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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Grace e Frankie' dá adeus ensinando a encarar morte e velhice com leveza

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Imagem: Reprodução / Internet
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

03/05/2022 04h00

Quando "Grace e Frankie" estreou, em 2015, logo a série mostrou que era revolucionária. Essa foi a primeira vez que duas mulheres de mais de 70, encenadas com genialidade por Jane Fonda (a vaidosa Grace) e Lily Tomlin (a hippie Frankie) foram retratadas como mulheres únicas, engraçadas, inteligentes e de vanguarda. Além disso, elas também (surpresa) tinham vida sexual, ao contrário das "avós" da maioria das séries.

Para quem nunca viu (e não sabe o que está perdendo) o enredo é basicamente esse: depois de serem abandonadas por seus maridos, que revelam que além de sócios, são amantes que decidiram sair do armário e se casar, duas mulheres completamente diferentes de mais de 70 passam a morar juntas. Grace é burguesa, fina. Frankie é uma filha de Woodstock que resolve seus problemas fazendo rituais místicos, tomando chá de cogumelo e fumando baseados.

A amizade das duas, apesar de improvável, vira uma irmandade. Juntas, elas criam um vibrador para mulheres da terceira idade e uma privada que ajuda os idosos a se levantarem, a "Rise Up". Seus maridos também vivem as graças e as agruras da vida de um casal gay que se assume na terceira idade.

A dupla formada por Grace e Frankie, em todos os episódios, passa por aventuras incríveis, hilárias, e dá lições de sororidade (o verdadeiro amor entre mulheres).

Só que na vida tudo tem um fim. E o mesmo vale para Grace e Frankie. A última temporada da série teve todos os episódios liberados na Netflix semana passada. E, como essa é uma série cujos heróis já passaram dos 80 anos, o final é mais melancólico do que quando outra de nossa série favorita acaba.

No momento, Jane Fonda (Grace), tem 84 anos. Lily Tomlin (Frankie), 82. Martin Sheen (Robert) e Sam Waterston (Sol) têm 81. E o mais bacana é que os autores do seriado não fogem disso. E por que fugiriam, em uma série onde os temas mais tabus de todos são escancarados?

Então, na sétima temporada (que tem momentos hilários), os personagens estão envoltos (contém spoilers) com problemas como progressiva perda da memória, medo da morte, perda da capacidade de fazer o que se ama, como pintar, fazer teatro.

Sim, ninguém gosta de pensar nisso (e vai acontecer com todo mundo que não morrer jovem) mas Gracie, Frank, Sol, Robert e os roteiristas da série conseguem tocar nesse tema de um jeito leve, por mais impossível que isso possa parecer. Alguns momentos da sétima temporada são melancólicos, claro. Mas com ternura e humor.

Questões da velhice, como "ficar esquecido", e ter que consultar um médico que vê que isso é uma doença progressiva e o medo da morte que leva a ataques de pânico pode ser retratado de maneira cômica. Quem já tinha falado disso sem tabus na televisão?

E por isso mesmo, se você teme que uma das heroínas morra no final, relaxe. Grace e Frankie são imortais.