PUBLICIDADE

Topo

Fui abordada pra ser sugar baby. Ele quer pagar pra conversar. Como agir?

Carol Tilkian e André Lage

sobre os colunistas

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

André Lage

Piranhas românticas, André e Carol são experts em solteirice e partidários do afeto mesmo nas relações casuais. Carol está solteira há 6 anos e já não troca a aula de hot yoga por um date mais ou menos. André está solto monogâmico mas já se esbaldou muito na vida de contatinhos. Publicitários e roteiristas, trabalham com comportamento e conteúdo há anos e decidiram se aprofundar no tema que é assunto da manicure à terapia: como se relacionar hoje em dia.

Colunista do UOL

21/09/2020 04h00

"Oi linda. Queria saber se você estaria interessada em ser minha sugar baby. Estou pronto pra te ajudar e você será paga semanalmente. Não estou interessado em nudes nem nada do tipo, só quero alguém que converse comigo todos os dias. Se você topar conversar comigo diariamente, será paga por isso <3 <3 <3"

sugar baby - Homem segurando dinheiro - Homem segurando dinheiro
Homem segurando dinheiro
Imagem: Homem segurando dinheiro

Recebi a mensagem acima esta semana no meu inbox e antes que vocês perguntem: não, não era spam, perfil fake ou golpe. Era uma mensagem real, de um cara real, que realmente estava acreditando me fazer uma proposta "ganha-ganha" tentadora. Minha primeira reação foi me sentir desrespeitada, invadida e ferveu em mim um misto de raiva e indignação. Que mundo é esse onde um completo estranho se sente à vontade para me oferecer dólares semanais (sim, eram dólares) em troca da promessa de conversas diárias? Mercantilizamos todas as relações e nos sentimos à vontade para pagar para que algo ou alguém supra todas as nossas necessidades, é isso? Parece que sim. Só na pandemia o cadastro em sites de relacionamento sugar (onde uma parte paga a outra em troca de acordos pré-estabelecidos) cresceram 80% ou seja, o tal cara sem noção do inbox tá na tendência de mercado. A questão é que eu não estou.

Olhava pra foto do perfil do cara e pensava: aqui está o puro retrato de um machista, babaca que acha que pode resolver tudo abrindo a carteira. Mas passada esta indignação primária, o que mais me fez pensar foi o pedido: ele queria alguém que conversasse diariamente, alguém que o ouvisse, que estivesse minimamente presente. Se há algumas décadas precisávamos pagar por sexo, hoje transar já não é mais um desafio. Agora quero ver conseguir r um papo profundo e significativo num date? quem tá na pista há algum tempo como eu sabe que não anda nada fácil.

Acho que tão triste quanto achar que a gente pode resolver tudo pagando é perceber como vivemos em tempos de escassez de afeto. Quão pobres e fracos estão nossos vínculos amorosos, familiares e de amizade para fazer com que tenhamos que recorrer a completos estranhos para sermos ouvidos? Mas será que essa carência e solidão ao serem aplacadas de forma comercial não revelam também uma tentativa de se manter no controle dos vínculos e criar intimidade só até a página dois? Canalizei toda a raiva do cara para minha curiosidade de wannabee antropóloga e mergulhei no mercado da solidão.

Um pouquinho de constância e atenção, quem não quer?

A busca pela compra de carinho e atenção não é exclusividade dos homens: Revi o episódio de Tóquio do documentário Amor e Sexo pelo mundo com Christiane Amanpour no Netflix onde ela visita um clube de acompanhantes para mulheres. Segundo a professora Kukhee Choo estes são lugares com o objetivo de reproduzir "a experiência de um namorado". Lá as mulheres - que muitas vezes são casadas ou namoram - vão para serem ouvidas, elogiadas e receberem carinho. Coisas simples como prestar atenção no que eles estão falando sem interromper, fazer um afago nas mãos ou dar um abraço apertado fazem com que algumas japonesas gastem até 100 mil dólares por mês nesses lugares. Nesses clubes propositalmente o sexo e o beijo são proibidos, para que as clientes voltem sempre em busca de mais carinho e conversa. "No fundo elas sabem que estão comprando duas horas de afeto e atenção e tentam curar a falta de intimidade que sentem na vida real" afirma Kukhee Choo.

Confesso que uma parte de mim se identificou com as japonesas. Em tempos onde os caras ou querem vomitar todas as suas qualidades nos dates como se estivessem numa entrevista de RH ou passam mais tempo checando o instagram do que conversando com você ou - o mais recorrente - somem na nuvem de fumaça sem aviso prévio, clubes com as tais experiências de namorados atentos parecem programas tentadores. Mas enquanto terceirizarmos o afeto para fora da relação estaremos fadadas a namoros e casamentos com pouca troca e conexão, não acham? Talvez fosse mais econômico gastar parte dos 100 mil dólares mensais em terapia de casal...

Contrato de afeto - pasmem, isso existe

E é também dentro dessa lógica da garantia da entrega que se posicionam os sites de sugar. Portais como Universo Sugar e Meu Patrocínio reforçam que a grande vantagem dessas relações é que elas são explicitamente baseadas em interesse de ambas as partes. "Sugar Daddies e Sugar Babies sabem o que querem, o que podem oferecer e falam abertamente em acordos pré-estabelecidos, sem ter que se sentir culpados por seus desejos e intenções" defende um dos sites, que se coloca como mediador do tal contrato de afeto.

Tudo bem que não saber se a pessoa vai te ligar no dia seguinte ou vai estar disponível para uma conversa filosófica sobre o seu insight pós constelação familiar é angustiante, mas criar obrigatoriedades contratuais para a frequência e o modo da troca de afeto me parece pouco saudável. Por trás da premissa de que "o combinado não sai caro" enxergo uma outra frase clichê "tô pagando, tenho meus direitos".

Vulnerabilidade paga é vulnerabilidade controlada?

Quando transformamos os encontros em relações de "consumo humano" parece que por estarmos pagando, o outro tem a obrigação de nos elogiar, responder com os conselhos que esperamos e se calar quando não estivermos a fim de conversar. Ou seja, os tais carentes solitários que não têm vínculos amorosos talvez não queiram vínculos e sim uma plateia particular.

No soltos já entrevistamos uma cam girl que relatou que grande parte de seus clientes a procura pra desabafar sobre a vida. "Muitos deles falam pra mim o que não falam para as namoradas. Contam que perderam o emprego, que estão com problemas de saúde, crises de ansiedade..." revela ela, que prefere não ser identificada. Por um lado isso reforça como a tal masculinidade tóxica ainda faz com que esses homens se calem com as parceiras para performar ideais insustentáveis de macho-alfa. Por outro revela um outro lado tóxico: a necessidade de controle. Quando eles não querem mais falar com uma Camgirl, simplesmente desligam a câmera e desaparecem e, ao desabafarem, só querem ser acolhidos, nada de dedo na ferida. Será que as sessões de webcam não deveriam ser substituídas por sessões de terapia?

Os sites sugar falam que nessas relações "Tudo é combinado, sem mal-entendidos". Mas momento da verdade: as relações são cheias de mal-entendidos e parte da beleza deles é aprender a flexibilizar, construir e ajustar as rotas com o outro e não fazer valer nossa própria vontade 100% do tempo.

Acho válido que o tal cara que me escreveu por inbox queira alguém para conversar, trocar e construir um vínculo de afeto. Também ando doida pra aprofundar as relações. Mas não acho que pagar por intimidade constrói intimidade. Meu recado pra ele é: você quer uma companheira? Batalhe por isso. Se abra, seduza, se interesse pelo outro, encare o desconhecido e construa o vínculo aos poucos, até que as conversas se tornem diárias.

Sim vai dar trabalho, sim, as vezes vai ser frustrante mas como diria Bauman "os relacionamentos são bênçãos ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e não há como determinar quando um se transforma no outro". Não creio que existam relações de verdade onde "tudo é combinado, sem mal-entendidos" Há que se bancar os riscos, sem garantia de dinheiro de volta, não acham?

Se você quer saber como sobreviver à solteirice em tempos de likes, segue a gente no YouTube e no Instagram. Toda semana a gente entrevista solteiros, especialistas e divide nossos aprendizados e teorias. Mande histórias e dilemas que a gente transforma em pauta!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.