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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gabriel Monteiro: o perigo do cara violento que não sabe ouvir não

Na terça-feira (5), o Conselho de Ética da Câmara do Rio abriu uma representação disciplinar contra o vereador Gabriel Monteiro - Renan Olaz/CMRJ
Na terça-feira (5), o Conselho de Ética da Câmara do Rio abriu uma representação disciplinar contra o vereador Gabriel Monteiro Imagem: Renan Olaz/CMRJ
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

06/04/2022 04h00

"Antes do ato sexual ele disse que não iria pôr o preservativo. E eu questionei, falei: "você tem que colocar, sim, o preservativo. Nessa hora ele simplesmente ignorou tudo que eu tinha falado e começou a relação sexual". Esse é um dos relatos de vítimas que acusam o vereador carioca Gabriel Monteiro (PSD) de estupro.

O ex-PM, político e youtuber (ele tem 6, 2 milhões de inscritos em seu canal) é acusado também de assédio sexual e moral e está sendo investigado. Na terça-feira (5), o Conselho de Ética da Câmara do Rio abriu uma representação disciplinar contra ele.

Pelo menos três mulheres dizem ter sido estupradas por ele. As histórias seguem alguns padrões. Um deles é que o estupro costuma ocorrer em uma relação que começou consentida e as vítimas aceitaram transar com o vereador até que o comportamento dele se tornou violento.

Elas pediram para que ele parasse. Ele não parou. E não parar quando uma mulher pede é estupro, isso tem que ficar muito claro.

No caso que citei, quando ele transa sem camisinha com uma mulher contra a vontade dela, ele comete uma violência dupla: tirar a camisinha no meio do sexo sem o consentimento da parceira também é estupro.

Mas será que homens como Gabriel aceitam ouvir não?

Na semana passada, assim que as denúncias contra Gabriel vieram a público, um vídeo dele transando com uma menina de 15 anos circulou pelas redes sociais. Os dois disseram que a relação era consensual, assim como a gravação. Segundo ele, a menina teria dito para ele que era maior de idade.

Mas nem todas as mulheres disseram sim para esse tipo de vídeo. Também semana passada, o deputado Giovani Ratinho (Solidariedade) entregou 6 fitas de vídeos para a polícia. Segundo ele, em pelo menos 3 vídeos as mulheres foram filmadas depois de dizerem que não queriam.

"Será que foi estupro?"

Algumas das mulheres que denunciaram Gabriel por estupro disseram ter demorado para ter certeza que tinham sido vítimas do crime. Dá para entender

Denunciar abuso sempre é difícil. Entender que foi vítima de um estupro de um cara com quem você estava ficando e aceitou transar é ainda mais complicado. A denúncia fica ainda mais difícil por se tratar de um cara famoso, poderoso e com postura violenta.

"Será que essa violência não é o jeito dele?", elas podem ter pensado.

O mesmo vale para as funcionárias de seu gabinete que o denunciaram. Segundo elas, ele as abraçava à força e exibia o pênis ereto em ambiente de trabalho.

É bizarro pensar que isso aconteceu na câmara dos vereadores do Rio de Janeiro. Um lugar onde deveria existir decoro. Mas tudo indica que sim, aconteceu. São muitas denúncias. E não, mulheres não decidem denunciar um homem em grupo para "destruí-lo".

Depois que as denúncias foram divulgadas, outros tipos de abusos feitos por Gabriel vieram à tona, como manipulação de pessoas humildes que aparecem em seus vídeos, armação de cenas falsas etc.

Também na semana passada, ele foi condenado pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro a indenizar um médico por danos morais. Motivo: em setembro do ano passado, ele fez uma visita surpresa à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Engenho de Dentro, na zona norte do Rio. O médico estava no quarto de repouso dos profissionais com outra médica (de roupa, cada um em uma cama). Gabriel invadiu o quarto filmando e acusando os dois de estarem tendo relações íntimas.

Pode? Não. Não pode! Tanto que, nesse caso, os médicos conseguiram uma liminar que proibiu que o vídeo fosse exibido.

Que seja assim. Alguns sujeitos, e parece ser o caso de Gabriel, só aprendem que não podem tudo quando são punidos pela justiça. E muitas vezes, nem assim...