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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Janja e Michelle: parem de tratar primeira-dama como candidata a miss

Janja e Lula casarão na próxima quarta-feira, 18, em São Paulo. - Reprodução/Instagram
Janja e Lula casarão na próxima quarta-feira, 18, em São Paulo. Imagem: Reprodução/Instagram
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

16/05/2022 11h05

Faltam pouco mais de quatro meses para o primeiro turno das eleições presidenciais. É natural que se fale muito do assunto. Mas quem, no momento, está no foco do debate, recebendo ameaças, críticas, e elogios calorosos por sua beleza não é nenhum dos pré-candidatos mas sim Janja, a socióloga e noiva do ex-presidente Lula (eles se casam na próxima quarta-feira, 18).

Janja foi um dos assuntos mais comentado do Twitter no Brasil durante todo o fim de semana e recebe ataques horríveis. Ela tem aparecido muito na campanha? Sim. E o mesmo faz Michelle Bolsonaro.

Esse ano, os coordenadores das campanhas dos principais candidatos —o atual presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Lula— parecem ter decidido colocar as mulheres dos candidatos à presidência em posição de destaque na campanha. E, claro, essa foi também uma escolha delas, que precisa ser respeitada.

No caso das campanhas, essa tática parece ser um jeito de atrair eleitoras mulheres (somos a maioria, e muitos analistas dizem que nosso voto será decisivo nessa eleição). Até aí, ok.

Só que as redes foram tomadas por uma espécie de "duelo" entre as belezas e qualidades de Janja e Michelle Bolsonaro. Isso diz muito sobre a sociedade machista que é o Brasil, já que os "debates" nas redes sociais viraram praticamente uma disputa sobre qual dos dois candidatos "tem a mulher mais bonita".

Basicamente, Janja e Michelle são tratadas como mulheres que participam de um concurso de miss. Muitos comentários nas redes comparam suas belezas, suas roupas, seus nomes. A disputa presidencial, basicamente, no momento virou um duelo de fandom de mulheres.

"A Janja nunca terá a classe da Michelle, as roupas que ela usa são horríveis", comentaram em um post no Twitter onde eu falava, justamente, que não era justo que mulheres recebessem os ataques em uma eleição onde elas não participam como candidatas.

Seus comportamentos também são analisados, no maior estilo "estão ou não se comportando como boas esposas?", como lembrou minha amiga Eva Uviedo. Uma colunista de jornal chegou a publicar uma coluna com o título: "Menos, Michelle e Janja!".

Como assim? Voltamos aos anos 50, quando moças de família faziam cursos de boas maneiras e recebiam aulas de como se portar e ser uma boa esposa para o marido?

Conceito datado

Na minha opinião, sinceramente, a existência do "cargo" de primeira-dama (e isso ser levado a sério) é tão datada que me remete ao seriado Bridgerton, que se passa em 1800. Na série, uma moça vira condessa por se casar com o conde.

Em uma República, em 2022, isso faz sentido? Para mim, nenhum. Mas, claro, a mulher que for casada com o presidente que ganhar vai escolher como vai querer participar. E isso deve ser respeitado e não analisado por "fiscais de comportamento feminino".

No caso dos ataques, eles são inaceitáveis. Em vez de atacar mulheres que não são candidatas, que tal debater sobre os candidatos? Deixem o ódio a mulheres fora disso.