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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A teoria sobre amor-próprio de Mayra Cardi e o risco de confiar em coaches

A ex-BBB Mayra Cardi mais uma vez viralizou com um de seus conselhos - Reprodução/YouTube
A ex-BBB Mayra Cardi mais uma vez viralizou com um de seus conselhos Imagem: Reprodução/YouTube
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

14/01/2022 04h00

Nos últimos dias, uma notícia mostrou o perigo dos coachs, esses profissionais que viraram moda nos últimos anos, de maneira literal.

Isso porque Pablo Marçal, que tem mais de 2 milhões de seguidores no Instagram, conduziu 32 clientes até uma montanha na Serra da Mantiqueira e, como o tempo estava ruim, eles tiveram de ser resgatados pelo corpo de bombeiros. E isso não é uma piada.

Mas mesmo quando os bombeiros não precisam ser acionados, confiar em coaches pode ser complicado. Isso porque existe, por exemplo, homem coach de "empoderamento feminino" (socorro!) e celebridades que viram coaches e, com isso, conseguem muitos clientes e podem cobrar muito caro, mais do que qualquer psicanalista com formação em Lacan na França e 40 anos de experiência.

Esse é o caso de Mayra Cardi, que mais uma vez viralizou com um de seus conselhos. Vale lembrar que tanto Mayra quanto Marçal se autodenominam coaches.

A ex-BBB é focada em "bem-estar" e boa forma e, segundo rumores, cobra R$ 10 mil por atendimento exclusivo. Não só mais do que um psicanalista, mas também muito mais do que um superqualificado médico endocrinologista, o indicado nos casos de emagrecimento, o carro chefe de Mayra.

Como coach, além de ganhar uma nota, Mayra já causou revolta, por exemplo, ao propagandear jejuns perigosos para a saúde.

Agora, ela causa polêmica também ao dar dicas sobre relacionamentos. Um trecho de uma participação dela em um podcast viralizou nos últimos dias.

"As mulheres me encontram e falam: 'eu amo o meu marido, mas não vou voltar para ele porque me amo'. Eu falo para ela: não é que você se ama. O nome disso é orgulho, não é amor-próprio. A gente confunde muito amor-próprio com orgulho. Amor-próprio é a gente fazer tudo que nos faz bem. Você acabou de falar que está sofrendo, então não é amor-próprio. É um orgulho", disse, com ares de especialista.

Fazer terapia também dói

Por onde começar? Bem, pelo fato de que mudar não é fácil e que quando a gente se separa de alguém (mesmo se for um cara que nos faz mal) a gente sofre. Esse também é um luto. Dando um exemplo mais óbvio ainda: um fumante que decide deixar o cigarro sofre. Mas faz isso por amor-próprio. Estar sofrendo não significa não estar fazendo algo bom para você. Inclusive, fazer terapia dói bastante.

E, não, eu não sou coach nem pretendo ser. Mas eu fiz mais de 20 anos de psicanálise.

Falando em psicologia, no mesmo programa, Mayra disse também que "mulheres reclamam e dizem que não são psicólogas de homem. Mas se você não for, outra mulher vai ter que ser". Chega a ser engraçado. Sim, ela sugere que a gente tentar "consertar" homens é uma forma de sororidade com as futuras namoradas do cara.

Seria engraçado e divertido se fosse apenas uma amiga ou parente dando conselhos. O problema da maioria dos coaches é que eles cobram. E, além disso, é muito diferente ouvir um conselho de uma amiga engraçada do que de alguém que está se colocando em um lugar de autoridade, em quem você pode confiar, que sabe mais do que você. Como diria o ditado, conselho não é bom nem quando é de graça. O que dizer então do conselho que é cobrado, e muito caro?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL