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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'A Filha Perdida' e o mito de que mulheres de meia-idade são solitárias

Olivia Colman em cena como a protagonista Leda do filme A Filha Perdida, estreia da Netflix - Divulgação/Netflix
Olivia Colman em cena como a protagonista Leda do filme A Filha Perdida, estreia da Netflix Imagem: Divulgação/Netflix
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

04/01/2022 04h00

Mulheres de meia-idade são solitárias, vivem com saudades dos velhos tempos, quando viveram os momentos emocionantes da vida que não se repetiram e, algumas vezes, são amargas. Esse é um estereótipo que, além de não ser verdadeiro, por anos ocupou a ficção e foi também a visão que a sociedade tinha de mulheres de seus 40 e muitos, 50 e poucos anos.

Sou uma das mulheres dessa faixa etária e estou aqui para dizer: não é assim. Minhas amigas da mesma idade também estão aí, cheia de planos, e provam que esse mito, se já eram absurdos no passado, não tem razão de existir em 2022.

Mas eles ainda estão presentes. E muito. Na semana entre o Natal e o Ano Novo, dois filmes com protagonistas de mais de 45 anos estrearam com destaque na Netflix. Isso é raro e uma boa notícia, já que representatividade importa. Mas, vi os dois e, com tristeza, preciso dizer: esse mito de que as mulheres com mais de 45 são solitárias e até amargas fazem parte dos dois.

O primeiro deles é o aclamado pela crítica e espectadores "A Filha Perdida". Nele, uma mulher decide passar as férias sozinha em uma praia na Grécia. Lá, é assombrada por fantasmas do passado quando encontra pessoas da ilha e reflete sobre sua vida.

Trata-se de uma adaptação do livro homônimo da escritora best seller que publica livros sob o pseudônimo de Elena Ferrante e dirigido por Maggie Gyllenhaal. O filme agradou os fãs da autora, mostra uma grande atuação de Olivia Colman e é considerado um dos candidatos ao Oscar. Mas, confesso, não consegui assistir sem sentir um incômodo com a maneira como a idade da personagem, de 48 anos, é tratada.

Explico. Ao encontrar pessoas na ilha, a personagem causa choque ao contar a sua idade. "Não acredito, você tem no máximo 40." "Você não pode ter 48 anos", dizem. Esse tipo de diálogo é repetido algumas vezes.

Os 48 anos de idade da personagem são vistos como algo muito esquisito, uma idade onde mulheres não se atreveriam a ir à praia e muito menos viajar sozinhas.

Aproveito para dar uma dica: não fale para uma mulher que ela não parece a idade que tem. Isso não é um elogio, já que dá a entender que a idade dela é algo ruim.

Além disso, a personagem é infeliz e solitária. Não só pela idade, mas pelos seus dramas pessoais. Mas ainda existe, sim, uma insistência nas tramas e na sociedade de mostrar mulheres na meia-idade como umas solitárias, amarguradas, que estão sofrendo com a menopausa, em momento de revisão da vida e?. não é nada disso!

Tristeza não tem idade

A solidão também está presente em "O homem ideal", comédia alemã de Maria Schrader que foi escolhida para representar a Alemanha no Oscar 2022.

No filme, uma cientista solitária e workaholic, precisa fazer uma pesquisa com um cyborg que teoricamente é o homem perfeito para ela. E se confronta com a sua própria solidão e necessidades.

Não estou dizendo que não existem mulheres de meia-idade solitárias. Existe, claro. Assim como existem solitárias de todas as idades. Amargura e infelicidade também não são exclusivas de nenhuma faixa etária.

Como diria a música do REM (quem é de meia idade conhece): "todo mundo sofre". Fica a dica.