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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Aborto cai nos EUA e lei é contestada no Brasil: dia triste para mulheres

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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

24/06/2022 12h45

Hoje é mais um dia triste para as mulheres. Um dia de comemoração para os ultraconservadores. A Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou o direito constitucional que garantia o aborto em todo o país.

Esse direito era válido em todo o país desde 1973. Agora, cada estado vai decidir. Essa é uma pauta que há anos vem sido levantada pelos conservadores e grupos religiosos. Os chamados "pró vida", que condenam o aborto em todo tipo de situação, até quando mulheres são estupradas, crianças e correm risco de vida.

Esse é um retrocesso para o mundo todo, já que abre prorrogativas para mudanças de leis em países onde o aborto é liberado e também dificulta que seja liberado em países como o Brasil, onde a interrupção de gravidez é permitida em casos de anencefalia, quando a gravidez é resultado de estupro e quando a gravidez coloca em risco a vida da mulher.

Tem quem ache que até nesses casos o aborto deveria ser proibido, por mais que isso seja uma situação que cause imensa dor e trauma para as mulheres. O governo Bolsonaro faz parte dessa corrente. E comemora hoje a vitória dos "pró vida" nos Estados Unidos.

O presidente do Brasil disse no Twitter ontem que a menina que engravidou aos 10 anos (e agora tem 11) em Santa Catarina não devia ter feito um aborto. Em vários tweets, ele disse que um crime havia sido praticado e que era "inadmissível tirar a vida de um ser inocente".

A reação do presidente veio depois que o Ministério Ministério Público Federal informou, na quinta-feira, que finalmente o desejo da menina e de sua mãe tinham sido atendidos: a gravidez foi interrompida na quarta-feira no Hospital Universitário Polydoro Ernani de São Thiago, em Florianópolis.

Essa notícia foi um alívio para muitas de nós (me incluo), já que a menina e sua mãe tiveram esse direito negado por médicos, juízes e promotores, que deviam a amparar e seguir a lei. Ela também foi submetida a tortura psicológica por uma juíza.

As pessoas cujo trabalho seria proteger essa menina parecem não ter se preocupado com a consequência que levar uma gravidez até o fim aos 11 anos poderia causar a ela.

No caso da lei brasileira, a menina teria que ter sim, esse direito garantido. Segundo reportagem do jornal "O Globo", ela teria tido uma relação consensual com um menino de 13 anos. Só que, de acordo com o ECA, não existe "consentimento" nessa idade.

Para Bolsonaro, isso parece não importar.

"Um bebê de SETE MESES de gestação. Não se discute a forma que ele foi gerado, se está amparado ou não pela lei. É inadmissível falar em tirar a vida desse ser indefeso!", escreveu no Twitter.

Como assim não se discute a forma como ele foi gerado? E como um presidente da república deixa claro que o fato estar amparado pela lei "não se discute". Ele acha que a lei não precisa ser cumprida?

Ele disse também: "para nós, tanto a criança de 11 anos quanto o bebê de sete meses são vidas que precisam ser preservadas. Para vocês e todos que promoveram essa barbárie, somente uma dessas vidas importa a e outra pode ser descartada"

Como assim "vocês que promoveram essa barbárie?" Barbárie é essa menina ter sido abandonada pelo estado, que deveria acolher a ela e sua mãe e fazer seus direitos valerem.

Se a lei tivesse sido cumprida, a menina não precisaria interromper uma gravidez com 29 semanas. Ela teria feito isso antes, há quase dois meses. Isso, de fato, seria muito melhor, já que, tanto psicologicamente quanto fisicamente, seu trauma seria muito menor.

Ela também deveria ter recebido suporte psicológico, mas, ao contrário disso, foi torturada por uma juíza, que disse, entre outras coisas, que "seu bebê iria agonizar". Isso sim é uma barbárie. Esperamos que esse horror não se espalhe pelo mundo.