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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Eduardo Bolsonaro pagará por ataque à Miriam Leitão ou acataremos barbárie?

Eduardo Bolsonaro debochou de tortura sofrida por Miriam Leitão na ditadura militar brasileira - Reprodução
Eduardo Bolsonaro debochou de tortura sofrida por Miriam Leitão na ditadura militar brasileira Imagem: Reprodução
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

04/04/2022 11h31

"Estou com pena da cobra". Essa frase foi escrita no Twitter por Eduardo Bolsonaro em ataque à jornalista Miriam Leitão. Miriam foi barbaramente torturada na ditadura militar. Ela estava grávida e, entre outros horrores, seus algozes usaram uma cobra para torturá-la. E, sim, o deputado federal teve a desfaçatez de fazer piada com isso.

Apologia à tortura é crime. Eduardo devia ser preso ou no mínimo perder seu cargo como deputado. Não há nota de repúdio que funcione em um caso desses. A não ser que a barbárie continue a ser normalizada no Brasil.

Infelizmente, ele não deve ser punido. Assim como seu pai nunca foi. Eduardo segue os passos do presidente, que deve estar orgulhoso da piada misógina e pró tortura do filho.

Afinal, no dia do impeachment da presidente Dilma Roussef (outra mulher brasileira vítima da tortura) ele dedicou seu voto a "Brilhante Ustra, o terror de Dilma Roussef". Ustra, venerado pelo presidente, era chefe do Doi Codi, um dos principais centros de tortura do Brasil, e ficou conhecido pela sua crueldade. O que o Bolsonaro fez nesse dia? Apoiou abertamente a tortura de Dilma. E, como sabemos, não só ele não foi preso nem perdeu o mandato e ainda foi eleito presidente.

Jair Bolsonaro já disse também que o problema da ditadura era ter torturado e não matado. Depois disso, repito, ele foi eleito. A barbárie já foi normalizada. E venerar torturador compensou.

Os homens que odeiam as mulheres

A frase misógina de Eduardo lembra também o famoso ataque de Jair à deputada Maria do Rosário. "Você é muito feia para ser estuprada" é muito parecido com "tenho pena da cobra". Esses homens que odeiam as mulheres acham que estupro ou tortura são "punições" aceitáveis. Ou atos que uma mulher "merece".

Difícil ter palavras para descrever o horror que é um homem que ocupa um cargo público fazer piada com a tortura de uma mulher grávida. Como chegamos nesse ponto? Onde foram parar as aulas de história?

Muitas mulheres, para quem faltou às aulas de história, foram torturadas na ditadura militar. No caso delas, a crueldade aumentava com a prática de estupro, introdução de ratos e cobras em suas vaginas, tortura na frente dos seus filhos. Choques nas partes íntimas. Sim, é horrível.

Na Alemanha, onde moro, os horrores do nazismo são lembrados para que eles não se repitam. As memórias do holocausto não são apagadas, há monumentos para que todos lembrem-se do horror que já aconteceu um dia. Tenham vergonha e ele não se repita.

O mesmo deveria acontecer no Brasil quando o assunto é ditadura. As pessoas precisam se envergonhar. Enquanto um deputado fizer piada sobre isso no Twitter achando que está abalando (e o pior é que isso agrada a muitos) continuaremos aceitando a barbárie. É inadmissível.