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Perceber que nossos pais envelhecem é um processo doloroso, mas inevitável

Carol Tilkian e André Lage André Lage

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Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Colunista do UOL

07/12/2020 04h00

Desde a escola a gente aprende: nasce, cresce, reproduz e morre. Mas, de todas as etapas, a última é a mais difícil e tentamos de todos os modos negar que ela vá acontecer - principalmente em relação a quem amamos tanto. Quem tem pais idosos sabe do que eu estou falando: se dar conta de que eles estão envelhecendo e vão precisar que nós cuidemos deles é um processo doloroso, mas inevitável.

Durante a quarentena, minha mãe, uma mulher forte e independente, adoeceu e perdeu grande parte da sua autonomia. Foi um choque. Eu que sempre me vi na posição de filho, sendo cuidado, de repente estava na posição de cuidar dela. Uma inversão de papéis onde os filhos viram pais dos pais. Mas, diferente de criar uma criança que evolui diariamente, o trabalho de cuidar dos pais vem com muita angústia porque eles vão perdendo pedacinhos de vida a cada dia. Quase ninguém fala sobre as dores que surgem nesse processo, e esse assunto precisa ser discutido para que as pessoas saibam que não estão sozinhas.

Listo então os 3 principais medos que percebi em mim e nos soltos que me escreveram quando contei, no instagram do soltos, sobre o que eu estava passando. Foi impressionante a chuva de histórias parecidas.

1. Medo de perder o nosso porto seguro

Desde que nos entendemos por gente sabemos que, quando tudo dá errado, temos a quem recorrer para um colo. O amor dos pais é a coisa mais linda que conhecemos porque além de ser incondicional, ele sempre existiu e a gente nunca parou pra refletir como seria a vida sem ele. Mas há um momento muito específico na vida de cada um, quando a gente percebe que, em algum momento adiante, vamos ter que nos virar sem essa base.

Não é à toa que muitas pessoas nos seus 30 e tantos anos declaram que agora sim querem encontrar "um parceiro pra vida toda". De alguma maneira a gente tá procurando um substituto para esse colo dos pais. E nisso a gente sai pelo mundo em busca de um amor que nos dê a mesma segurança, coisa que não existe, já que o único amor que é eterno (até que a morte nos separe) é o amor dos pais. Aqui temos que ter muita atenção para saber diferenciar quando estamos buscando um parceiro ou alguém que nos ame como nossos pais.

2. O medo de abdicar da vida pessoal

Todo mundo tem seus sonhos e planos, mas quando a gente se dá conta de que nossos pais vão precisar da nossa presença física, rola um medo de ter que deixar nossa vida em modo espera. E pior, ninguém sabe quanto tempo essa espera pode durar. Sejamos realistas, cuidar deles gera um desgaste físico e emocional enormes: administrar remédios, ajudar a ir ao banheiro, levar a médicos, preparar refeições, dar banho, cuidar da casa e fazer compras. É um trabalho de tempo integral e pouca gente tem condições de contratar cuidadores profissionais.

Isso fora o desgaste emocional. Manter a calma e o bom humor não é nada fácil quando temos que limpar cocô e ainda não somos reconhecidos pelo trabalho. Muitas vezes a pessoa que está sendo cuidada fica irritada porque está perdendo sua autonomia e acaba descontando em quem cuida. E haja elevação espiritual para não ficar com raiva!

Nesse processo, vida amorosa e planos de viajar o mundo vão por água abaixo e nós começamos a sentir o peso desse fardo. Não é fácil, mas é real.

Essa responsa acaba injustamente ficando sempre com os filhos solteiros, porque "afinal de contas eles não têm uma família para cuidar". E claro que em uma sociedade machista como a nossa, o peso sempre cai para as filhas mulheres. Quando estava no hospital, uma enfermeira chegou a me perguntar se minha mãe não tinha filha mulher, como se isso fosse um dever único e exclusivo das mulheres. Esse trabalho tem que ser dividido entre os filhos. E se você é filho único, vale pensar em estratégias de colaboração com outros filhos únicos na mesma situação, porque é muito difícil dar conta de tudo sozinho.

3. Medo de não conseguir dizer tudo a tempo

Muita gente me escreveu dizendo que temia não conseguir ter um tempo de qualidade ao lado dos pais em seus últimos momentos. Sabe essa coisa de uma cena final feliz antes da morte que vemos nos filmes onde os filhos finalmente dizem tudo que precisavam pros pais? (pqp, até a morte a gente romantiza?). E eu fiquei me perguntando, por que a gente fica esperando esse momento final para acertar as contas e abrir o coração? Não seria melhor já dizer tudo agora?

E como faz para não perder a sanidade mental?

Se você chegou até aqui, provavelmente está se identificando. Então, vou dividir meus aprendizados na esperança de que eles acalmem seu coração:

  1. Nossos pais já nos ensinaram tudo e já nos deram todo amor que podiam. Eles fizeram o trabalho deles. É duro encarar que, nessa última parte do caminho, teremos que seguir sem eles, mas é parte da vida. Esta autonomia é um enorme amadurecimento e vai trazer muitos aprendizados.

  2. Quem cuida de quem cuida? Nós mesmos. É preciso se dar colo, aprender a acolher inclusive os sentimentos ruins que surgem nesse processo. Claro que recomendo fortemente terapia, se você pode pagar. Mas só de se cobrar menos e saber que fazemos o que podemos dentro dos limites da nossa vida é libertador e vai deixar tudo mais leve.

  3. Sobre as coisas não ditas, minha psicanalista fez uma ótima provocação: "nem tudo precisa ser verbalizado. Só estar ao lado ou conversar pode ser uma maneira de dizer eu te amo". Acredite no vínculo mais do que nas palavras.

Como último pensamento, precisamos entender que, se esse momento é difícil para quem cuida, é ainda mais para quem é cuidado. Encarar nossa própria finitude e perder a liberdade não deve ser nada fácil. Temos que ser empáticos com eles e saber que, de vez em quando, vamos ser saco de pancada sim. Lembre-se que você quando criança já descontou muito neles.

E também: é muito importante não fazer com que eles se sintam um fardo nas nossas vidas. Eles nos criaram pro mundo e se sentem mal de ver que estão empatando a vida dos filhos. Por isso, viva seus planos (dentro do possível), encontre momentos de alegria e válvulas de escape. Cuidar da nossa saúde mental é um ato de amor: cuidar de si também é cuidar deles.

Essa semana fiz um vídeo falando sobre a minha experiência. Se quiser assistir, é só clicar aqui.