: Tinatin1/Getty Images/iStockphoto
Carol Tilkian e André Lage

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Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

Colunista do UOL

09/12/2020 04h00

Querido Papai Noel,

2020 definitivamente não foi um ano fácil... Para segurar a onda desse resto de ano e tentar reativar um suspiro de esperança e bem-estar, nada como recorrer a alguns artifícios típicos desses tempos natalinos: generosas fatias de chocotone, abundantes taças de vinho e a maratona dos famosos "filmes de Natal". Não sei como andam os streamings por aí, mas nos meus essa categoria de filmes está mais presente nos catálogos que uva passa em arroz de ceia. Acho que está todo mundo precisando de bastante conteúdo água com açúcar para adoçar tempos amargos.

A tentativa é válida, ok. Mas e a raiva ao perceber que todos os tais filmes de Natal - que deveriam nos deixar felizes e esperançosos - só reforçam o preconceito com a solteirice?

Como se não bastasse ter que enfrentar a tia Cleyde na ceia me olhando com piedade e dizendo que não gostaria de morrer sem me ver com um namoradinho, agora a Netflix, a Amazon e a Disney+ fazem questão de sentenciar para o mundo que o único presente possível para alegrar a vida de um solteiro é o mágico aparecimento de um par amoroso.

As sinopses dos últimos hits natalinos contam com articulações como como (prepare o estômago): "cansados de estarem sozinhos, dois estranhos aceitam acompanhar um ao outro em todas as festas do ano"; "uma professora de ciências desiludida no amor reencontra o sentido da vida ao conhecer um cavaleiro medieval" ou "duas irmãs solteiras, infelizes, com muitas frustrações tentam encarar o Natal". Tá bom pra você?

É claro que as comédias românticas sempre existiram. Eu mesma sou uma consumidora ávida desses enredos que inflaram minhas expectativas, deram nó na minha cabeça e já me renderam muitas sessões de análise (dá pra mandar a conta da terapia pra Hollywood?). Mas acho importante a gente questionar que em pleno 2020, com a multiplicação de canais, de produções e de narrativas possíveis, simplesmente TODOS os filmes de Natal retratem os solteiros como carentes, desesperançosos e desesperados pra achar seu + 1.

É importante que a gente se questione sobre o impacto da cultura em nossa autoimagem. Sou fã de um documentário chamado Miss Representation que aborda o impacto social da representação da mulher na mídia. Através de dados e diversas entrevistas com especialistas eles mostram como aprendemos que o valor da mulher está conectado a seu padrão de beleza, a sexualização e ao tal par amoroso. Em 2011, quando o documentário foi feito, só 16% das protagonistas do cinema eram mulheres e nesses filmes a imensa maioria dos enredos girava em torno da conquista do grande amor. Ou seja, crescemos massacradas com a ideia de que temos que ser lindas, sensuais e que venceremos na vida se ganharmos a aliança da caixinha azul e mudarmos nosso sobrenome pra incluir o do maridinho.

É claro que essa pode ser uma felicidade possível, mas tem que ser a única?

Minha provocação é: já que estamos discutindo e repensando os gêneros e os impactos da mídia na maneira como nos enxergamos e nos colocamos no mundo, por que não ampliamos a discussão também para nosso estado civil? Precisamos parar de representar o solteiro como alguém carente, amargurado e inferior. Dá para gente ser mais do que a tia solteirona que tem a casa escura e cheia de gatos ou a mulher que tem que comer na mesa das crianças no Natal porque é a única que não casou. Contar com filmes, séries e novelas que abordem outras narrativas da vida do solteiro é essencial para desconstruir o preconceito externo e interno em relação a quem não casou.

Podemos seguir com enredos mágicos e esperançosos natalinos mas porque não mudar a vida da protagonista solteira fazendo com que ela consiga finalmente viajar para a Itália, pisar em uvas e montar sua vinícola; ou milagrosamente descobrir a vacina para um vírus que estava afetando a população do mundo todo?

É importante criar repertório de outras conquistas positivas na vida que sejam tão valorizadas como a conquista de um amor. Enquanto acharmos que nossa felicidade plena depende única e exclusivamente de um par amoroso, as chances de entrarmos em relações tortas ou de topamos migalhas são altíssimas. Precisamos assimilar a ideia de que estar com alguém é uma opção e não uma salvação.

E já que Hollywood ferrou tanto nossa cabeça, conto com as novas produções para disseminar essas novas narrativas.

Papai Noel, nunca te pedi nada depois de crescer: se esse ano você puder dar um gás nessa vacina e um toque na Netflix, serei eternamente grata. Beijos ansiosos pelos novos filmes de Natal e pela aglomeração 2021!