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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Excel após date? Direitos iguais não têm que ser sinônimo de mesquinharia

A jornalista Silvia Vasconcelos, 31 anos - Reprodução/Instagram
A jornalista Silvia Vasconcelos, 31 anos Imagem: Reprodução/Instagram
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

17/05/2022 04h00

Você sai para ter um primeiro encontro com um cara que parece legal. Vocês comem hambúrguer, tomam café. Aí, alguns dias depois você recebe uma planilha de Excel, com todos os dados tipificados e tudo o que você precisa pagar, como se o date tivesse sido, na verdade, uma reunião de condomínio. Afinal, em que outro tipo de "encontro social" você recebe depois uma planilha com os gastos a serem pagos?

Essa história aconteceu, na vida real, com a jornalista Silvia Vasconcelos, que viralizou no TikTok rindo de si mesma com a roubada em que se meteu. A planilha recebida por ela incluía tudo, até cervejas e cafezinhos. E concluía que ela tinha que pagar R$ 45,55. Depois de contar o caso, ela teve que gravar outro vídeo, já que muitos usaram seu infortúnio para falar: "ué, mas as mulheres não querem direitos iguais?"

Queremos, sim. Queremos muito. Só que direitos iguais não têm conexão alguma com mesquinharia. E, no caso da planilha, se eu fosse a Silvia, ficaria realmente assustada. Uma pessoa que faz isso me parece perigosa. O que ela faria depois, cronometrar seu banho na casa dele? E se ele faz planilha Excel para um date, imagina quantos ele não faz para cada saída com os amigos?

Silvia pagou o que devia e o bloqueou o cara. Acho que ela foi corretíssima. E para aqueles que estão com esse papo: "ah, mas vocês querem direito igual e depois reclamam", algumas explicações:

Antes de tudo, querer direitos iguais não é querer receber uma planilha de Excel te cobrando um hambúrguer. Na verdade, receber planilha dessas, mesmo sendo a da reunião de condomínio ou de algo relacionado a trabalho, é algo que pessoas como eu gostariam de evitar para sempre (que me perdoem os amantes de planilhas).

E, no caso da questão da conta e dos "direitos iguais" (sim, repito: queremos, queremos muito.), eu explico. Querer direitos iguais não significa que queremos viver em um mundo onde as pessoas agem com mesquinharia.

Queremos salários iguais, queremos poder pagar nossas contas e até poder convidar pretendentes e amigos para jantar com nosso dinheiro, por que não?

E aceitar que um homem pague uma conta no primeiro encontro não tem absolutamente nada a ver com direitos iguais. Na verdade, é tudo muito simples. Quem tem dinheiro e quer pagar a conta? Paga! Qual o problema disso? Tem vezes que você sai para jantar com uma amiga, está com dinheiro e tem vontade de pagar, de fazer uma gentileza. Não é assim que acontece?

Por que seria diferente em um primeiro encontro? Nesse caso, realmente acho que não tem regra. Se o homem quiser pagar, beleza. Se a mulher tiver grana e decidir pagar, tudo certo também. E, claro, podemos dividir. Só que isso a gente fala na hora. É só pegar o papel e olhar para a pessoa e dizer: "a gente divide essa?". Pronto. Resolvido. E sem planilhas de Excel.

Divisão de renda

E tem outra, não há nada mais natural do que quem estiver com mais dinheiro, pagar. Exemplo, você está com um bom salário e sabe que sua amiga está desempregada. Você vai dividir tudo com ela? Precisa?

No caso dos homens, uma amiga me lembra de um detalhe. Mulheres ainda ganham em geral apenas 78% do que os homens ganham. Então, queridos, pagar poderia ser até uma maneira de ajudar a solucionar o "gap" entre gêneros.

Mas, tanto no amor como na amizade, a modalidade que mais gosto é a "conta conjunta". Não estou falando de você e o "conje" terem a mesma conta no banco (nesse caso sou contra), mas de uma conta imaginária que amigos ou casais fazem entre si e que funciona da seguinte maneira: "deixa que hoje eu pago". "Ah, tá, a próxima é minha". E assim, na confiança e no amor, vocês vão se acertando.

Nada como a "planilha de Excel imaginária da amizade". Eu tenho provas: funciona.