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Like configura cantada? Qual o limite da fidelidade no digital?

Carol Tilkian e André Lage

sobre os colunistas

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

Colunista do UOL

18/11/2020 04h00

Essa semana um seguidor nos escreveu no inbox do Soltos s.a. angustiado com uma questão que provavelmente também já passou pela sua cabeça: as relações nas redes são tão importantes quanto as na vida real? A pergunta dele partia da tentativa de lidar com a frustração de um namoro recém terminado e entender se havia feito algo de errado.

Ele nos contou que estava apaixonado e envolvido mas que a relação desandou por uma sucessão de crises de ciúmes em decorrência do seu comportamento nas redes. Na concepção da então namorada o fato de ele curtir fotos e posts de outras mulheres significava estar flertando com elas. E a pergunta que ele nos fez, eu faço aqui pra vocês: E ai, likes significam?

Antes que vocês respondam mentalmente, quero trazer com essa história um outro questionamento: De que vale despendermos uma energia gigante tentando mapear e catalogar as atitudes de nossos rolinhos ou namorados nas redes em busca de possíveis indícios de periguetagem e traição? No caso da história enviada pra gente, a namorada do cara chegou a fazer um pequeno dossiê com as curtidas que ele havia dado nas fotos de suas amigas antes e depois do namoro, comparando a variação de likes e de perfis curtidos e, assim, o acusando de infidelidade. Antes que a gente se pegue pensando "gente, que menina louca! fazer um dossiê?! Para que?" acho importante dividir aqui que a loucura dela é a loucura de grande parte dos solteiros.

Essa semana lançamos um vídeo no canal falando sobre o medo de se apaixonar e virar a pessoa louca. Sabe aquela sensação de que toda sua maturidade, seu autocontrole e seu alinhamento de chakras vão por água abaixo no momento em que o coração bate mais forte? Pois é, esse medo é hit entre os solteiros que, ao menor sinal de borboletas no estômago, veem sua versão louca ressurgir das cinzas e tomar suas vidas com uma sucessão de neuroses e pensamentos obsessivos. E adivinhem qual é a maior loucura confessada pelo povo? A loucura do stalking e da tentativa de controlar o outro.

O famoso medo de fazer papel de trouxa vira profecia?

Essa loucura do stalking é alimentada diretamente por um comportamento que chamamos "à espera de um desastre". Parece que somamos os perdidos e faltas de respeito que vivemos nas relações anteriores com as muitas histórias de traição de conhecidos e famosos e chegamos inevitavelmente a uma crença de que ninguém quer nada com nada e que, mais cedo ou mais tarde, os hormônios vão falar mais alto do que o amorzinho e a gente vai ser passado pra trás.

Eu, que estou solteira há quase sete anos, sei bem que tem muita gente babaca nesses matches de meu deus. Mas será que tomar a parte pelo todo não tá fazendo com que alimentamos uma profecia auto realizável? Não sei vocês mas eu, quando entro nesse modo louca-stalker-desconfiada já me vejo domada por um azedume e muitas vezes deixo de aproveitar momentos gostosos com o crush por que estou tentando sacar se minhas hipóteses e teorias pessimistas estão corretas. Por que, claro, a gente é stalker louca mas não quer que o outro saiba que a gente é stalker louca. Então fazemos o que? Chuva de indiretas, de olhares compridos quando o celular dele vibra e de respostas atravessadas quando a pessoa justifica porque não vai poder nos encontrar naquele dia. E esse modus operandi é a pura auto sabotagem por que, ao alimentar essa atmosfera de desconfiança e até um mini-rancor antecipado por uma traição que você tem certeza que está prestes a acontecer, fatalmente a relação se desgasta e acaba. E ai, se você ainda está tomada pela loucura, ao invés de perceber a auto sabotagem, vai interpretar o fim do namoro como a confirmação de que suas hipóteses estavam corretas e que, mais uma vez, ninguém presta.

A ilusão do controle

Acho que toda essa loucura stalker é uma tentativa desesperada de acharmos que temos clareza e controle da relação. Mas a verdade é que a gente não controla nada nessa vida. E tentar controlar o incontrolável só gera gastrite, insônia e desgaste. Como Daniel Omar Perez disse em uma entrevista no canal, se relacionar é fazer uma aposta no abismo. É confiar e se entregar.

Será que se a gente gastasse um terço da energia que gasta stalkeando lendo coisas interessantes, vendo séries que nos inspiram e se dedicando em criar momentos gostosos pra relação nossa vida não seria mais leve? A gente usa a desconfiança como escudo mas ela tem nos corroído sem nos darmos conta. Esse mecanismo nos deixa presos ao papel da vítima e da mulher traída e nos impede de ver que existe uma escolha que é nossa: queremos construir ou acusar?

Conversar ainda é o melhor remédio

Voltando a pergunta do início do texto: dar likes é flertar? Algumas pessoas flertam com likes sim e outras simplesmente estão passando o tempo sentados na privada esperando o intestino funcionar e, para se distrair, distribuem coraçõezinhos nas redes. Muitas vezes a pessoa que interpreta o flerte no like alheio é justamente alguém que flertava assim. Este é o ciúme projetivo, como já nos explicou o psicanalista Leandro dos Santos. "Projetamos no outro ações que já fizemos ou desejos que estamos recalcando. Muitas vezes a pessoa que tem muito medo de ser traída é alguém que está abafando seu desejo por alguém fora da relação", comenta Leandro.

E, se os likes do parceiro incomodam, ao invés de criarmos teorias conspiratórias sozinhos, por que não conversar? Já que o louco despertou na gente, um movimento interessante a se fazer é escancarar ele pro parceiro e poder abrir o jogo sem acusar. Papos do tipo "Olha, eu sei que pode ser uma loucura mas fiquei mini com ciúmes daquela sua amiga de Tatuí que você tem dado likes nas fotos. Vocês já ficaram?" Quando a gente baixa a guarda e expõe nossas loucuras não só estamos dando a chance do outro nos responder como também convidamos ele a poder expor suas neuras e fragilidades. Assim, em vez de nos desgastarmos pra ter razão ou pra descobrir falhas graves, focamos as energias em construir vínculos mais fortes e momentos mais gostosos. Se for pra ser louca, que a gente seja louca com o outro e não contra ele, não acham?

Se você quer saber como sobreviver à solteirice em tempos de likes, segue a gente no YouTube e no Instagram. Toda semana a gente entrevista solteiros, especialistas e divide nossos aprendizados e teorias. Mande histórias e dilemas que a gente transforma em pauta!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.